Coluna

Acabou o dinheiro para o enfrentamento da crise?

    É verdade que governo está gastando mais do que arrecada na pandemia, mas isso não é novidade nem particularidade do Brasil

    O jornal O Globo noticiou no dia 23 de maio que o Ministério da Economia estaria preparando um pedido de empréstimo da ordem de 4 bilhões de dólares a um conjunto de instituições financeiras multilaterais, entre as quais o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e o Banco dos Brics. Quando se trata das medidas anunciadas pela equipe econômica do governo Bolsonaro, é fato que nunca se sabe o que realmente vem. Provocações, recuos e conflitos internos são demasiado frequentes. Mas a mera possibilidade de uma tomada de empréstimos em dólar pelo governo brasileiro para combater a pandemia serve para disseminar ainda mais um mito que já tem causado estragos há algum tempo no país: o de que o dinheiro acabou.

    Sim, é verdade que o governo brasileiro está gastando mais do que arrecada, o que implica em um maior endividamento público. Mas isso não é nenhuma novidade e muito menos uma particularidade nossa. O setor público funciona em boa parte do mundo de forma distinta de uma família: a cada mês em que as despesas superam as receitas, o governo não necessariamente precisa ir a um banco pedir um empréstimo, pois pode obter os recursos vendendo novos títulos públicos para investidores no mercado. Esses títulos são adquiridos porque rendem juros ao longo do tempo para quem compra, ou seja, o governo paga uma remuneração para quem comprou esses pedacinhos da dívida. No Brasil, os títulos da dívida pública estão nas mãos dos mais diversos detentores de riqueza: indivíduos que colocam parte da sua poupança em títulos (via Tesouro Direto), seguradoras, fundos de pensão, fundos de investimento, investidores estrangeiros, etc. Muitos dos fundos com remuneração oferecidos pelos bancos aos seus correntistas estão atrelados aos rendimentos obtidos pela compra de títulos públicos.

    E o que acontece se um governo não consegue arrecadar o suficiente para pagar os juros a esses detentores e realizar todos os seus outros gastos do ano? Ele emite novos títulos, em um processo que é chamado de “rolagem da dívida”. Por isso, alguns governos já tinham patamares de dívida pública superiores a 100% do PIB antes da pandemia. A dívida pública do Japão, por exemplo, deve alcançar mais de 200% do PIB após a crise da covid-19. Na Itália, as previsões já giram em torno de uma razão dívida-PIB de 160% no fim do ano.

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    Laura Carvalho é doutora em economia pela New School for Social Research, professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e autora de “Valsa brasileira: Do boom ao caos econômico” (Todavia). Escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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