Coluna

E o racismo, pode parar? O cuidado pessoal e coletivo como estratégia de sobrevivência

    Nos dados sobre a raça dos hospitalizados e mortos por covid-19 é possível analisar os silêncios e as pistas que revelam a desigualdade brasileira

    Na semana passada, saíram os dados com o perfil racial das vítimas no novo coronavírus nos Estados Unidos, confirmando aquilo que já esperávamos: se o vírus não respeita hierarquias de classe social e raça, ele se instala em sociedades altamente influenciadas por tais fatores, e a consequência disso estamos começando a perceber nos resultados desiguais dos efeitos sobre a saúde das pessoas.

    Chamou atenção das autoridades locais e estaduais o número de mortes entre a população afro-americana. Na pequena Nova York (geograficamente falando), a grande maioria dos casos se concentram nas regiões do Queens e Bronx (bairros de negros e latinos), chegando cada distrito a quase a metade de Manhattan, onde moram as elites da cidade.

    Em Milwaukee, onde a expectativa de vida média dos negros é 14 anos menor do que a da população branca, chega na faixa de 81% a porcentagem de afro-americanos mortos. Lá a população negra perfaz 26% dos habitantes. Assim como em Nova York, pessoas negras que buscam atendimento nos hospitais de Milwaukee encontram com um velho inimigo da sua saúde: o racismo estrutural. Diversos são os relatos das pessoas que são orientadas a voltarem para casa e se auto-medicarem.

    Em Michigan, onde somente 14% da população é negra, homens e mulheres negras totalizam 35% dos casos confirmados e 40% das mortes. Na Louisiana não é diferente. New Orleans já apresentava dados alarmantes sobre as vítimas negras em número desproporcional às vítimas brancas, algo que já era esperado, sobretudo, levando em consideração que a cidade havia acabado de festejar o carnaval (parece que estou falando de Salvador, mas é New Orleans). Pois bem, no estado da Louisiana, onde 33% da população é negra, é essa parcela populacional que corresponde a 70% das pessoas mortas… 70%!

    Os dados com perfil racial não foram fornecidos, até agora, pelo Centro de Controle de Doenças do governo federal, o CDC, na sigla em inglês. Quando questionado sobre os motivos que explicam esses dados e quais medidas serão tomadas para proteger a população afro-americana, o presidente Donald Trump disse, aparentemente surpreso, que não imaginava o que poderia explicar o número desproporcional de mortes de pessoas negras. A reação do presidente, como sempre desdenhosa, pode indicar uma possível resposta oficial: a primeira é que a população afro-americana pode ser acusada de morrer porque não seguiu as recomendações de saúde, seja por pobreza ou seja por ignorância. Um segundo possível argumento oficial seria que a população negra, de forma natural, deve ter características genéticas para as quais o vírus é mais fatal, ou seja, novamente, a culpa seria da natureza ou de deus.

    Vem da prefeita de Chicago, Lori Lightfood, primeira mulher negra eleita nesse cargo na cidade, uma fala oficial mais realista sobre esses dados. Se hoje sabemos os números sobre Chicago é porque foi sua iniciativa levantar os dados sobre o perfil racial dos mortos e infectados. Segundo ela, “os números são de tirar o fôlego... uma das coisas coisas mais chocantes que já vi como prefeita”. Assim como na Louisiana, na cidade de Chicago a população negra representa 70% dos mortos por covid-19, mas compõe 29% da população. Pesquisadores da área de saúde pública, assim como a própria prefeita Lori Lightfood, trazem informações que se aplicam a todo aquele país. São as condições de saúde da população afro-americana que levam esses números de óbitos às alturas: hipertensão, diabetes, problemas respiratórios como asma, além da má qualidade de vida, o que está relacionado a nutrição e ao racismo ambiental e estrutural – que se manifesta inclusive no serviço de saúde que é prestado a essa população. Enfim, todos esses fatores nos dão indicativos da causa da sua vulnerabilidade. Às pessoas negras tem sido negado o acesso aos testes (no Brasil também), e as condições de trabalho precárias fazem com que essas pessoas saiam de casa, na maioria das vezes, para trabalhar sem o acesso a ferramentas de proteção. Assim, o racismo estrutural, que opera inclusive no sistema de saúde, tem produzido esses números, por meio dos quais percebemos que negros morrem mais de covid-19 nos Estados Unidos por motivos bem conhecidos por nós aqui no Brasil.

    Portanto, antes que as piores previsões se confirmem e que digam que morreremos mais porque somos maioria da população, vamos aos dados.

    No Brasil, o vírus chegou por meio dos corpos das elites brancas do país. Aparentemente, diferentemente dos EUA, tivemos isso muito bem demarcado nas informações sobre o primeiro infectado no Brasil e sobre como o contato com trabalhadoras negras, sobretudo trabalhadoras domésticas, foi o vetor que levou o coronavírus para as comunidades pobres.

    Com o lançamento dos dados raciais nos Estados Unidos, ficamos aqui em estado de alerta. Respaldada nessas informações sobre o vizinho estadunidense, a Coalizão Negra por Direitos, organização que congrega mais de 150 entidades do movimento negro brasileiro, exigiu ao Ministério de Saúde a divulgação dos dados dos infectados e mortos por covid-19 no Brasil. O mesmo pedido de divulgação de dados com critério racial também foi pedido pelo SBMFC (Grupo de Trabalho de Saúde da População Negra da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade).

    Até a divulgação dos dados, os casos bem sucedidos de recuperação divulgados pela mídia já nos davam um indicativo do que seria confirmado pelos números por fim. As animadoras notícias de pessoas recuperadas, mesmo aquelas que compunham o grupo de risco, sobretudo pessoas idosas, mostravam famílias brancas de classe média celebrando a volta para casa dos seus entes queridos. Vejamos com cuidado essa informação: pessoas negras e brancas estão morrendo e adoecendo, mas o acesso à saúde privada e uma boa condição de vida e saúde pré-existente têm sido fatores importantes na cura da covid-19. Mas vamos ao que disseram os números divulgados no dia 10 de abril pelo Ministério da Saúde.

    Enquanto a pandemia vulnerabiliza nossa existência, a única coisa que sabemos com base nos dados é que a chance de as pessoas negras morrerem é maior

    Os dados demonstram que, entre as pessoas que tiveram a raça definida, a maioria dos mortos e diagnosticados por covid-19 é branca. Nos chama atenção que uma boa parte das pessoas mortas e internadas teve a raça ignorada. Pessoas brancas são 73,9% dos internados em hospitais e 64,5% dos mortos. Entre os hospitalizados, os negros são 23,1%, e lembremos que não estar hospitalizado não significa não estar doente.

    Duas pistas presentes nesses dados nos dão dimensão das desigualdades raciais no Brasil, inclusive durante a pandemia de coronavírus. A primeira delas é quanto à chance de morrer quando as pessoas estão doentes. Entre as pessoas brancas, o número de mortos cai cerca de 10 pontos percentuais em relação à hospitalização. Esse número entre as pessoas negras aumenta, ou seja, os negros hospitalizados são 23,1% e os mortos saltam para 32,8%. A chance de se recuperar da covid-19, portanto, é maior entre as pessoas brancas do que negras.

    Como vivemos no país da negação do racismo, ainda pode haver alguém que diga: bem, mas então os dados (os números) revelam que os brancos adoecem e morrem mais em números absolutos, do que estamos reclamando então?

    Pensar dessa forma seria uma falta de compreensão dos dados, mas sobretudo dos silêncios desses números e as suas evidências. Como historiadora, uma coisa muito importante na minha formação é saber analisar silêncios e pistas.

    De acordo com dados coletados pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 67% dos brasileiros que dependem exclusivamente do SUS são negros. Sabemos também que negros (pretos e pardos) compõem mais de 50% da população brasileira. O Ministério da Saúde afirma que 80% dos usuários de SUS são negros. Diante do maior desafio que o país vem encontrando, que são as subnotificações, a impossibilidade de testar toda a população e o método de seleção das internações que priorizam pacientes em estado grave, nos chama atenção um número silencioso: os 32% das pessoas mortas pelo covid-19, mas que não tiveram a raça registrada. Lembremos que profissionais e pesquisadoras da área de saúde já desenvolveram diversas pesquisas que demonstram como racismo institucional e seleção baseada na cor da pele têm, historicamente, permeado as relações entre a população negra que busca atendimento médico e as/os agentes de saúde. Cito aqui a pesquisadora Emanuele Góes, que em recente artigo aponta para a necessidade de pensarmos as implicações da pandemia em comunidades já marcadas pelos efeitos de políticas de desigualdade racial e exclusão.

    Lembremos que esses mortos cuja raça não foi identificada estavam internados sem seus familiares nos hospitais, portanto sem acompanhantes. Essas famílias receberam a notícia da morte do seu familiar por telefone e não tiveram direito a um velório, provavelmente. Agora lhe pergunto, conhecendo as relações raciais no Brasil muito antes do coronavírus, assim como as relações de classe, vocês acreditam que aquelas famílias cujo poder aquisitivo permite um tratamento mais humanizado nos hospitais privados compõem a maioria desses mortos sem identificação racial?

    O silêncio, associado à ausência de testes em massa para toda a população, sobretudo para aquelas e aqueles que agora, limpam, carregam, vendem, cuidam, não trabalham via home office e que usam transporte público, faz com que pouco saibamos, por meio de dados concretos, como o coronavírus tem afetado a população negra. Se, entre as pessoas brancas, 75% dos mortos estavam na faixa etária acima dos 60 anos, considerando as condições de vida e de saúde pré-existentes e as condições sanitárias das comunidades onde vivem as pessoas negras, podemos dizer que as pessoas negras são vulneráveis na mesma faixa etária das pessoas brancas?

    Já que pessoas assintomáticas e pessoas com sintomas leves não estão sendo testadas e ainda podem contaminar outro, qual o poder de disseminação dos vírus nas periferias?

    O racismo não nos deu e não tem nos dado trégua durante o período de isolamento social. Enquanto a pandemia vulnerabiliza nossa existência, a única coisa que sabemos com base nos dados é que a chance de as pessoas negras morrerem é maior.

    Ainda ontem, saí de carro pelas ruas de Salvador e em nada o passeio lembrou um domingo de Páscoa. Não teve queima de Judas nas ruas desertas por onde passei. Aqui e ali, vi pequenos grupos de homens de idades diversas, que enquanto desafiavam a morte afirmavam suas masculinidades ao jogarem o dominó domingueiro, fingindo que a vida seguia normal. Também vi algo chocante, a quantidade de moradores de rua idosos, homens e mulheres negras solitárias que aguardavam a morte chegar, ou um milagre.

    Ali, percebemos a trágica confirmação e efeito do discurso oficial: um que naturaliza essa morte solitária e sombria, e que afirma que inevitavelmente muitos idosos vão morrer (sobretudo os negros moradores de rua, pelo que vi). O outro efeito trágico de uma fala poderosa, masculina e irresponsável pode ser visto na atitude dos homens periféricos: nessa dança fatal com a morte, contam com sua condição de homens (ex-atletas ou não) para vencer o vírus, simplesmente ignorando sua letalidade. Imagino mulheres que convivem com esses homens limpando a casa obsessivamente, gerando debates no lar em nome da saúde da família. Essas desavenças, como aconteceu em todo mundo, têm aumentado os números da violência contra a mulher em tempos de isolamento social. O machismo e a violência continuam, também não param nesses últimos 30 dias de isolamento.

    Definitivamente, quem está no poder tem ideia de quanto o racismo legitima a sua pessoa, não importante sua intencionalidade (boa ou ruim). A prova disso, pode ser vista num vídeo que circula nas redes sociais e na imprensa soteropolitana no qual podemos ver meninos e jovens de uma comunidade de Salvador nadando num esgoto. Como quem mergulha num rio de doenças, com o corpo entregue às águas sombrias, os meninos nadam num mar de lama, como quem busque desesperadamente confirmar uma mentira: a de que brasileiros (negros) nadam no esgoto e nada acontece. A pessoa que filma a cena quase que reproduz uma fala que já foi dita em rede nacional: “Olha os meninos... Aí sossegados. A piscina é xixi de rato, leptospirose, dengue, chikungunya. Os meninos todos contaminados, não pega nada”.

    Essa fala de um morador da comunidade é a materialização dos desejos mais nefastos de quem vê na pandemia a possibilidade de resolver a questão do negro, vista por muitos líderes mundiais como um “problema”, promovendo um genocídio silencioso. Como afirma Achille Mbembe, a covid-19 tem sido usada por governos autoritários para aplicar políticas genocidas, pois autorizou o poder de intervenção social que definirá quem irá morrer e quem irá sobreviver.

    Por fim, pelo menos no horizonte próximo, o que vejo como solução é a resistência das populações negras. Resistir é nossa salvação, sempre foi. O cuidado com nossos corpos e a luta pela manutenção das nossas vidas, nesse momento, é algo revolucionário. A preservação da nossa vida da forma mais generosa e cuidadosa é hoje um ato de amor.

    Às pessoas que se consideram aliadas das populações negras, é hora de abrir a mão (e o bolso) buscando formas de apoiar quem se encontra em comunidades abandonadas. Produtos de higiene, dinheiro e comida devem ser do acesso de todxs. Ao mesmo tempo, nós, pessoas negras, nesse momento, temos papel fundamental na preservação das nossas próprias vidas, adotando medidas que nos salvarão e salvarão também as pessoas que amamos, na medida do possível. Essa será nossa expressão maior de amor e de cuidado enquanto não pudermos nos abraçar de novo.

    Precisamos de políticas públicas eficientes e que respondam às nossas necessidades, essa é a obrigação dos poderes públicos, afinal é para isso que estão lá. Associado a isso, é preciso também que tenhamos a consciência cotidiana da nossa importância, não só para nossas famílias e amigos, mas para nossas comunidades, pois afinal de contas, merecemos viver! Esse auto-cuidado, coletivo e pessoal, torna-se um ato de resistência, na medida que podemos notar, em muitas falas oficiais, um completo descaso com a vida das pessoas. É nosso papel gritar que não queremos morrer agora, sobretudo para quem nossa humanidade não é algo fundamental. Não dá para esperar muito de quem acredita que nossas vidas (desumanizadas) não importam.

    Como diz o rapper Emicida, numa música que gosto muito, “tudo que nós tem é nós”.

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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