Coluna

A semeadura é livre. A colheita é necessária

    Jair Bolsonaro governa fixado no propósito de se reeleger, e sua estratégia consiste em transferir os custos políticos das más notícias a qualquer outro ator

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    Neste próximo domingo, teríamos tido a oportunidade de ter uma ideia da real força política de Jair Bolsonaro. O cancelamento das manifestações previstas para este 15 de março por efeito da retirada de apoio do presidente fazem da capacidade de mobilização destes movimentos o termômetro de sua densidade na sociedade civil.

    Estimulados por declaração do General Augusto Heleno, os líderes desses movimentos chamaram a população para dar apoio ao presidente, que supostamente não consegue realizar as reformas que o Brasil precisa porque é refém do Congresso. Em escala em Boa Vista, em 7 de março, acompanhado do General Heleno, Bolsonaro deu total apoio às manifestações, ressalvando que estas não são contra o Congresso e o Judiciário, mas a favor do Brasil. Já em Miami, em seminário com empresários, declarou-se totalmente empenhado nas reformas administrativa e tributária.

    O Executivo, entretanto, até o momento não submeteu nem uma nem outra. Sua principal iniciativa tem consistido em adiar sistematicamente para a semana seguinte a submissão de alguma proposta ao Congresso. Na verdade, as propostas em tramitação partiram do próprio Congresso.

    Se isso tem alguma lógica, está difícil de entender. Olhem bem: na versão do presidente, os movimentos bolsonaristas deveriam sair às ruas neste próximo domingo para pressionar o Congresso a aprovar reformas cuja iniciativa partiu do próprio Congresso.

    Passo seguinte, o Congresso vetou o veto do presidente a uma mudança nas regras do Benefício de Prestação Continuada que ampliaram o acesso ao benefício. Os parlamentares saíram da posição de auto-interessados em fatias do Orçamento para defensores dos mais pobres, impondo ao executivo desgaste adicional.

    O fato é que 2020 começou bem ruim para Bolsonaro. Crescimento econômico muito aquém das expectativas. Dólar em alta. Bolsa em baixa. Nada de expansão expressiva dos níveis de emprego e renda. Denúncias de que a cobertura do mais popular dos programas sociais brasileiros — o Programa Bolsa Família — não dá conta das taxas de extrema pobreza geradas pela prolongada crise econômica. O governo não consegue sequer processar administrativamente a fila de pedidos de aposentadoria.

    A expectativa de que seu posto Ipiranga produziria um choque de confiança capaz de atrair investimentos não se concretizou. Neste mesmo 7 de março, em encontro de industriais e banqueiros com o presidente e o ministro Paulo Guedes, organizado pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), os primeiros demonstraram impaciência com a lentidão do governo em entregar resultados. Passado um ano de governo, a paciência está se esgotando.

    Pior. Até onde a vista alcança, não parece haver boas notícias no horizonte. Coronavírus, desaceleração na China, queda dos preços do petróleo e das bolsas mundiais. Governos enfrentam crises e podem sair delas. Mas enfrentar os desafios deste início de ano exigiria um governo mais preparado. O preocupante é que Bolsonaro não parece ter qualquer estratégia de governo para enfrentar 2020.

    Bolsonaro pratica a máxima de que a melhor defesa é o ataque. Sem surpresa, a colheita desta semeadura é crescente isolamento

    Os movimentos bolsonaristas estão corretos em sua avaliação. O presidente é de fato refém do Congresso. Não exerce liderança na arena parlamentar. Depende inteiramente de Rodrigo Maia e David Alcolumbre para aprovar qualquer medida no Parlamento. Tivesse o presidente liderança política, momentos de crise como esse favoreceriam aprovar medidas amargas, mediante o argumento de uma situação de urgência, o mesmo que favoreceu a aprovação da reforma da Previdência.

    Ser refém do Congresso é fruto das escolhas de Bolsonaro. Ele se elegeu com a bandeira da antipolítica e recusa sistematicamente compromissos que sejam visíveis à luz do dia. Escolheu ser um governo de minoria. Não quis montar uma coalizão de sustentação no Parlamento. Voluntarista, rompeu com seu próprio partido, reduzindo ainda mais sua base de apoio na arena parlamentar. O fato é que Bolsonaro escolheu ser um presidente fraco. Colhe o que plantou.

    Com dificuldade para entregar resultados econômicos e sociais e institucionalmente fraco, o presidente não quer, entretanto, ser um “lame duck” (termo do inglês para políticos que estão no fim do mandato e não têm perspectivas de reeleição). Alimenta até mesmo pretensões de se reeleger. Ainda não se sabe muito bem para quê, pois não há notícia de que tenha uma agenda econômica para chamar de sua. Agenda social, nem pensar. Mas o fato é que Bolsonaro parece mesmo fixado no propósito de se reeleger.

    Para sobreviver, joga o jogo da batata quente. Na linguagem dos cientistas políticos, pratica sistematicamente o blame avoidance, o que consiste em evitar os custos políticos das más notícias transferindo-os a qualquer outro ator do tabuleiro político. Crescimento de 1,1% do PIB? Perguntem ao Paulo Guedes. Não consegue desvincular o orçamento? Chantagem destes políticos que não são amigos do Brasil. Seu governo tem problemas? Culpa da imprensa dominada pela esquerda, inimiga da pátria.

    Seu jogo é menos contra os demais poderes da República — cuja autoridade não lhe é dada a oportunidade de ignorar — e mais contra os ocupantes de funções de autoridade a quem possa transferir a responsabilidade pelos fracos resultados de seu próprio governo. Pratica a máxima de que a melhor defesa é o ataque. Sem surpresa, a colheita desta semeadura é crescente isolamento.

    Fez uma jogada bem, bem arriscada ao apostar suas fichas nas manifestações de 15 de março. Todos os atores políticos relevantes, inclusive ele próprio, teriam uma medida de sua real força política. Avalia que manter mobilizada sua base eleitoral, estimulando a polarização política e reeditando a Guerra Fria, é a única saída que lhe resta. O xeque-mate do Congresso parece tê-lo obrigado a recuar.

    Apertemos os cintos! O piloto sumiu!

    Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da Brazilian Political Science Review (2012 a 2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016 a 2017). É graduada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do MIT (Massachussets Institute of Technology), nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

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