Coluna

2020 num rabo de foguete (uma retrospectiva pessoal)

    Este ano parte sem deixar saudades. Mas lega uma lembrança forte e uma memória de cauda longa. Quem sabe seja hora de fazer da crise um propósito

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    Finais de ano costumam gerar muita expectativa; dentre elas, a de que é chegada a hora de passar a vida em balanço. Nesses momentos rituais procuramos pensar no que fizemos e no que não fizemos. Nos desafios que conquistamos e naqueles que vamos empurrar para o ano seguinte. Nas amizades que cultivamos e até ampliamos e naquelas que deixamos para trás. Nos nossos acertos e erros, nas alegrias e nas tristezas, nas conquistas e nas decepções.

    Se costuma ser sempre assim, monotonamente assim, tenho certeza de que, este, será um ano diferente. Nos idos de 1977, Raul Seixas lançou o álbum chamado “No dia em que a Terra parou”. Não sei se foi premonição ou sorte do mago. Entretanto, de uma coisa eu tenho certeza: o tema nunca foi tão atual.

    2020 será lembrado como o ano da pandemia de covid-19, assim como 1918 ficou conhecido, na memória dos mais velhos, como uma espécie de marcador temporal: “No tempo da espanhola”, diziam eles. Da gripe espanhola.

    Este ano será visto no futuro como um parêntese: 2020, o ano em que vivemos na base do compasso de espera. O ano em que experimentamos um hoje sem amanhã; um agora sem planejamento de futuro

    Nós que costumávamos achar que o mundo era um só; que podíamos viajar pelo país e pelo mundo; que a tecnologia de ponta nos redimiria das travas e impedimentos, vimos tudo parar, tal qual trem descarrilhado. Fecharam as escolas, as igrejas, o comércio, os teatros, os restaurantes. De repente, um vírus parou a nossa vida social. Como estamos acostumados a viver na lógica do passageiro, quando começou o isolamento social, logo achamos que tudo seria breve, rápido como correm os meses do ano. Mas o rápido foi ficando longo, as medidas profiláticas, permanentes, e vamos terminar 2020 em clima de covid-19, e sem muitas certezas em relação ao que 2021 nos trará.

    Incluímos também novos hábitos no nosso cotidiano. Lembro que a primeira vez que vi uma amiga postando a imagem de máscaras de proteção fashion, me revoltei, e escrevi a ela dizendo que não se podia brincar com o sofrimento alheio. Não tinha noção de que o “alheio” era “meu” também, e que, sim, esse seria um acessório que vinha para ficar.

    Também a nossa relação com o tempo se mostrou muito alterada neste ano. Eu diria que vivemos, conforme conta Thomas Mann em seu belo livro “A montanha mágica”, a estranha temporalidade das férias, que parecem curtas na sensação, mas são sempre duradouras na memória. O ano pareceu passar rápido, escorrer de nossas mãos e sentidos, mas tenho certeza de que ficará para sempre marcado na nossa lembrança. Na minha compreensão, este ano será visto no futuro como um parêntese: 2020, o ano em que vivemos na base do compasso de espera. O ano em que experimentamos um hoje sem amanhã; um agora sem planejamento de futuro.

    Nos reinventamos também. Percebemos que nem toda reunião precisa ser presencial e que podemos criar regimes híbridos de trabalho. Mas nos autoenganamos igualmente. Demos de achar que teríamos mais tempo livre e acabamos caindo na armadilha das lives, das reuniões virtuais, dos encontros na telinha. Da minha parte, nunca dei tantas aulas e em tantos lugares ao mesmo tempo: no Brasil e no exterior. No mesmo dia, era capaz de conversar com alunos em francês, inglês e português. Como consequência, passei a lacrimejar fortemente de noite. Não havia nada de errado com meus olhos, eles apenas precisavam piscar mais, e, assim, serem mais lubrificados; coisas que não fazemos passando o dia em frente ao computador.

    Uma série de conceitos foram inventados, na tentativa de dar conta da experiência da pandemia, tão nova como estranha. “Novo normal” apareceu logo no começo da quarentena, buscando sinonimizar a situação criada. Mas rapidamente ficou claro que o termo escondia uma experiência de classe e só poderia ser considerado “normal” para setores privilegiados da sociedade que podiam se dar ao luxo de morar em casas ou apartamentos espaçosos, com cômodos separados, cada qual com seu computador. O certo é que “novo normal” pode até ser um conceito esperto, mas não diz respeito a parte significativa dos brasileiros, que não tem sequer água encanada. Por isso, em um país campeão de desigualdade, como o Brasil, foi preciso apelar para que aqueles que podiam ficar em casa o fizessem, até em nome daqueles tantos outros que não tinham qualquer condição de permanecer em suas residências. Por sinal, no Brasil, mais de 30% da população mora em cômodos de um quarto, onde vivem de 6 a 8 pessoas, o que mostra a total miríade e desfaçatez do conceito. A pergunta correta seria: “novo normal para quem?”

    Falando em desigualdade, foi ficando logo evidente como uma pandemia não traz nada de bom. Mas escancara a nossa realidade desigual. Na educação, por exemplo, acirrou-se a diferença entre escolas públicas e privadas. Não houve criança, adolescente, jovem e estudante, de uma forma geral, que deixasse de sofrer com o sequestro de seu cotidiano. Sabemos que educação se faz também na base da socialização e da troca, e essas atividades, à primeira vista tão banais, fizeram muita falta neste ano. Sabemos também que, de uma forma ou de outra, estudantes de escolas privadas reinventaram seus cotidianos e, mesmo que de forma virtual, cumpriram o ano letivo. O mesmo não pode ser dito em relação ao corpo discente das escolas públicas, com muitos alunos ficando sem aulas, ou com aulas muito precárias, o ano todo. Num país em que de cada 4 brasileiros 1 não conta com rede de internet, a ideia de um ano letivo não presencial só pode ser uma falácia.

    A desigualdade também se revelou no campo da saúde. Aliás, a pandemia mostrou como tinha endereço, raça e classe. Se a princípio houve quem argumentasse que o novo coronavírus era “democrático”, rapidamente se delineou onde mora a morbidade no Brasil: nas classes pobres que residem nas periferias das cidades brasileiras e, dentre elas, na população negra que foi a que apresentou maiores índices de contaminação e de mortes. Não há aí qualquer fator biológico para explicar tal “singularidade”. A explicação é histórica e social e revela como esses são os grupos que menos fazem uso (não porque deixem de querer) de uma medicina preventiva. Diabetes e problemas cardíacos são, neste caso, consequências e não causas.

    A pandemia evidenciou, igualmente, nossos problemas de gênero, com o número de casos de feminicídio multiplicando-se. Longe da primeira imagem edulcorada, e que pouco sobreviveu, ficou clara a expressão de Lampedusa: “parente serpente”. Ao invés da solidariedade, vimos tomar forma a velha e boa divisão entre gêneros, com as mulheres cuidando da casa, da lição dos filhos e das filhas, da alimentação, enquanto os homens, sempre ocupados demais com seus trabalhos, voltaram a desconhecer a agenda de suas mulheres, esposas, companheiras. O infanticídio também cresceu no Brasil, com muitas crianças pagando a conta do isolamento social.

    Mesmo com muitos em casa, e com menos casos de latrocínio, roubo e assalto, a violência policial conseguiu crescer em 2020. Os números saltaram e revelaram como tinham alvo: a juventude negra e jovem. Por sinal, 2020 ficará conhecido não só como o ano da pandemia de covid-19, mas também como o ano em que finalmente a questão racial estourou no Brasil. Se nos EUA o tema bombou na mídia a partir de maio, com o assassinato de George Floyd, por aqui temos um ou mais Floyds ao dia, e a gota d’água foi o assassinato covarde, e gravado em vídeo, de Beto Freitas no Carrefour de Porto Alegre. Como é costume no Brasil, logo se procurou atenuar o caso e jogar a culpa nos seguranças terceirizados do supermercado. Não funcionou. O episódio mostrou como o racismo é uma linguagem enraizada no Brasil, e que gera uma prática igualmente enraizada. Mais ainda, gera uma lógica da invisibilidade e de “naturalização” de parte muito significativa da população, que demonstra com atos e gestos como é ainda muito frágil e precária a nossa democracia.

    Se democracia é um regime pautado em três conceitos básicos – liberdade, igualdade e direitos –, não se pode falar em um estado democrático quando 56,1% da nossa população – pretos e pardos, segundo classificação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – continua privada e carente da igualdade e dos mesmos direitos. Nesse sentido, somos o nosso lobo do lobo, pois mantemos um processo de subalternização que denuncia a essência e a estrutura autoritária dos brasileiros.

    Conforme expliquei no livro “Quando acaba o século XX”, o historiador Eric Hobsbawm nos ensinou que um século não termina quando viramos os dias do calendário. Ele finaliza quando a experiência que mais o definiu de alguma maneira se extingue. Pois bem, o século 19 só acabou em 1918, quando terminou a Primeira Guerra Mundial e teve fim a epidemia de gripe espanhola. Isso porque esses dois eventos deixaram expostas as entranhas do nosso mundo Ocidental que se queria tão “civilizado”, mas mostrou tamanha “barbárie”.

    Se a premissa do historiador inglês estiver correta, é possível dizer então que o século 20 ainda não terminou. Voltamos para trás. A pandemia de covid-19 mostrou como não éramos tão evoluídos e científicos como gostávamos de sonhar. Ao contrário, um simples vírus parou grandes e pequenos impérios, nações globalizadas e povos mais isolados e mostrou como somos frágeis. É a humanidade que se encontra em extinção, como diz Ailton Krenak, e não a natureza – a despeito dos inúmeros esforços do nosso (falso) ministro do Meio Ambiente.

    Neste ano de 2020, saiu-se muito mal o nosso presidente negacionista, que se esmerou em atacar a imprensa e a ciência no momento em que mais precisa dela. Por isso, é necessário agradecer aos jornalistas que se esmeraram em fornecer dados confiáveis e não manipulados – como aqueles do governo – acerca do número de mortos e contaminados. É preciso agradecer também aos cientistas, médicos, enfermeiras e enfermeiros que aguentaram firme o dia a dia da doença. Precisamos deles para fazer uma política acertada na área da saúde.

    Também vimos a queda de dois médicos no Ministério da Saúde e a subida do general Pazuello, que engrossou o coro irresponsável do governo. Ele e o presidente afirmaram que “não havia pressa”, que não entendiam o motivo para tanta “ansiedade”, que tudo não passava de uma “gripezinha”, com o Brasil registrando quase 200 mil mortos em dezembro.

    Esse é um governo que se nega a falar de luto e lidar com a morte. Sabemos que faz tempo que sequestramos a morte, evitando mencioná-la. Acabaram-se os rituais, os sinos que dobravam e os doentes passaram a ficar apartados dos sãos. Era a morte da morte. Ao mesmo tempo, passamos a cultivar um tempo da eterna juventude, uma espécie de complexo de Peter Pan, onde ninguém tem o direito de envelhecer. O presidente, por exemplo, declarou seu desdém diante daqueles que adoeceram seriamente ou morreram, recusando-se a falar deles e alardeando sua “condição de atleta”.

    Mostram as nossas populações indígenas que tratar da morte significa louvar a vida. Não há uma sem a outra e nos custará muito caro essa falta de solidariedade, essa falta de apego e afeto pelo “outro”, essa carência de subjetividade interior e de compreensão do sentido profundo da morte e da vida.

    O Brasil não é um país pobre; é um país de pobres e infelizmente sairemos mais pobres e desiguais de 2020; quando a Terra parou. Minha solidariedade às famílias que perderam parentes; aos colegas que choram seus amigos e amigas. Sabemos que, a essas alturas, não há qualquer brasileiro que não tenha algum conhecido que se foi neste ano triste.

    Feliz 2021 aos que sobreviveram. Não temos como mudar o passado, mas podemos escolher o futuro. Que a vacina venha logo, e que possamos ganhar as ruas para reclamar desse governo omisso e inconsequente, e cobrar por tudo aquilo que ele não nos deu: transparência, boa informação, diretrizes diretas, solidariedade.

    Este ano parte sem deixar saudades. Mas lega uma lembrança forte e uma memória de cauda longa; um rabo de foguete. Quem sabe seja hora de fazer da crise um propósito. Escolher governantes que não nos envergonhem, e lutar pelos direitos de todos os brasileiros, sem exceção de raça, gênero/sexo, região ou geração, nessa república tão desigual em que vivemos. Uma república aos farrapos.

    PS: Estarei de férias durante o mês de janeiro. Em fevereiro, devidamente descansada, volto à coluna.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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