Coluna

A Fapesp como exemplo internacional de apoio à ciência

    Em meio a uma situação excepcional como a pandemia, a estrutura, equipes e recursos da Fundação ajudam a responder rapidamente aos desafios do momento

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    Todas as quintas-feiras, em vez de atuar como cientista e professora na Universidade de São Paulo, eu trabalho junto à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) como membro da coordenação da área de biologia. Costuma ser o dia mais cansativo da minha semana, pois o trabalho é extenso, complexo e de muita responsabilidade, mas também é extremamente recompensante, pois se trata da principal agência pública de apoio à Ciência fundamental do País. A Fapesp possui recursos para investimentos em pesquisa muito superiores às outras fundações de amparo à Ciência estaduais brasileiras, e supera inclusive o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), agência federal de fomento à pesquisa. Essa realidade não é sem consequências, pois há uma forte correlação internacional entre investimento em Ciência e desenvolvimento. Deste modo, o fato de São Paulo ser o estado mais desenvolvido no país está intimamente ligado com o fato de que, historicamente, também é o estado que mais apoiou a Ciência e os cientistas, por meio da Fapesp.

    O investimento em Ciência da Fapesp não é somente reconhecido pela sua quantidade de fundos, mas acima de tudo pela sua qualidade. Essa qualidade é mantida utilizando a análise por pares para avaliar pedidos de auxílio à pesquisa. Para cada pedido de financiamento de projeto ou bolsa, são consultados pesquisadores especialistas no assunto do pedido para dar sua opinião técnica. Esses especialistas estão em todo país e também no exterior. A análise especializada fornecida por eles é então lida e discutida dentro das coordenações e pela diretoria científica. Após debates em vários níveis, e com base no mérito científico, decide-se se o pedido deve ser recomendado para financiamento. A análise por pares é, de fato, o melhor mecanismo internacional que se conhece para assegurar qualidade científica, adotada por agências de fomento internacionalmente reconhecidas, assim como pelas melhores revistas científicas.

    Surgem na pandemia muitos exemplos de como o investimento continuado de qualidade impulsiona ganhos para a sociedade

    Além de investimentos continuados e bem geridos e um mecanismo de análise de qualidade, outro grande segredo do sucesso da Fapesp é, na minha opinião, as pessoas que fazem essa instituição. Todos com quem interajo lá são de absoluta excelência, boa vontade e dedicação, incluindo técnicos que mantêm sistemas funcionando com afinco, gestores muito bem preparados e extremamente engajados, e cientistas que, como eu, investem parte de seu tempo em diversas coordenações. Me sinto privilegiada de poder interagir semanalmente com pessoas tão competentes e inteligentes, e aprendo muito com todas elas.

    Essa seriedade da Fapesp não passa despercebida. Revistas internacionais de destaque já escreveram artigos sobre o trabalho exemplar desta fundação. Agências internacionais de renome reconhecem e apoiam o trabalho da Fapesp, incluindo em acordos internacionais para pesquisa cooperativa, envolvendo 38 países distintos. Pesquisadores internacionais e de outros estados brasileiros abertamente discutem que escolheram trabalhar em São Paulo por causa da Fapesp. Em um nível mais pessoal, a Fapesp é o principal motivo pelo qual eu escolhi montar e mantenho meu grupo de pesquisa no Brasil após realizar estudos pós-doutorais nos EUA.

    No momento excepcional em que nos encontramos, em meio a uma pandemia que afeta o mundo inteiro, a estrutura da Fapesp permite não somente se adaptar rapidamente para continuar realizando seu trabalho com a mesma qualidade à distância, mas também responder especificamente ao desafio do momento. Foram lançadas chamadas emergenciais para projetos relacionados à covid-19, analisadas por pares em tempo real, e já com diversos pedidos aprovados. Há inclusive resultados já presentes, como o desenvolvimento de uma máscara lavável e reutilizável com maior proteção contra o novo coronavírus. Isso não surgiu da noite para o dia, mas sim do ganho de conhecimento com base em investimento continuado: uma das duas empresas parceiras na produção das máscaras surgiu como spin-off do Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais, grupo de pesquisa financiado pela Fapesp, e foi apoiada por projetos Fapesp de incentivo à pesquisa em pequenas empresas em 2011 e 2015. Este é apenas um de muitos exemplos de como investimento continuado de qualidade impulsiona ganhos para a sociedade.

    Este mês a Fapesp trocará seu diretor científico após um processo cuidadoso de busca e seleção. Sai o engenheiro e físico Dr. Carlos Henrique de Brito Cruz, ex-reitor da Unicamp e incansável líder, que impulsionou o reconhecimento internacional e ganho de qualidade contínua da Fapesp. É um estudioso minucioso de mecanismos de apoio, avaliação e progresso da Ciência, e esperamos que possa continuar contribuindo com seus importantes conhecimentos em outras instâncias. Entra o médico e neurocientista Dr. Luiz Eugênio Mello, que associa experiência em posições de liderança em universidades e na iniciativa privada com produção de ciência básica de destacada qualidade. A Fapesp seguirá, portanto, bem gerida, em sua função essencial de apoio à Ciência de qualidade.

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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