Coluna

Desde 13 de maio de 1888, o Brasil ainda nos deve muito

    Ninguém concedeu a liberdade a ninguém, ela foi fruto de lutas que atravessaram gerações e ainda se manifestam na sociedade brasileira

    Que sentimento é esse que faz com que o empresariado brasileiro — pequeno, médio ou grande — acredite que é obrigação da massa trabalhadora negra (de todos os tons de cor) sacrificar a vida para voltar ao trabalho?

    É domingo, dia das mães, enquanto tomo café da manhã com minha família, e temos nossa paz interrompida pelos buzinaços: é o protesto motorizado das elites de Salvador, que assim como seus pares em todo Brasil, insistem na quebra do isolamento social. Nem no dia das mães dão uma trégua?

    Encabeçados por apoiadores do presidente, homens e mulheres continuam sua campanha feroz e violenta pela volta ao trabalho dos pobres, ignorando assim as políticas de isolamento social que até então, assim afirmam cientistas e a OMS (Organização Mundial da Saúde), são ainda a medida mais eficaz de combate à proliferação do novo coronavírus. Danem-se os pobres, negros de todo tom de negritude. Balconistas, motoristas, professoras e sobretudo trabalhadoras domésticas (consideradas trabalhadoras de serviços essenciais) que voltem ao trabalho enquanto as elites protestam de dentro dos seus carros, preservados pelo isolamento social que condenam.

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    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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