Coluna

Desigualdade extrema: as mães solo e os bilionários da pandemia

    Enquanto a maioria da população vive as incertezas do desemprego e das falhas no acesso ao auxílio emergencial, os super-ricos brasileiros aumentam seus patrimônios

    Nesta semana, provavelmente, chegaremos ao número de 100 mil pessoas mortas pela covid-19 no Brasil. Também nesta semana, mais homens brancos ficarão bilionários, assim como mais mulheres, sobretudo negras e pobres, nutrirão a esperança de que finalmente poderão receber o auxílio emergencial. Além disso, muitos homens e mulheres que compõem a precarizada mão de obra nacional perderão seus empregos.

    Como historiadora, fazer projeções sobre o futuro é sempre um risco e um desafio, mas uma coisa que podíamos imaginar desde o início da pandemia é que as nossas desigualdades ficariam ainda mais escancaradas e profundas. Quem não sabe, mas quer entender como funciona aquilo que a intelectual, escritora, ativista, feminista negra e professora bell hooks chama de “supremacia branca capitalista patriarcal”, basta olhar para alguns números e desdobramentos da pandemia presentes em notícias da semana passada. A disparidade dos números não se dá por uma coincidência: a sua profunda diferença é nutrida pela própria desigualdade de gênero, de regionalidade, de classe e racial. Trocando em miúdos, para que o rico exista, é preciso que o pobre — melhor, que a mulher pobre fique ainda mais pobre.

    Entre as medidas de auxílio emergencial adotadas no Brasil no final do mês de março, uma delas previa que a mãe provedora, ou mãe solo, recebesse o dobro do valor pago a trabalhadoras e trabalhadores informais. Contudo, a incompreensão das desigualdades de gênero presentes em todas as esferas sociais tentou igualar os desiguais, estabelecendo um critério supostamente “neutro”, tratando as exceções como regra: no dia 22 de abril, parlamentares aprovaram um novo texto, estendendo o auxílio a pais e mães solteiros, independentemente do sexo. Este trecho da lei foi posteriormente vetado pelo governo federal.

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    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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