Coluna

Como a desigualdade alavanca as crises

    Há interligações entre as crises das democracias e da economia. Para superá-las, precisamos abandonar o individualismo egoísta e resgatar a ética na política, na cultura e nas instituições

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    Sérgio Abranches lembra, no seu excelente livro “O tempo dos governantes incidentais”, que as grandes transformações se manifestam, no início, como crises. Não são poucas as que temos vivido. Os sistemas políticos deixaram de representar os interesses da maioria, os frutos do crescimento econômico se concentram nas mãos de poucos, e o planeta está sendo dilapidado. A pandemia embaralha as peças do jogo, impondo a necessidade de que o interesse coletivo seja levado em conta, tanto pelos governos responsáveis como pela população. Resta a todos — especialmente aos economistas, sociólogos e cientistas políticos — o enorme desafio de denunciar as fraturas e a obsolescência dos paradigmas dominantes de análise e previsão, além de pensar de maneira crítica, abrangente e criativa o que podem vir a ser novos caminhos. Exploro, aqui, aspectos da interligação entre a crise das democracias e a da economia.

    Há farta evidência de deterioração do quadro sociopolítico mundial. Depois de 30 anos em que a proporção de países democráticos dobrou no mundo, tendo chegado a 61% do total, entramos no que Larry Diamond chama de recessão democrática global. Desde meados da década passada, caiu a menos da metade a proporção de países democráticos, e pioraram os indicadores de liberdades civis, direitos políticos, transparência e Estado de direito (rule of law). Partindo dos níveis de igualdade econômica, de qualidade da representação política, de coesão na vida social e de altruísmo presente nos valores culturais, Robert Putnam e Shaylyn Garrett mostram que o ápice da qualidade da democracia norte-americana ocorreu entre as décadas de 1960 e 1970, e declinou desde então, voltando aos níveis observados no fim do século 19.

    O cidadão comum, que não tem seus interesses defendidos, se sente desprotegido, obrigado a conviver com quedas constantes da qualidade dos serviços públicos, com o aumento da criminalidade e da corrupção e com a crescente desigualdade de renda e de riqueza. Além disso, mudanças tecnológicas e a globalização reduzem suas chances de encontrar trabalho e sustento. Nasce, assim, o ressentimento, o medo e a falta de esperança em um futuro melhor, caldo de cultura ideal para a proliferação de populistas de esquerda e de direita. Como esse quadro complexo não se resolve da maneira simplista prometida pelos populistas, uma vez eleitos, eles destroem as instituições democráticas para dificultar a alternância de poder. Cria-se, então, um círculo vicioso, piorando as condições de vida de todos. Sua superação depende da identificação adequada das causas do crescente descontentamento social.

    O sistema político se associou aos lucros das empresas e se esqueceu de defender o povo que o elegeu

    Uma pista importante da origem desse mal-estar emerge da análise da distribuição dos frutos do ciclo de crescimento econômico provocado pela globalização e pela revolução das comunicações. Branko Milanovic mostrou com seu famoso gráfico do elefante, reproduzido abaixo, que, entre 1998 e 2008, houve um aumento da renda dos pobres e das classes médias da Ásia emergente (China, Índia, Tailândia, Vietnã e Indonésia), e daqueles situados no topo da pirâmide de distribuição mundial de renda, o 1% mais rico. No outro extremo, permaneceu praticamente estável, durante 20 anos, a renda da classe média baixa dos países mais ricos — membros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), principalmente.

    Gráfico de linha mostra ganho relativo na renda per capita, em termos reais, por nível de renda global entre 1988-2008

    Mas essa é apenas parte da história. Se olharmos como o bolo (o acréscimo de riqueza) foi distribuído, os resultados são ainda mais reveladores: os 10% mais ricos de todo o mundo ficaram com 68% do acréscimo total de riqueza, com os 5% mais ricos abocanhando 44% do total, e o 1% mais rico, 19% (gráfico abaixo). Na composição deste último grupo estão 12% da população dos Estados Unidos, em um extremo, e 1% das populações do Brasil, da África do Sul e da Rússia, no outro extremo. É evidente o aumento da desigualdade entre ricos e pobres.

    Gráfico de barras mostra ganho absoluto na renda per capita, em termos reais, segundo o nível global de renda entre 1988-2008

    Durante décadas acreditou-se que bastaria garantir o livre funcionamento dos mercados, com a apropriada regulação das suas falhas, para levar a prosperidade a todos. Não foi o que ocorreu. As regras do jogo foram sendo progressivamente alteradas em benefício de quem detém maior poder econômico. O bem comum e os interesses da sociedade foram ignorados, acentuando desigualdades e distorções. Há evidências crescentes de falhas de regulação em vários setores.

    A crise financeira de 2008 desmontou um castelo de cartas construído sob os olhos dos reguladores norte-americanos. A Boeing conseguiu a aprovação para o 737 Max com falhas estruturais conhecidas pela empresa e pelos reguladores, e só depois de dois acidentes fatais a companhia redesenhou o projeto. A Volkswagen burlou testes de emissão de poluentes dos seus veículos movidos a diesel, mesmo sabendo dos danos à saúde pública. Fabricantes de opioides se beneficiam da dependência gerada pela droga e ignoram os suicídios acarretados; grandes bancos internacionais pagam subornos bilionários pelo mundo afora para aumentar seus lucros; monopólios gigantescos brotam e prosperam, revelando os limites da hipótese de livre concorrência. O sistema político se associou aos lucros das empresas e se esqueceu de defender o povo que o elegeu.

    Sem dúvida, o mundo era outro quando Milton Friedman publicou, há 50 anos, o célebre artigo no New York Times postulando que a única responsabilidade de uma empresa é aumentar seus lucros. Nem todos os empresários ignoram suas responsabilidades sociais, mas essa nova maneira de ver o mundo, e ensinar como as pessoas devem se comportar, tem um aspecto ainda mais nocivo, que é uma espécie de “licence to be bad” (“licença para ser mau”, em tradução livre), como argumenta Jonathan Aldred. De acordo com essa teoria, todos serão beneficiados se cada indivíduo se preocupar apenas em maximizar suas preferências, calculando o custo e o benefício pessoal a cada instante, concretizando a ficção do “homo” (sempre)economicus”. Ser “racional”, no sentido de buscar suas “preferências”, e não se importar com o outro, ignorando o bem-estar da sociedade, passou a ser o lema da maioria. Tornou-se uma espécie de religião que gerou uma sociedade desumana, que ignora valores maiores como confiança, cooperação e bem comum. A transformação exigida pelas sucessivas crises que vivemos passa pela superação do individualismo egoísta e pelo resgate da ética na política, na cultura e nas instituições.

    Gráficos por Lucas Gomes e Gabriel Zanlorenssi.

    Cristina Pinotti é graduada em administração pública pela EAESP-FGV e cursou o doutorado em economia na FEA-USP. É sócia da A.C. Pastore & Associados desde 1993. Antes trabalhou nos departamentos econômicos do BIB-Unibanco, Divesp e MB Associados. Concentra seus trabalhos na análise da macroeconomia brasileira, com ênfase em temas da política monetária, relações do país com a economia internacional, e planos de estabilização. Nos últimos anos tem se dedicado ao estudo da teoria da corrupção e da história da operação Mãos Limpas, na Itália. É autora de diversos artigos e livros. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

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