Coluna

As lições dos EUA de Trump para o Brasil de Bolsonaro

    Os anos de Donald Trump no poder podem nos ajudar a entender a trajetória – e os riscos – da presidência de Jair Bolsonaro no Brasil

    O começo de um novo ano e, mais ainda, de uma nova década (sem querer entrar em polêmicas) é terreno fértil para retrospectivas e conjecturas. É da nossa natureza tentar encontrar algum sentido no passado e prever o futuro, por mais temerários que sejam tais exercícios.

    2020 é também ano de eleições presidenciais aqui nos Estados Unidos da América. Isso traz uma excelente oportunidade de usar a retrospectiva de um país para orientar as previsões para outro: que lições podemos tirar dos últimos quatro anos, desde que a inusitada ascensão de Donald Trump à presidência convulsionou a política norte-americana, para projetar os próximos anos sob o Trump dos Trópicos no Brasil?

    É preciso, claro, muita cautela na hora de traçar comparações entre países tão distintos. Seria possível escrever livros elencando todas as diferenças que separam os dois contextos. Contudo, a perspectiva trazida de fora pode ser útil para aventar possibilidades que, de perto, talvez passem despercebidas.

    Com efeito, nas eleições de 2018, o passado recente americano revelou-se mais útil para ver a mudança em curso do que se referir às eleições brasileiras pregressas. “Ah, mas Bolsonaro não tem partido, é muito diferente”, “no segundo turno ele não tem chance” – quando Trump acabara de ensinar que o segredo era conseguir colocar-se como alternativa a um outro candidato ou partido desprezado por muitos, e o segundo turno dava a Bolsonaro exatamente essa oportunidade. “Nos debates ele vai derreter, é totalmente despreparado” – quando Trump havia sido dominado nos debates, mal sabendo articular uma frase sobre qualquer política, sem isso ter efeito algum. “Ele não tem tempo de TV” – quando Trump recém ilustrara o poder eleitoral das mídias sociais e da capacidade de manter-se nas manchetes. Ficou claro para mim que, ao menos em alguns aspectos, quem via de fora, por estar assistindo a uma reprise, estava em vantagem sobre quem estava por dentro.

    A velocidade com que Bolsonaro se livrou da tutela dos generais e reduziu o tamanho de seus ditos “super-ministros” foi ainda mais rápida do que a de Trump em lograr o equivalente, indicando que o aprendizado cruza fronteiras

    Isso volta a ser relevante após o primeiro ano do bolsonarismo no poder. De um lado, alguns, a meu ver acertadamente, continuam a soar os alarmes quanto à ameaça de deterioração democrática representada por Bolsonaro. Outros, porém, argumentam que muitas das ideias e comportamentos mais preocupantes ficam no campo da retórica e que, em sendo assim, não haveria muito a temer.

    Não discordo de algumas das premissas: ainda que não se deva desprezar a importância da retórica, de fato Bolsonaro não chegou a concretizar muitas de suas ameaças. Sim, ele tomou medidas de ataque a organismos de imprensa, mas teve de voltar atrás. Sim, o filho falou de AI-5, mas com a repercussão negativa o presidente o desautorizou. E, mais ainda, os pesos e contrapesos pareceram funcionar – vide o fato de que a agenda política e econômica ficou em larga medida sob a condução da Câmara dos Deputados e seu presidente, Rodrigo Maia. Sem ignorar o dramático custo que o bolsonarismo já representou para vários segmentos sociais, muito disso está no âmbito de embates ideológicos ou sobre quais políticas públicas implementar, o que em alguma medida faz parte da alternância da democracia.

    Contudo, tendo vivido dois anos adicionais sob o experimento populista da América do Norte, continuo vendo o cenário de uma maneira diferente. Nos primeiros anos, também aqui era comum notar o quão convencional era o governo Trump (isto é, no âmbito das políticas), em comparação ao presidente Trump (o do Twitter, insano). Muitos sublinharam o quanto, a despeito de todo o ruído, o presidente era fraco. A todo momento contido pelos “adultos na sala” – os generais e executivos a cargo de Defesa, Estado, National Economic Council –, Trump vinha essencialmente implementando a agenda de cortes de impostos tão cara ao republicanismo tradicional representado pelo então poderoso deputado Paul Ryan. Também a resistência da burocracia profissional, que Trump raivosamente intitula de “Deep State”, em alguma medida bloqueava a adoção das preferências mais idiossincráticas do presidente. Mais ainda, ela o mantinha acossado, tal como ilustrado pela sombra lançada pela investigação conduzida então pelo respeitado procurador Robert Mueller.

    Em 2020, o cenário é outro. Os tais “adultos”, um por um, foram saindo de cena, empurrados por um Trump cada vez mais assertivo. O presidente percebeu que o seu espaço de ação era muito mais amplo do que poderia parecer de início. Ele viu que poderia manter seu primeiro escalão de governo recheado de interinos dispostos a seguir seus comandos para além dos limites da lei. E também se deu conta de que a ojeriza à perspectiva de retorno do outro partido lhe dava, da parte do eleitorado republicano, uma disposição essencialmente ilimitada de acomodar seus desejos e devaneios.

    O ponto que a trajetória de Trump ilustra, a meu ver, é que em algum momento o populista aprende a transformar retórica em políticas públicas, ao menos naquilo que realmente é caro a ele e à sua base eleitoral. Existe uma curva de aprendizado, mas uma hora ele chega lá – e a velocidade com que Bolsonaro se livrou da tutela dos generais e reduziu o tamanho de seus ditos “super-ministros” foi ainda mais rápida do que a de Trump em lograr o equivalente, indicando que o aprendizado cruza fronteiras.

    Mais ainda, o populista percebe que a sua habilidade de cultivar inimigos é parte fundamental do que lhe dá margem de manobra. Desse modo, a radicalização retórica é crescente, sempre permitindo aos que condenam o “alarmismo” a possibilidade de dizer que na prática não é tão ruim assim.

    Dessa forma, o sapo da democracia continua sendo escaldado (para usar a imagem proposta por Pedro Abramovay). Se formos ampliar nosso horizonte de comparação a populistas que lograram a reeleição, meu colega Yascha Mounk mostra que o buraco costuma ficar ainda mais fundo – a descrição do Narendra Modi do primeiro mandato é próxima a Bolsonaro o suficiente para dar calafrios aos que veem o que o segundo mandato vem trazendo na Índia.

    Não é demais lembrar, uma vez mais, que nada disso é destino, e que os contextos e indivíduos em questão são muito diferentes entre si. Mas as semelhanças estão aí para quem quiser ver.

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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