Coluna

Familismo amoral e a ‘res publica’ em tempos de populistas

    A falta de confiança entre as pessoas cria um terreno fértil para governos autocráticos minarem instituições democráticas e modificarem os valores da sociedade

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    Fogos de artifício lançados contra o Supremo Tribunal Federal e palavras de ordem a favor do seu fechamento são ameaças facilmente identificáveis e, felizmente, a vigorosa reação da sociedade tem sido eficaz na sua neutralização. Mais difícil é interpretar e resistir ao estrago provocado pela disseminação sistemática do ódio e da falta de respeito à vida humana, diligentemente manipulada para provocar a polarização da sociedade, com o consequente aumento da desconfiança entre as pessoas e nas instituições. Chegamos a mais de 100 mil mortos pela covid-19 o número poderia ser muito menor, mas “e daí”?

    Tal quadro nos obriga a destrinchar as ideias e os valores que sustentam esse movimento, para conter o seu fortalecimento. Hoje olho para o papel da confiança nas interações sociais, cuja presença favorece atitudes cooperativas e construtivas em favor da “res publica”, a coisa pública, produzindo o desenvolvimento econômico, político e social de um país. A ausência da confiança gera um terreno fértil para o surgimento de populistas.

    Um dos elementos mais importantes do que se define como “capital social” de um país, a confiança entre as pessoas é o principal alvo contra o qual atiram governos autocráticos. Na defesa dos seus interesses, e na busca da perpetuação no poder, se dedicam não só a reescrever as leis (as instituições formais), mas também a alterar os valores e crenças das pessoas (as instituições informais). Precisam, ao mesmo tempo, desacreditar a Justiça e mudar as leis, pois sabe-se que pessoas que confiam mais umas nas outras são mais propensas a respeitar as leis, da mesma maneira que pessoas que acreditam que o sistema legal é justo e imparcial têm maior probabilidade de confiar nos outros indivíduos.

    A ausência de confiança entre as pessoas é encontrada em países, regiões ou grupos que geralmente permanecem à margem do desenvolvimento econômico e social, onde impera o que Edward Banfield nomeou de “familismo amoral”, cujo lema é: só respeite e só confie na sua família, jamais em estranhos. Vale a pena olhar de perto o que vem junto com esse fenômeno, cuja relevância resistiu ao tempo, pois ele lança luz sobre a origem de alguns dos problemas mais agudos que hoje enfrentamos no país.

    Só o exercício da tolerância, o respeito ao bem comum e a defesa dos princípios democráticos vão nos livrar do obscurantismo

    Banfield, um cientista político da Universidade de Chicago, decidiu estudar a causa do excepcional atraso econômico do sul da Itália, conforme contam Alberto Alesina e Andrea Ichino. E para lá foi Banfield, com a mulher e filhos, e durante um ano entrevistou os moradores de “Chiaromonte”, nome fictício de uma pequena cidade isolada e muito pobre na Basilicata. Das entrevistas feitas com os habitantes surgiu o livro “Moral Basis of a Backward Society”, publicado em 1958, que não só desvendou as raízes do atraso do local, como criou um conceito fundamental para explicar os efeitos da cultura nos resultados socioeconômicos em geral.

    As entrevistas apontaram a existência de uma peculiar estrutura familiar condicionando as relações sociais. Além da certeza de que só deviam confiar na própria família, as pessoas esperavam que todas as outras assim se comportassem, restringindo a existência de comportamentos colaborativos apenas ao interior de cada família. O medo de serem enganadas levava as pessoas a enganar as outras, conduzindo a sociedade a um péssimo equilíbrio, um pernicioso círculo vicioso baseado na desconfiança.

    Não por acaso os grupos mafiosos se autodenominam “famílias”. Banfield demonstra que as consequências do familismo amoral são devastadoras para a economia e para a sociedade de Chiaromonte. A falta de coordenação social impede que as demandas por estradas, hospitais, iluminação e transporte públicos se concretizem. Banfield notou que as casas onde as famílias moram eram bem cuidadas; já os lugares públicos, como praças, ruas e estradas, seguiam mal cuidados ou abandonados, explicitando a diferença entre valor atribuído pelas pessoas aos bens privados e aos bens públicos.

    Outra faceta do familismo amoral se manifesta na esfera política. Para os moradores de Chiaromonte, participar da política não significa cuidar da res publica no interesse da coletividade e sim desfrutar de um instrumento que dá acesso a vantagens pessoais, estendidas aos familiares. A expectativa é que todos os que entram na política são aproveitadores corruptos, pois predomina a crença de que ações que visem o bem comum só podem ser motivadas por segundas intenções, que mais adiante se manifestarão na busca do benefício privado. O interesse social não é representado politicamente, criando-se outra faceta do círculo vicioso da perda de credibilidade das instituições. Essas crenças e comportamentos conduzem a uma visão pessimista sobre a possibilidade de as coisas melhorarem na sociedade e a um profundo fatalismo, impedindo o desenvolvimento coletivo, asfixiando a economia, e criando um terreno fértil para que populistas assumam e permaneçam no poder.

    A crise financeira de 2007/08 abalou a confiança das pessoas nas instituições, formais e informais, ao explicitar a crescente desigualdade na distribuição dos frutos do desenvolvimento econômico. O florescimento das redes sociais se encarregou de espalhar os fatos, antes apenas pressentidos, junto com os quais vieram versões tóxicas da realidade, com objetivos específicos de disseminar ódio e rancor entre as pessoas, dividindo-as. Conflitos, antes latentes, afloraram, abrindo o caminho para que populistas alimentassem o descontentamento com mais desconfiança, transformando países em “Chiaromonti”, agrupamentos de pessoas que desconfiam de todas as demais, bolhas que não se comunicam, que se odeiam e se acusam mutuamente.

    Vítimas que somos de tantos anos de “nunca antes neste país”, “nós contra eles”, “pretendo beneficiar meu filho sim”, “e daí”, “vou intervir” e tantas outras pílulas diárias de venenos destilados e espalhados pelos extremos do espectro político, cabe a cada um de nós resgatar a confiança mútua e fortalecer os laços sociais. Só o exercício da tolerância, o respeito ao bem comum e a defesa dos princípios democráticos vão nos livrar do obscurantismo e do familismo amoral, que nos afasta da rota do desenvolvimento econômico, político e social do país.

    Cristina Pinotti é graduada em administração pública pela EAESP-FGV e cursou o doutorado em economia na FEA-USP. É sócia da A.C. Pastore & Associados desde 1993. Antes trabalhou nos departamentos econômicos do BIB-Unibanco, Divesp e MB Associados. Concentra seus trabalhos na análise da macroeconomia brasileira, com ênfase em temas da política monetária, relações do país com a economia internacional, e planos de estabilização. Nos últimos anos tem se dedicado ao estudo da teoria da corrupção e da história da operação Mãos Limpas, na Itália. É autora de diversos artigos e livros. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

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