Coluna

Como o novo coronavírus pode impactar a eleição americana

    A única certeza que podemos ter é que a pandemia torna os cenários políticos ao redor do mundo muito mais voláteis e imprevisíveis

    Difícil falar de qualquer tema, neste momento, que não seja o choque devastador da pandemia de covid-19. O impacto na vida das pessoas é enorme e, sendo assim, é de se esperar que as implicações políticas também sejam.

    No que diz respeito ao Brasil, já teci algumas considerações, em parceria com meus amigos Claudio Ferraz (também colunista do Nexo) e Rodrigo Soares. O tema é particularmente relevante, contudo, no contexto americano, dado que 2020 é ano de eleições presidenciais. O que podemos esperar do impacto do novo coronavírus sobre as chances de reeleição do presidente Donald Trump?

    A dimensão da crise atual é tamanha, e sua natureza tão pouco usual, que é um exercício um tanto temerário prever as consequências. O impacto negativo na atividade econômica está sendo enorme, e o trabalho de cientistas políticos sugere que o estado da economia no ano eleitoral tem grande poder explicativo sobre as chances de um presidente em busca de reeleição. No entanto, ainda não é claro quanto tempo este impacto irá durar, dado que ele evidentemente depende de quão rápido será possível controlar o vírus.

    Para além disso, há o impacto direto da doença, por assim dizer. Primeiramente, a pandemia exige uma resposta governamental em escala maciça, e é perfeitamente possível que os eleitores levem em conta sua percepção a respeito da qualidade dessa resposta para formarem sua opinião sobre os méritos e deméritos do presidente Trump.

    A evidência vinda da ciência social é útil mais uma vez. Eleitores punem ou recompensam governantes por suas respostas a desastres naturais e, infelizmente, ignoram a prevenção, o que certamente ajuda a explicar como tantos países viram-se completamente despreparados diante do novo coronavírus. Dada a resposta claudicante do governo federal americano, isso sem dúvida representa uma ameaça potencial à reeleição.

    De outra parte, porém, a ansiedade naturalmente gerada pela ameaça da pandemia pode por si desencadear reações que transbordem para a esfera política. Como reagem os eleitores a uma ameaça tal como a do coronavírus? Estudos de laboratório sugerem que medo e ansiedade conduzem a uma postura política conservadora, mas fica a dúvida sobre se isso de fato se manifesta em uma eleição real.

    Nesse aspecto, é possível tentar extrair lições de episódios anteriores em que uma ameaça de saúde pública faz-se presente num contexto eleitoral. É o que fazemos eu e meus co-autores Emilio Depetris-Chauvin e Ruben Durante, em nossa pesquisa sobre o episódio do ebola em 2014.

    Desta vez, o partido que tem mais conforto em atiçar sentimentos anti-imigração encontra-se no poder. Não surpreende, portanto, que os republicanos estejam novamente apostando no discurso que associa o vírus a uma ameaça estrangeira

    A epidemia naquele ano, na África, foi a mais grave já registrada da doença. Um número relativamente pequeno de casos ocorreu em outras partes do mundo e, entre setembro e outubro daquele ano, quatro deles se deram nos EUA, ainda que, ao contrário da covid-19, o risco de um surto real nos EUA sempre fosse muito pequeno. Mesmo assim, gerou-se pânico que coincidiu com a temporada de campanha das eleições (não-presidenciais).

    Embora muitos tenham observado à época que o Partido Republicano explorou fartamente o assunto, é difícil estabelecer se o pânico de fato teve impacto eleitoral. Afinal, talvez as pessoas mais preocupadas com o ebola já fossem votar nos republicanos mesmo na ausência do episódio. Além disso, qualquer efeito poderia ser devido a uma frustração com a resposta do governo de Barack Obama, e não pela ansiedade com a epidemia em si.

    Nós mostramos que a ansiedade com o ebola (que medimos por meio de buscas no Google ou de tweets) de fato levou a um desempenho pior dos candidatos democratas. Isso, porém, não foi acompanhado por uma avaliação pior do desempenho do presidente Obama. Isso a despeito de os republicanos terem tentado associar o ebola ao presidente.

    Essa não era a única associação tentada pelos republicanos, porém: eles também o fizeram com temas como imigração e terrorismo. Ao que parece, foi o vínculo com a imigração que deixou uma marca nos eleitores: aqueles mais expostos às preocupações com o ebola também se tornaram mais propensos a relatar sentimentos negativos em relação aos imigrantes. O mesmo não se deu com outras preocupações tradicionais do partido, indicando que não houve uma tendência mais ampla de avanço de posições conservadoras.

    Isso oferece um paralelo claro com a situação atual. Novamente, temos um vírus trazido do exterior como uma ameaça — muito mais concreta e devastadora, é claro, do que em 2014. Desta vez, porém, o partido que tem mais conforto em atiçar sentimentos anti-imigração encontra-se no poder. Não surpreende, portanto, que os republicanos estejam novamente apostando no discurso que associa o vírus a uma ameaça estrangeira.

    Uma aposta estratégica dos democratas, por outro lado, parece bem mais complexa. Nossa pesquisa mostra que não basta mencionar a ameaça em relação a qualquer tema, a menos que ela possa ser prontamente associada pelos eleitores (de maneira justa ou não) a um conjunto específico de preocupações. Mesmo a resposta deficiente do governo Trump pode não ser necessariamente punida, dada a possibilidade do chamado efeito de “rally 'round the flag”: tradicionalmente, em situações emergenciais há um aumento, ao menos no curto prazo, na aprovação presidencial.

    Diante disso tudo, é muito cedo para saber qual o papel que o vírus terá nas eleições. É mais que possível — provável até — que tenha algum: de fato, no âmbito da pandemia atual, a pesquisa do meu colega Dan Honig e seu co-autor James Bisbee indica que a chegada do vírus ajudou Joe Biden em sua disputa com Bernie Sanders pela candidatura democrata. A única certeza é que a pandemia torna o cenário político ainda mais volátil e imprevisível, tanto nos EUA como no Brasil.

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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