Coluna

A realidade paralela da autocracia criada por Trump e Bolsonaro

    Mesmo em períodos de aparente calma na política, permanece a sensação de que estamos vivendo sob um governo anormal, com algo profundamente antidemocrático em curso

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    Desde o reaparecimento do arredio Fabricio Queiroz, por coincidência ou não, o presidente Jair Bolsonaro tem sido bastante mais comedido em seus arroubos explicitamente golpistas. Em consequência, acalmou-se um tanto o debate sobre os riscos de ruptura democrática no Brasil, à medida que o espectro de uma intervenção explícita das Forças Armadas saiu das manchetes dos jornais.

    Permanece, contudo, a sensação constante de que estamos vivendo, senão sob um “regime de exceção” — o velho eufemismo tão frequentemente usado para descrever rupturas tradicionais — sob um governo de alguma maneira anormal, distinto daqueles a que nos acostumamos sob a Nova República.

    Essa sensação me é particularmente familiar, pois é a mesma que me assombra desde a ascensão do trumpismo nos EUA. Com quatro anos de experiência, ela continua tão ou mais vertiginosa quanto no momento em que Donald Trump desceu a escada rolante para anunciar sua candidatura. Sim, seguimos vivendo numa democracia, mas algo profundamente antidemocrático parece estar em curso. Ou estaríamos exagerando? Como saber?

    Um livro recém-lançado por aqui — “Surviving Autocracy”, de Masha Gessen — abriu para mim um novo horizonte para entender esses tempos confusos. Para quem, como eu, vem tentando fazê-lo com as lentes da economia política, é reveladora a perspectiva distinta de uma jornalista com a experiência de quem cresceu na União Soviética, escreveu uma biografia definitiva de Vladimir Putin e vem acompanhando de perto a erosão democrática em outras partes do Leste Europeu.

    Gessen identifica o ponto-chave: os EUA (e, adiciono, Brasil) são uma democracia passando por uma tentativa autocrática (“autocratic attempt”). Em outras palavras, Trump e Bolsonaro foram eleitos, mas se comportam exatamente como autocratas.

    Até aí, pode parecer simples ou óbvio: não é evidente que eles têm tendências autocráticas e gostariam de ser autocratas? Se as proverbiais instituições seguirem funcionando, no final das contas a democracia segue adiante. De fato, a continuarem as tendências atuais, Joe Biden será o próximo presidente dos EUA e tudo estará de volta aos eixos.

    O grande insight de Gessen é que não é bem assim. A autocratização já se encontra em andamento, no Brasil como nos EUA, porque ela é um processo que começa no âmbito da linguagem e dos rituais políticos. Com seus talentos destrutivos nesses dois campos, Trump e Bolsonaro têm sido muito mais efetivos do que pode parecer, dada a sua evidente inépcia enquanto governantes.

    O desapreço pela capacidade de executar as funções normais de um governo é parte integral do projeto de transição da realidade dos fatos para a realidade autocrática

    Esse ataque à linguagem e aos rituais democráticos começa com o uso de palavras para denotarem seu oposto, à moda da “novilíngua” orwelliana: “fake news” para se referir a jornalismo, “golpe” para descrever o funcionamento dos contrapesos democráticos, “fraude” para se referir ao processo eleitoral. Cumpre papel semelhante o uso da mentira deslavada, não para enganar, mas para demonstrar poder (“power lies”, no dizer de Gessen): minto porque posso, e vocês têm de reportar minhas mentiras porque eu sou o presidente.

    Dessa maneira, o autocrata consegue criar duas realidades: a do mundo dos fatos, e a criada pelo líder. Como resultado, aponta Gessen, o mundo da política também se bifurca: numa democracia, localizada no mundo dos fatos, o público dos políticos são seus eleitores; na realidade autocrática, o público dos políticos é o líder. Esses dois planos coexistem: no processo de impeachment recente de Donald Trump, os democratas faziam audiências no Congresso com o objetivo de tentar afetar a opinião pública, enquanto os republicanos utilizavam o mesmo palco para sinalizar ao presidente sua lealdade. No Brasil, viu-se algo semelhante na infame reunião ministerial de 22 de abril, ou em como Bolsonaro faz seus ministros ficarem ao seu lado em suas lives constrangedoras nas redes sociais.

    A criação da realidade autocrática neutraliza e erode a reação democrática, porque a linguagem da democracia já não alcança para descrever o que acontece na política. Isso me remete, no contexto brasileiro, à eterna espera por “balas de prata” que irão tornar a situação política insustentável: fatos podem destruir projetos políticos na realidade democrática, mas na realidade autocrática eles não carregam o mesmo peso.

    Da mesma forma, o desapreço pela expertise, pela ciência, e pela própria capacidade de executar as funções normais de um governo também é parte integral do projeto de transição da realidade dos fatos para a realidade autocrática. Assim, a inépcia e as tendências “caquistocráticas” — que poderiam parecer trágicas garantias contra as piores intenções do autocrata — são, paradoxalmente, parte integral da tentativa autocrática. As políticas públicas passam também a transitar na realidade autocrática, indo e vindo ao sabor dos impulsos do líder — está aí a mobilização do aparelho do Estado em nome da cloroquina, que não nos deixa mentir.

    Mais ainda, é a dissonância das duas realidades que gera a sensação de vertigem a que me referi acima, e de profundo cansaço e dificuldade que tantos sentimos em processar o noticiário político. Isso tem o efeito duplamente desejável, do ponto de vista do projeto autocrático, de induzir o impulso de resolver essa dissonância: de um lado, mergulhando na realidade do líder, ou, de outro, se afastando da esfera política e se atendo à esfera privada. Em outras palavras, o entusiasmo crescente da “base” e o desengajamento do cidadão comum.

    Fica então mais claro o que estamos vivendo: uma democracia sob uma tentativa autocrática. E o que pode vir depois da tentativa? Sob a tipologia criada pelo sociólogo húngaro Bálint Magyar, o risco é de um avanço autocrático (“autocratic breakthrough”), potencialmente seguido pela consolidação (“autocratic consolidation”) já observada em lugares como Rússia ou Hungria. Será esse nosso destino?

    Nada é certo, mas o sucesso já obtido pelas tentativas em curso indica que não se pode esperar um simples retorno ao mundo pré-autocrático, mesmo após uma derrota nas urnas. O fato de que uma realidade paralela já foi criada mostra não somente que “as instituições” não garantem por si a neutralização do risco, mas também que é necessária uma reconstrução da linguagem e dos rituais deturpados por aquela realidade. E reconstruir, infelizmente, costuma ser mais difícil que destruir.

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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