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Coluna

Coronavírus e a mão da limpeza: quem suja na entrada e quem limpa na saída

    Penso em qual será o efeito da pandemia em quem não pode se dar ao luxo de passar os dias dentro de casa, trabalhando pela internet

    Desde que começaram as notícias sobre o alto grau de proliferação e contaminação do coronavírus, algumas coisas me chamaram muito a atenção. Antes de mais nada, quero lembrar que não sou epidemiologista e sim historiadora, intelectual e cidadã. Portanto, minhas opiniões são a partir daquilo que observo sobre o movimento da sociedade. Como pessoa que faz parte do coletivo social, faço o que recomendam especialistas: lavar as mãos, evitar aglomerações – enfim, as medidas de saúde que a esta altura já estão amplamente divulgadas.

    Eu estava nos Estados Unidos há quase 10 dias e fiquei abismada com o despreparo da maior potência mundial para enfrentar a doença. O presidente daquele país, tido como modelo do brasileiro, negava a gravidade do vírus, afirmando que ele seria como um gripe comum, tratada com ingestão de bastante água e sem a necessidade de isolamento e repouso. Cada vez mais a ferida da ausência do serviço público de saúde voltava ao centro dos debates. Segundo especialistas, o maior desafio dos EUA hoje é a oferta de testes para diagnosticar o vírus atendendo à demanda de casos suspeitos, que dobram de cada 5 a 7 dias. Os testes deveriam ser ofertados numa quantidade de centenas a mais do que estão sendo feitos hoje nos Estados Unidos, e só recentemente laboratórios de universidades obtiveram autorização do governo federal para produzir e oferecer os testes que diagnosticam o vírus, que já vinham investigando nos seus centros de pesquisa desde janeiro, como no caso da Universidade de Harvard, por exemplo.

    Somente após detectadas diversas falhas nos testes produzidos pelo CDC (sigla em inglês para Centro Federal de Controle de Doenças), é que as universidades puderam colocar em prática aquilo que já estavam pesquisando há meses, pelo menos. Entre os impérios econômicos, os EUA é o país mais atrasado no oferta de testes feitos, ou seja, tem muita gente que está infectada com o vírus e não sabe disso, proliferando assim a doença. O exemplo dos EUA nos lembra sobre a importância do serviço público de saúde e o papel das universidades e dos centros de pesquisa, também públicos, funcionando enquanto instituições autônomas.

    Após as pressões feitas pelo presidente Donald Trump aos cientistas estadunidenses para que descobrissem logo uma vacina para a covid-19, dizendo a eles “hurry up!”, acabo de ler um artigo em resposta muito pertinente, lembrando que ciência não se faz de noite para o dia, sem recursos. Viu aí? Recorrem agora às pesquisas científicas aqueles que acreditam que aquecimento climático não existe, que a Terra é plana e que os vírus são criações mentirosas de pessoas mal-intencionadas que querem derrubar líderes poderosos… a mesma reflexão vale para o Brasil, não é verdade?

    Outra coisa que me chama muito a atenção nesse debate todo sobre o coronavírus é sobre nossos hábitos de higiene. Ainda nos Estados Unidos, descobrimos recentemente que parte considerável da população branca, somente agora, está preocupada em adotar hábitos aparentemente básicos, como não sentar no vaso sanitário de espaços públicos ou usar papel higiênico.

    E aqui no Brasil?

    Depois de cortes nos gastos públicos, assistimos aos campus das nossas universidades ficarem mais sujos. O primeiro impacto foi sob o pessoal terceirizado da limpeza. Formadas na maioria das vezes por trabalhadoras negras, as equipes que não foram demitidas sofreram a sobrecarga de dar conta da limpeza das universidades. O resultado disso, como o corte de verbas para a educação nos afetou, percebemos na ida ao banheiro. Eis que agora, enquanto a vacina não vem, a higiene pessoal e dos espaços públicos é a forma mais eficaz de combater a proliferação do vírus. No último sábado (14) estive no campus da Universidade Federal da Bahia e um dos banheiros estava impecável. Um trabalhador negro, sozinho, limpava quase compulsivamente os banheiros masculino e feminino, ao mesmo tempo.

    Pensei no campus onde trabalho, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, que sofre com o corte de investimentos na educação e onde evito usar o banheiro faz tempo. Boa parte das salas de aula cheira a mofo, não tem ventilação, muitas vezes não temos água e ainda não dispomos de álcool gel. Portanto, ao mesmo tempo que sou totalmente avessa à instalação do estado de pânico, também penso nos efeitos desse vírus sobre as pessoas que não podem se dar ao luxo de passar os dias dentro de casa, trabalhando pela internet. Também penso sobre os efeitos do coronavírus sobre o comportamento social, uma reflexão que é sobre a cor e a classe social das mãos que fazem a limpeza.

    Se isolamento significa que as pessoas infectadas estão distantes de outras pessoas, por que as trabalhadoras domésticas não contam?

    Ainda ontem eu assistia a um programa de grande circulação na TV quando uma das pessoas infectadas falou: “o pior da quarentena é ter que cozinhar sua própria comida”. A outra afirmava que nunca havia se imaginado infectada com um vírus como esse. Ou seja, é como se fosse uma ousadia de vírus, que cego (assim como, em tese, a Justiça deveria ser) não tivesse respeitado as hierarquias sociais brasileiras jogando tudo de cabeça para baixo. O que esperavam? Certamente, que a covid-19 fosse como a dengue, a zika e a chikungunya, doenças “de pobre”, uma vez que estas últimas estão ligadas a questões de saneamento básico.

    Devemos confessar. Não é intrigante como, pelo menos dessa vez, não foi de início o pobre quem levou a pior? O primeiro caso de coronavírus veio de um cidadão brasileiro que estava a negócios na Itália. Na Bahia, o vírus chegou primeiro à festa de casamento de gente rica, diferenciada, trazido por um jovem que havia acabado de chegar nos Estados Unidos.

    Evidentemente que ninguém, absolutamente ninguém, deveria estar doente, mas por um pequeno instante respiramos aliviadxs: “Ufa, é doença de rico, não é problema nosso.” Um aluno meu, Gilberto, a quem disse que daria o crédito da frase e eu cumpro minha promessa aqui, me disse o seguinte: “que coronavírus professora? Isso aí a gente come com acarajé.” É claro que rimos bastante com a frase e a fala de Gilberto nos diz muito do nosso sentimento de que, pelo menos dessa vez, estaríamos livres de ser a linha de frente de mais um problema, sobretudo de uma pandemia.

    Mas alegria de pobre dura pouco, e aí recorro a outro Gilberto, dessa vez, o Gil. Na música “A mão da limpeza” o poeta nos diz que é a mão preta que, desde a escravidão, vive “limpando as manchas do mundo com água e sabão”, enquanto o branco suja.

    Vem do Rio de Janeiro e de Feira de Santana (Bahia) dois exemplos que traduzem bem quem está “sujando na entrada” e limpando na saída (trocadilho meu), ainda para usar a música de Gilberto Gil.

    No Rio de Janeiro, foi por telefone que um empresário carioca recebeu a notícia do seu médico de que seu teste deu positivo para covid-19. O infectado estava numa churrascaria, cercado de amigos e da esposa, posteriormente infectada também. Embora a matéria afirme que os dois estivessem em isolamento, não contou a empregada, aparentemente única pessoa que está em convívio com o casal, e que agora trabalha de “luvas e máscaras”.

    Na Bahia, o primeiro caso de uma pessoa do estado aconteceu na cidade de Feira de Santana. Vejamos o padrão se repetir. A primeira infectada, uma mulher de 34 anos, havia acabado de chegar da Itália quando entrou em solo brasileiro carregando consigo o vírus. O teste foi feito num hospital particular e a despeito da matéria afirmar que ela estava “em isolamento”, e do secretário de Saúde do estado afirmar que o caso estava sendo acompanhado e “sob controle”, foi na mesma residência que surgiu o segundo caso. Após o contato com o primeiro caso, que supostamente estava em “isolamento”, foi infectada a segunda pessoa, uma mulher de 42 anos, trabalhadora doméstica, cuja empregadora era a primeira infectada.

    A segunda infectada da Bahia e a mulher que cuida de duas pessoas infectadas no Rio de Janeiro, ambas trabalhadoras domésticas, dependem do serviço público de saúde, utilizam o transporte público, convivem com seus familiares cotidianamente, e cozinham seu próprio alimento. Será que são trabalhadoras formais e que receberão salário enquanto ficarem em casa? Quando a escola dos seus filhxs fechar as portas, serão liberadas para ficarem em casa? Se isolamento significa que as pessoas infectadas estão distantes de OUTRAS PESSOAS, por que elas não contam?

    Está vendo Gilberto, os dois, como no final das contas, a “corda arrebenta para o nosso lado”, mesmo?

    Como também cantou Gilberto Gil, a raça humana “é uma beleza, uma podridão”, ao mesmo tempo. Portanto, faço um apelo: vamos lavar as mãos, deixar tudo limpinho, e às pessoas que fazem ou fizeram viagem ao exterior: voltou doente? Então deixe a trabalhadora ficar em casa, deixe-a distante de você. Os efeitos dessa doença sobre ela e seus familiares serão certamente bem piores.

    P.S.: “A mão da limpeza” é uma composição de Gilberto Gil e está no álbum “A raça humana”, que aliás é muito pertinente para o momento e deveríamos escutar todo estes dias que estamos em casa… para quem se pode dar ao luxo de trabalhar de casa.

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo e também integra uma organização de mulheres chamada Rede de Mulheres Negras da Bahia. É graduada em história pela Universidade Federal da Bahia, mestre pela Unicamp, doutora em história pela USP e pós-doutora pela City University of New York. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Está no Instagram como @lucianabritohistoria. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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