Coluna

Eventos presenciais: por ora, querer não é poder

    Com a pandemia, congressos científicos, onde se discute coletivamente conhecimento adquirido, tiveram que ser realizados virtualmente. Ainda que o formato ofereça conforto e economia, estudos comprovam que nossa atenção diminui

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    Em novembro, ocorreu o maior congresso científico mundial sobre radicais livres. O evento é organizado por uma sociedade internacional cujo presidente eleito, tenho orgulho de dizer, é o professor brasileiro Francisco Laurindo — o que reflete a nossa longa tradição de excelência na área. Congressos científicos são momentos de trocas de informação entre pesquisadores, onde discutimos nossos resultados, recebemos críticas e sugestões, conhecemos especialistas em assuntos correlacionados que podem nos ajudar com problemas, e decidimos juntos em que nossas atenções e trabalho devem focar. São variáveis em tamanho, juntando de algumas dezenas a alguns milhares de especialistas de diversas origens e formações trabalhando em cima de um tema de interesse. Todos incluem também discussões profundas, com o mote de que a troca de experiências e de críticas construtivas produz melhor avanço de conhecimento. É assim que se faz ciência.

    Há alguns anos fui convidada para um congresso um pouco fora da minha área específica, porque os cientistas daquela especialidade queriam expandir seus conhecimentos para atuar na intersecção com a minha. Passei então dias escutando outros participantes e aprendendo muito sobre o assunto do evento: NADPH oxidases. Você provavelmente nunca ouviu falar dessas proteínas (uma família dentre as centenas de milhares de proteínas que temos), mas elas são importantes para seu sistema cardiovascular, imunidade e metabolismo, entre outras funções. Cerca de 150 cientistas do mundo todo trabalham em tempo integral com elas, e se reúnem para discutir cada aspecto: como é a sua estrutura, como medir suas atividades, como afetam diferentes funções das células, como podem ser moduladas etc. Vendo o cuidado que se toma com um assunto específico como esse, é impossível não pensar no absurdo desconhecimento do processo científico de pessoas que apoiam atitudes como movimento antivacina ou terapias alternativas. A ciência constrói conhecimento de maneira grupal mundial, discutindo, comprovando e testando cada passo da melhor maneira possível. Se a população observasse cientistas discutindo um único grupo de proteínas por dias inteiros em todos seus detalhes, acredito que entenderiam e respeitariam o método científico. O questionamento, aprofundamento e testagens constantes são o que fazem a solidez da ciência.

    Queremos estar presentes, mas ainda não devemos. Depois da vacinação, podemos debater como juntar as vantagens e desvantagens de eventos presenciais e virtuais

    Neste ano, como era de se imaginar, o evento de radicais livres não pôde ser realizado presencialmente; foi online. O programa estava excelente, e foi uma oportunidade de atualização, mas, como todas as atividades online, também deixou a desejar. Se por um lado há o conforto e a economia de evitar uma viagem internacional, por outro é comprovado que a atenção em apresentações e aulas online diminui após dez minutos, e eu certamente não fujo dessa regra. Para completar, ao permanecer no meu ambiente normal para participar do evento, também não pude me desligar de atividades usuais, e tive que coordenar isso com aulas e atividades administrativas. Por fim, não estar no lugar significa que não há interação informal entre pesquisadores, como o almoço no ano passado em que esbocei com um colega tcheco um projeto de pesquisa colaborativo. Queria estar presente fisicamente, imersa no evento, pois perdemos muito ao não estar no local com nossos pares. Mas um evento virtual é o que temos de possibilidade para o momento.

    Eventos virtuais são necessários porque há um vírus altamente contagioso e disseminado que mata pessoas e, como humanidade, não aceitamos que se morra desnecessariamente. Vírus não conseguem se reproduzir sozinhos — precisam infectar seres vivos para isso. Se nos afastarmos e usarmos máscaras para reduzir seu espalhamento, vamos preservar vidas. A ciência mostra isso claramente. A prática também: no Brasil, por características da nossa população e péssimos exemplos de gestores, nunca fizemos um isolamento realmente efetivo e, portanto, nunca mitigamos o contágio, apenas atenuamos — demos uma tapeada, no típico jeitinho brasileiro. Após meses de cansaço, muitos largaram até mesmo essas práticas parciais, e testemunhamos novo avanço das infecções.

    Já conhecemos formas de diminuir o contágio e melhores tratamentos. A prevenção com vacinas também está muito próxima, incluindo novas modalidades de vacinas nunca antes usadas, mas altamente eficazes e cientificamente instigantes. Tudo isso veio de tecnologias desenvolvidas há décadas, e debatidas minuciosamente entre cientistas em milhares de congressos, reuniões e laboratórios, questionando e testando cada passo do caminho.

    Queremos, como humanos que somos, estar presentes em eventos, mas ainda não devemos. A solução finalista virá em breve, e virá da ciência. Depois dela, podemos debater como juntar as vantagens e desvantagens de eventos presenciais e virtuais, e iniciaremos uma nova era em que usaremos a tecnologia para socializar porque queremos, não porque precisamos.

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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