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Coluna

Epidemias e racismo: partes de uma mesma equação

    A humanidade tem um longo histórico de usar xenofobia e preconceito como resposta a surtos de doenças

    No momento em que escrevo esta coluna, já são contabilizadas mais de 1,7 mil mortes na China por Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Em mais de 30 países existem casos confirmados. No Brasil havia 45 suspeitas que foram descartadas após de análise.

    É possível afirmar, a essa altura, portanto, que se trata de uma epidemia, uma doença infecciosa e transmissível que ocorre numa comunidade ou região e tem a potencialidade de se espalhar rapidamente entre as pessoas de outras localidades. A situação é, portanto, grave e merece toda a nossa atenção e respeito.

    Só o que não merece respeito é o preconceito que tem aumentado, exponencialmente, contra os chineses, causado por um outro tipo de “vírus” que atende pelo nome de racismo. Especialistas estão tentando lidar com a doença, mas não tem recursos para sanar os casos de xenofobia que ela tem trazido consigo.

    Nas redes sociais, em locais públicos e, em especial, em lugares fechados como ônibus, metrôs, shoppings, teatros, supermercados e cinemas, pessoas de ascendência asiática têm recebido agressões verbais e ofensas, além de piadas relacionadas à uma suposta falta de higiene por parte dessas populações. É fundamental não transformar a epidemia em um problema racial, ou imaginar que a China seria um “celeiro de doenças”. Não é – e não vale se escudar nesse tipo de argumento para tratar mal aqueles que têm tanto a ver com essa história quanto nós mesmos.

    Se é possível dizer que o aparecimento do coronavírus é recente, esse tipo de resposta humana diante de surtos ou epidemias é muito antiga. Várias doenças viraram, inclusive, metáfora negativa. O termo leproso, por exemplo, vem de um contexto em que essa doença admoestou boa parte da população e assim criou o estigma. O Bacilo Mycobacterium Leprae, também conhecido popularmente como mal de Lázaro, foi desde o século 6 associado ao pecado, à desonra e ao castigo divino. Era também vinculado a doenças de pele e venéreas. E foi assim que surgiu não a doença, mas o preconceito ao redor dela, pois supunha-se que o portador era um “pecador”. Foi apenas em 1873 que a bactéria foi identificada pelo norueguês Armauer Hanse (daí o nome científico Hanseníase), e as crenças que envolviam a doença, afastadas. Só o que não se afastou foi a conotação que o termo carrega. Essa continua a existir, como “praga social”.

    O mesmo aconteceu com a Peste Negra. Também conhecida como Peste Bubônica, a epidemia atingiu toda a Europa no século 14. A doença era transmitida por ratos e pulgas que estavam, por sua vez, infectados com a bactéria Yersinia pestis. A pandemia tomou uma proporção jamais vista, até então, por conta dos problemas de saneamento básico, que se tornavam estruturais com o crescimento urbano. 70 milhões de pessoas foram atingidas; 1/3 da população europeia na época. Mesmo assim, a Igreja Católica a entendeu como um castigo de Deus, e tratou de culpar os judeus, dizendo que se tratava de uma punição divina a esse grupo. O preconceito sobre essa população foi imenso, os atos de fúria também, até porque os padres costumavam afirmar que as pessoas afetadas estavam sendo, igualmente, destratadas pelo Divino. Mais uma vez, melhor culpar o “outro” do que reconhecer uma “conta coletiva”.

    O preconceito tem aumentado, exponencialmente, contra os chineses, causado por um outro tipo de ‘vírus’ que atende pelo nome de racismo

    Também a cólera, conhecida desde a Antiguidade, teve sua primeira epidemia global localizada em 1817, e gerou muito preconceito. Sujeito colérico é aquele, até os dias de hoje, considerado muito nervoso. O pior é que esse sintoma nada tem a ver com a doença em si. O vibrião colérico é transmitido por meio da água ou de alimentos contaminados. A cólera teria surgido na Índia e se espalhado pelos demais países durante o século 19. Por isso, não foram poucas as ações discriminatórias acusando indianos de não terem hábitos de higiene, os quais, diga-se de passagem, europeus e americanos também não possuíam. Gabriel García Márquez escreveu um belo romance e o chamou de “Amor nos tempos de cólera”, justamente fazendo uma alusão a uma sociedade intolerante e de relações abusivas. Novamente, a doença criou um adjetivo que nada tem a ver com ela.

    A tuberculose, também chamada popularmente – e de forma mais uma vez pejorativa no século 19 – de “peste branca”, criou uma imensa reação discriminatória contra os indivíduos que contraíam a doença, que deveriam ser apartados do convívio social. A moléstia tem registros desde os primórdios da humanidade, mas os primeiros relatos do surgimento dela datam do Egito Antigo, onde a tísica atingia mais a negros e nativos escravizados que viviam em péssimas condições de existência. O combate foi acelerado a partir de 1882, depois da identificação do bacilo de Koch, causador da doença. Se hoje ela é mais facilmente diagnosticada e curada, durante o século 19, na Europa, nas Américas e em especial no Brasil, ela era a que mais matava. A epidemia dizimou 1 bilhão de pessoas de 1850 a 1950. De uma forma geral, ela foi então vinculada, negativamente, às classes mais vulneráveis e causou imenso apartamento e discriminação social.

    Os exemplos de grandes epidemias são muitos e não darei conta aqui de descrever todos. Os casos mais famosos são a varíola, doença que atormentou a humanidade por mais de 3 mil anos e cuja vacina só foi inventada em 1796; a gripe espanhola, resultado de uma mutação do vírus da gripe, em 1918, que se espalhou rapidamente pelo mundo, matando em um ano pelo menos 50 milhões de pessoas; o ebola, que no ano de 2014 produziu um surto com o vírus dizimando, na África, entre 50% a 90% das pessoas que o contraíram em questão de dias; o tifo epidêmico, doença causada por um micróbio existente em piolhos, cuja vacina foi desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial; a malária, considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a pior doença tropical da atualidade; a febre amarela, provocada pela picada do mosquito Aedes aegypti (ele mesmo infectado), que matou milhões de pessoas no passado e hoje ainda assola regiões da América do Sul e da África; a Aids, doença identificada em 1981, nos Estados Unidos, e que logo ganhou o status de epidemia pela OMS; o zika, referência à floresta de Zika, perto de Entebe (Uganda), onde o vírus foi isolado pela primeira vez. Hoje intervenções humanas na natureza, cada vez mais agressivas, provocam o surgimento das chamadas zoonoses, a passagem de vírus dos animais para o homem.

    Cada uma dessas doenças guarda sua história, sua especificidade e desenvolvimento. Só o que há em comum é a maneira como a humanidade sempre reagiu a elas. Toda vez que não foi possível explicar o infortúnio, entender uma grande mortandade, dar guarida ao medo, e assim por diante, a saída sempre foi culpar ao “outro” e agir com racismo.

    Racismo é qualquer manifestação, individual ou coletiva, que justifique as diferenças, hierarquias e desigualdades entre seres humanos a partir de uma suposta realidade biológica, em geral tomada de maneira depreciativa. Raça é, portanto, um fator que diferencia, mas também hierarquiza sujeitos na sociedade.

    Ora, uma coisa é lidar com a doença e buscar debelá-la, ainda mais quando ela assume taxas epidêmicas. Outra é vincular uma moléstia a um grupo social, uma raça, e assim passar a discriminá-lo. Raça é um conceito que não se justifica biologicamente e que passou a ser usada apenas com fins políticos. Não existe raça, pois, apenas raça social; é uma invenção social. Também não vale culpar animais que em geral são portadores infectados.

    Sabemos, porém, que a humanidade é dura e teimosa na hora de aprender. Em geral prefere repetir comportamentos, com o racismo sendo uma das nossas maiores “doenças sociais”. Não há vacina que dê conta de exterminar esse mal. A única saída é a educação, porta segura para a diminuição da ignorância e da intolerância de todo tipo, que tem grassado de maneira epidêmica, e assim alarmante, entre nós.

    A última voga tem sido tratar de forma racista aos chineses, e culpá-los pelo mal que nos aflige. Discriminar chineses não é piada; é crime inafiançável por racismo.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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