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Coluna

Como combater a recessão causada pela pandemia?

    As medidas necessárias para superar a crise decorrente do novo coronavírus fogem da macroeconomia tradicional

    É a pandemia, estúpido. Em seu último relatório de política monetária, o Banco da Inglaterra projetou que a economia do Reino Unido enfrentará em 2020 a maior recessão dos últimos 300 anos, com uma queda do PIB de quase 30% no primeiro semestre. No Brasil, as projeções do Boletim Focus de uma contração de mais de 4% no ano ainda soam demasiadamente otimistas para o que deve ser a maior queda anual do PIB de nossa série histórica. O fato é que a crise causada pela covid-19 tem proporções e características inéditas — a crise causada pela pandemia, não pelas medidas quarentenárias impostas para combatê-la.

    Quanto a esse último ponto, cabe ressaltar que o Banco Central da Suécia — país que se recusou a seguir outros países europeus na adoção de medidas restritivas, mantendo abertas suas escolas e comércio — estimou uma queda de 7-10% do PIB no ano. Se confirmado, o resultado não é muito diferente do previsto para países que fizeram o lockdown: o Deutsche Bank projeta contração de 9% na Alemanha, por exemplo. A diferença parece estar mesmo no número de óbitos: 311 a cada milhão de habitantes na Suécia, ante 40 a cada milhão em sua vizinha Noruega, de acordo com os números disponíveis em 10 de maio.

    Sim, é verdade que o fechamento obrigatório de setores econômicos inteiros tem um impacto direto nos níveis de produção, contraindo automaticamente o PIB pelo lado da oferta de bens e serviços. Mas a crise vem também pelo lado da demanda, o que se deve não apenas às restrições à circulação dos consumidores por meio de medidas quarentenárias, mas também ao próprio medo do contágio pelo vírus e à queda das exportações do país derivada do colapso da renda global e do comércio mundial.

    Nos estados norte-americanos do Texas, Tennessee e Georgia, que começaram a reabrir suas economias na última semana de abril, os primeiros números de frequência em restaurantes sugerem que foi recuperada menos de 20% da queda observada desde o início de março. É ilusório, portanto, imaginar que o fim das medidas quarentenárias em meio a um número explosivo de mortes por covid-19 é capaz de fazer com que consumidores retomem normalmente suas atividades, injetando ânimo ao mercado interno. Muito pelo contrário, a frouxidão das medidas quarentenárias e seu relaxamento prematuro podem adiar ainda mais a recuperação da economia em meio aos novos surtos de contágio e ao colapso do sistema hospitalar.

    O colapso econômico atual não é fruto do contágio da economia real por uma crise no setor financeiro e sim do contágio da economia real por uma crise de saúde pública

    Nesse contexto, as medidas desenhadas para atenuar a recessão gerada pela pandemia e evitar que se torne uma longa depressão econômica também fogem da macroeconomia convencional. As crises de 1929 e de 2008 originaram-se no sistema financeiro e contagiaram a economia real em um efeito cascata: bancos deixaram de emprestar, empresas perderam valor na bolsa e deixaram de investir, consumidores perderam emprego e renda, deixando de comprar bens e serviços e/ou de pagar suas dívidas. Tais efeitos se retroalimentam, na medida em que a queda no consumo prejudica ainda mais os lucros das empresas e a inadimplência de empresas e famílias dificulta ainda mais a obtenção de crédito no sistema bancário. Esse é o tipo de quadro que exige a adoção de estímulos macroeconômicos pelo Estado por meio da política monetária (redução da taxa de juros e injeção de liquidez no sistema financeiro) e, sobretudo, da política fiscal (expansão de gastos e investimentos públicos). Esse tipo de intervenção anticíclica atua como um contraponto à postura defensiva do setor privado, que ao cortar seus gastos e empréstimos aprofunda a crise.

    No entanto, para que tal atuação seja capaz de redinamizar a economia, é necessário que a criação de renda e empregos trazida pelo aumento dos gastos públicos tenha efeitos multiplicadores, ou seja, induza um consumo maior por parte das famílias, elevando também as vendas e os investimentos das empresas, e assim por diante. Mas o que fazer em meio a uma pandemia, em que a necessidade de preservação das vidas limita justamente esses efeitos multiplicadores? Como agir para reativar a economia quando não é nem possível e nem desejável que os consumidores voltem ao seu comportamento usual, invadindo shoppings e adquirindo serviços que os expõem ao risco de contágio?

    O colapso econômico atual, ao contrário dos que o mundo experimentou em 1929 e 2008, não é fruto do contágio da economia real por uma crise no setor financeiro e sim do contágio da economia real por uma crise de saúde pública ou, grosso modo, do contágio por um vírus. Pandemias anteriores de alta gravidade tampouco têm efeitos comparáveis, na medida em que se deram em um mundo muito menos globalizado, com menor integração comercial e financeira entre os países.

    Assim, as medidas para atenuar a crise econômica e social causada pela covid-19 devem ser divididas em ao menos duas fases. Na primeira, devemos atacar suas origens — a disseminação do vírus — e garantir a sobrevivência de famílias e empresas. Não se trata de estimular a demanda, e sim de transferências de renda que garantam a subsistência dos mais vulneráveis sem que eles precisem se expor ao contágio pelo vírus. No caso das empresas, a prioridade é prover crédito barato e outros subsídios que evitem falências e demissões.

    Tais medidas também ajudam a preparar a segunda fase, que só pode ser iniciada com a forte diminuição do número de casos e óbitos e a implementação de testagem em massa. Nessa etapa, quanto menor tiver sido a perda de vínculos empregatícios, o fechamento de negócios e a absorção de famílias pela espiral de pobreza, mais fácil será a recuperação. A retomada tampouco irá se dar em um cenário em que o risco de novos surtos de contágio ainda é alto, o que mantém empresas e famílias relutantes em realizar decisões de produção, investimento e consumo. Caso essas condições estejam dadas, a macroeconomia pode então voltar à cena requerendo, aí sim, estímulos à demanda via investimentos públicos em infraestrutura física e social e outros gastos com alto efeito multiplicador sobre a renda e os empregos.

    Já não seria nada fácil concluir com a imagem de um longo caminho pela frente, mas a julgar pelo que ocorre no Brasil, às vezes parece que nem sequer chegaremos lá.

    Laura Carvalho é doutora em economia pela New School for Social Research, professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e autora de “Valsa brasileira: Do boom ao caos econômico” (Todavia). Escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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