Coluna

Lima Barreto e Beto Freitas: sobre o perigo que espreita os negros

    Tanto o escritor do século 20 quanto o jovem gaúcho morreram, com uma diferença de quase 100 anos, de racismo. Para fazer do Brasil um país menos perigoso para a população negra, precisamos chegar antes da opressão

    Estamos com acesso livre temporariamente em todos os conteúdos como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos de assinatura. Assine o Nexo.

    Na biografia de Lima Barreto, não são poucos os episódios em que o autor narra práticas de discriminação e de preconceito racial, sofridos por ele, no contexto da Primeira República (1889-1930). Mas um caso, que ocorreu na época em que o futuro escritor era ainda estudante, chama particular atenção. A essas alturas, Lima era aluno da Escola Politécnica e sofria não só para passar em certas disciplinas (em cálculo, sobretudo), como por causa de atitudes ríspidas dos professores e colegas. O certo é que vivia constrangido diante dos alunos mais abonados, estudantes ricos que usavam polainas brancas, chapéu coco, bengala com aplique de ouro e se vestiam no Raunier – uma das lojas mais chiques da cidade.

    Se durante o período em que frequentara a escola e o colégio em Niterói ainda não sentira de maneira tão forte o impacto das diferenças sociais, no ensino superior, o fato de ser pobre e neto de escravizados passara a aparecer como um grande fardo. Seus colegas podiam comprar livros à vontade, frequentavam os melhores restaurantes, iam aos teatros sem ter que fazer contas. Já Lima, sofreria com o menosprezo dos colegas mais enriquecidos, que, vindos de diferentes estados do Brasil, faziam muitas vezes parte da extinta nobreza do Império e não traziam a cor negra tão evidente em seu semblante.

    Era duro ser um aluno negro diante de colegas que gostavam de ostentar um passado idealizado: nobre e europeu. Na foto de turma, ele está evidentemente deslocado, com uma roupa que não é sua, assim como não olha para o profissional que dirige a função e que pretende eternizar na base do clique os rapazes daquele ano.

    Antônio Noronha Santos, amigo de vida toda, e que nessa época cursava a escola de direito, narra uma história contada por um colega veterano acerca de um comentário maldoso que este fizera ao secretário da Escola Politécnica. Assim que soube da inscrição de Lima, comentou: “Vejam só! Um mulato ter a audácia de usar o nome do rei de Portugal”. Não é possível ter certeza se o episódio de fato ocorreu, uma vez que ninguém assumiu a autoria. Também sabemos que Lima não presenciou a maledicência; só ouviu falar dela anos depois. De toda maneira, a boutade não soaria estranha naquele ambiente formado majoritariamente por alunos provenientes das fileiras das elites agrárias do Império, que mesmo não sendo tão brancas como gostariam de parecer, carregavam, com sua situação social, uma forma de branqueamento e um senso estrito de hierarquia. Vestiam-se à europeia, tinham gostos importados de Paris, conviviam entre si, viajavam para conhecer capitais europeias, sofriam com os mesmos heróis da literatura romântica e frequentavam espetáculos vistosos da capital. Já Lima, na sua própria descrição, tinha “cabelo ruim”, era “azeitonado na cor”, vestia-se de forma modesta, e não disfarçava a origem.

    O companheiro de quarto, Nicolau Ciancio, lembra outro episódio que resume o que chama de ser um “complexo de cor” de Lima Barreto. Conta o amigo italiano, que Bastos Tigre, outro colega de turma, ao saber do ensaio na Companhia Lírica Italiana, que estrearia em poucos dias a ópera “Aída” na capital paulista, convidou os colegas de sala para que pulassem o muro do teatro. A ideia era assistir à função como penetras, o que daria um gosto ainda mais especial ao programa. O projeto logo se converteu em ação e em poucos minutos os garotos estavam nas galerias do Lírico. Ou melhor, quase todos, pois na última hora faltou coragem ao futuro escritor, que logo desistiu da aventura.

    Foi Ciancio quem, de volta ao quarto, indagou-o acerca da razão de sua desistência na última hora. A resposta de Lima não poderia ser mais límpida: alegou que não queria ser preso como “ladrão de galinhas”. Como o colega manifestasse incompreensão, Lima completou: “Sim, pois preto que salta muros de noite só pode ser ladrão de galinhas”. O amigo ainda tentou contestá-lo, alegando que isso valia para todos. Mas Lima encerrou a questão: “Vocês são brancos, rapazes da Politécnica. Acadêmicos. Fizeram uma estudantada... Mas eu? Um pretinho, era seguro logo pela polícia. Seria o único preso”.

    Dizer que o racismo é estrutural implica entender que a sociedade brasileira não só suporta ou se acomoda diante dele – ela o autoriza

    Mais uma vez estamos no terreno do diz que diz, uma vez que é o próprio Ciancio quem relembra a ocasião. De toda maneira, o episódio revela muito acerca de certa subjetividade dilacerada de nosso personagem, entre ser como é ou ser diferente. Esse era ao mesmo tempo um segredo íntimo e interno, e também uma verdade pública, provavelmente partilhada por muitos naquela faculdade, e entre o grupo de amigos mais próximos de Lima. Se o futuro escritor não disse, e o colega imaginou, com certeza era porque algo estava lá, aos olhos de todos, como mais um desses segredos de polichinelo da sociedade brasileira.

    O caso não está distante da experiência traumática de Isaías Caminha, personagem criado por Lima Barreto, que se descobre preto a caminho da cidade grande: o Rio de Janeiro. O menino saiu pela primeira vez de casa, e, criando coragem tomou o trem rumo à capital federal. Resolveu, porém, descer do vagão em uma determinada estação. “Tive fome e dirigi-me ao pequeno balcão onde havia café e bolos. Encontravam-se lá muitos passageiros. Servi-me e dei uma pequena nota a pagar. Como se demorassem em trazer-me o troco reclamei: ‘Oh!’ Fez o caixeiro indignado e em tom desabrido. ‘Que pressa tem você?! Aqui não se rouba fique sabendo!’”.

    A insinuação de roubo, a sensação de ser colocado num lugar que não era o seu, parece ter tomado o garoto, que não conteve as lágrimas. Mas Lima continua narrando, na boca de Isaías Caminha, o incidente que lhe marcou a existência: “Ao mesmo tempo, a meu lado, um rapazola alourado reclamava o dele, que lhe foi prazenteiramente entregue”. O contraste “feriu” o garoto “com os olhares que os presentes” lhe lançaram, assim como “cresceu a indignação”. Escreve Lima, com uma mágoa partilhada entre criador e criatura:

    “Curti, durante segundos, uma raiva muda, e por pouco ela não rebenteu em pranto. Trôpego e tonto, embarquei e tentei decifrar a razão da diferença dos dois tratamentos. Não atinei: em vão passei em revista a minha roupa e a minha pessoa. Os meus dezenove anos eram sadios e poupados, e o meu corpo regularmente talhado (...) As minhas mãos fidalgas, com dedos afilados e esguios, eram herança de minha mãe, que as tinha tão valentemente bonitas que se mantiveram assim, apesar do trabalho manual a que a sua condição a obrigava. Mesmo no rosto, se bem que os meus traços não fossem extraordinariamente regulares, eu não era hediondo nem repugnante. Tinha-o perfeitamente oval, e a tez de cor pronunciadamente azeitonada. (...) Por que seria então, meu Deus?”

    Difícil não reconhecer Lima, do alto de seus 19 anos, como autor e personagem dos relatos em que menciona a associação de pessoas negras com “ladrões de galinha”. Aliás, essas duas histórias de Lima não têm mais me saído da cabeça, sobretudo desde que tomei conhecimento do assassinato de João Alberto Silveira de Freitas no dia 19 de novembro de 2020. Lima morreu jovem, como Beto Freitas, com 40 anos. Morreu de uma parada cardíaca, conforme consta no laudo de falecimento. Mas sabemos que ambos morreram, com a diferença de quase 100 anos, de racismo.

    Negros e negras que entram em supermercados são muitas vezes seguidos, vigiados e se sentem vigiados. Lima não podia fazer uma farra e pular cerca – ou cometer uma pequena molecagem. Seria logo entendido como ladrão, enquanto que os demais não corriam esse perigo.

    A associação entre negritude e ladroagem é antiga no Brasil, quando uma pessoa negra circulando nas ruas podia ser presa apenas por “suspeita de escravo”. Mas é ainda atual neste país que pratica um racismo estrutural e institucional, cerceando, na base da “teoria profunda do costume”, lugares de acesso e convivência.

    Mas não adianta abusar de expressão elegante, e, ao mesmo tempo, apresentar a violência praticada diariamente contra a população negra no país como resultado de seguranças despreparados ou policiais intempestivos, como se o tema do racismo fosse questão individual e limitada a apenas certos grupos.

    Dizer que o racismo é estrutural implica entender que a sociedade brasileira não só “suporta” ou se “acomoda” diante dele – ela o autoriza.

    O rapper Emicida, grande filósofo e pensador desse país, disse que “a gente precisa chegar primeiro”. Sim, precisamos chegar antes do racismo e, enquanto isso não acontecer, o Brasil continuará sendo um país muito perigoso para a sua população negra.

    A primeira parte deste artigo é pautada na pesquisa que realizei para o livro de minha autoria chamado “Lima Barreto – Triste visionário”. (São Paulo, Companhia das Letras, 2018)

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.