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Coluna

Vamos falar de narrativas históricas

8 de abr de 2019 (atualizado 08/04/19 às 22h30)

    Os governos de raiz autoritária que costumam ser os mais ‘afiados’ na hora de inventar novos sentidos para o passado, contrariando documentos e evidências

    Não é a primeira vez que, em tempos de crise, se inventam, recriam e ou se releem, com novos acentos, velhas e por vezes consolidadas narrativas históricas.  A estratégia não tem nada de recente. Na antiga União Soviética, o jornal do Partido Comunista, o Pravda, cuja tradução quer dizer “verdade”, não titubeou: defendeu o autoritarismo como a única história viável. Até mesmo países de reconhecida tradição liberal costumam patinar quando precisam lembrar de um passado que preferem esquecer. Esse é o caso do regime de Vichy na França (1940-44), quando as elites locais colaboraram com o nazismo, ou mesmo da Espanha, que até hoje não consegue acertar suas contas com o período violento da Guerra Civil (1936-39), que dividiu, e ainda divide, sua população.

    Mas são os governos de raiz autoritária que costumam ser os mais “afiados” na hora de acionar esse tipo de expediente político. O nazismo de Adolf Hitler (1933-1945) inventou um passado “ariano” para os alemães: puro e não conspurcado pelos demais imigrantes e pessoas consideradas degeneradas.

    Nessas horas, a história vira fundamental, uma espécie de certificado para justificar governos que preferem voltar a um passado mitificado para assim glorificar o seu presente. Eliminar lugares de memória, na bela definição de Pierre Nora, é, portanto, uma prática tão comum como generalizada.

    Todavia, esse tipo de atitude é ainda mais recorrente no interior de sociedades em que a história participa diretamente da luta política, vira uma forma de nacionalismo, e passa a buscar amenizar ou simplesmente anular acontecimentos traumáticos do passado. Edulcorar e exaltar eventos dramáticos na história de um país, transformar a derrota em vitória, é manejo tão conhecido como lamentável.

    E essa tem sido nossa tônica atual. Por aqui, a história virou uma espécie de pau para qualquer obra. Qualquer um se transforma logo em especialista e fala de cátedra sobre temas sobre os quais pouco pesquisou, jamais leu e, por vezes, mal ouviu falar. Por exemplo, ultimamente temos procurado dar um upgrade no nosso passado castigado.  Em vez de analisar o que significou o fato de termos sido o país que mais recebeu mão de obra escravizada durante a modernidade ou de refletir sobre termos abolido o sistema escravocrata mercantil em último lugar no Ocidente, tem parecido mais “razoável” tentar colocar a conta nas costas dos africanos.  Nada mais covarde e perverso do que transformar a vítima em algoz. Vítimas, aliás, que sempre reagiram, e de inúmeras formas, ao cativeiro.

    Pois não é que nosso presidente (quando ainda era candidato) se saiu com a seguinte pérola do pensamento nacional? “Se for ver a história realmente, os portugueses nem pisavam na África. Foram os próprios negros que entregavam os escravos (...) Faziam o tráfico, mas não caçavam os negros. Eram entregues pelos próprios negros”.  Craque na política do fakenews e dos factoides, Jair Bolsonaro contou a história que quis, não aquela encontrada nos documentos. Esqueceu de explicar que poucos povos deixaram de conviver com alguma forma de escravidão; a África também. No entanto, por lá, a instituição se desenvolveu paralelamente a sistemas de linhagem e de parentesco. Os escravizados não eram entendidos como “coisas” ou “propriedades”, tampouco considerados centrais para o funcionamento regular dessas sociedades.     

    Por outro lado, o contato luso com a África Negra teve longa história, antecedendo em até meio século a descoberta do Brasil. Em 1455, Zurara, em sua “Crônica de Guiné”, já descrevia atividades portuguesas na foz do rio Senegal. Foi com a introdução da cultura do açúcar que a história girou: os escravizados tornaram-se fundamentais na produção agrícola, o negócio tornou-se muito lucrativo e o interesse se voltou da pimenta para o tráfico de viventes com os portugueses entrando continente africano adentro. Não por acaso, em meados do século 16, Lisboa era a cidade europeia que mais possuía escravizados africanos: contava com cerca de 100 mil habitantes, dos quais 10 mil eram cativos.

    Enfim, foram os portugueses que escravizaram, sim, os africanos e lucraram muito com isso, sendo que, a partir do século 16, o governo lusitano ganhava mais com o tráfico de almas do que com qualquer outro comércio. Errou o presidente, já que são muitas as provas de que os portugueses pisaram, e firme, no continente africano e trataram de o desorganizar e provocar guerras internas.

    O uso circunstancial e ideológico da narrativa histórica tem disparado o despertador interno de qualquer um que deseje ver na democracia um sistema capaz de resolver os nossos conflitos políticos e estimular o diálogo entre as diferenças

    Também está equivocado aquele que vê, com lentes românticas, o que foi o regime paternalista e patriarcal que imperou no Brasil colonial, e que persevera modificado até os dias de hoje. Na impossibilidade de colonizar seu domínio, a metrópole cedeu poder aos grandes proprietários, que mandavam de forma quase absoluta nos amplos territórios. Guardavam controle das leis, dos costumes, da justiça, do trabalho e até mesmo dos lucros, com Portugal fechando um olho inteiro para a corrupção interna que já era corriqueira naquele contexto. No século 17, viajantes costumavam afirmar que era preferível ser roubado por piratas em alto-mar a aportar no Brasil, onde teriam de pagar uma série de taxas sobre a mercadoria comercializada, além de serem obrigados a adular os administradores e grandes proprietários com todo tipo de presente.

    O certo é que não há nada de muito grandioso em nosso passado colonial. O mesmo pode ser dito do período em que vigorou a ditadura militar no Brasil (1964-1985). A despeito do governo ter promovido uma verdadeira cortina de fumaça em torno do episódio, não há dúvidas de que o regime foi instaurado a partir de um golpe de Estado (que significa tirar do poder um governo legitimamente instituído), e que deu um lugar a uma ditadura totalmente inconstitucional.

    Como diz o jornalista Elio Gaspari, se a ditadura no Brasil começou encabulada, logo depois ela viraria totalmente escancarada. Após 1968, e com a promulgação do AI-5 (o Ato Institucional Número 5), os brasileiros foram usurpados em seus direitos mais básicos e submetidos a um estado de exceção, que nada tinha de benfazejo: a mídia foi censurada, a educação controlada, adversários e opositores ao regime acabaram na prisão, foram torturadas, assassinados ou desapareceram. Segundo o III Programa de Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, publicado em 2010, estima-se que 20 mil brasileiros e brasileiras tenham sido submetidos a tortura no período militar. Não há sentido, portanto, em acatar a definição do agora  ex-ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, que chamou o período de “regime democrático de força”. Ou é democrático ou é imposto pela força (o que foi). Enfim, tudo não passa de revisionismo tosco, sem chão ou sentido!

    Mais um exemplo: recentemente o chanceler Ernesto Araújo, num atentado à história, afirmou que fascismo e nazismo foram regimes de esquerda. Por sinal, ele foi secundado e apoiado por nosso presidente e seu “filho consorte”, Eduardo Bolsonaro. Trata-se, mais uma vez, de uma inversão de sentidos, numa pirueta arriscada na história e nos documentos em que ela se baseia. A maior intenção do nosso ministro das Relações Exteriores só pode ter sido provocar e aparecer na imprensa (na base do “custe o que custar”). Na própria fundação do movimento nazista, nos anos 1920, ele já se declarava “contra o socialismo, o marxismo e a União Soviética”. Mas não vou dar muita vela para quem tem pouco lastro. Aliás, história não é cadeira de balanço que sobe e desce em função da vontade daqueles que estão no poder.

    Os exemplos são muitos e comprovam como a história, uma história deturpada, tem sido utilizada como propaganda para um regime que vem derrapando na sua própria retórica. O problema não é, porém, apenas de linguagem e semântica. A questão é política e pede de nós muita vigilância e atenção cidadã. Aliás, o uso circunstancial e ideológico da narrativa histórica tem disparado o despertador interno de qualquer um que deseje ver na democracia um sistema capaz de resolver os nossos conflitos políticos, estimular o diálogo entre as diferenças e os diferentes, solucionar impasses na base da legalidade. O resto é história da carochinha ou conto de fadas. Por sinal, de príncipes rosas e princesas azuis, seguindo a “tese” da ministra Damares Alves, outra craque no mau uso da retórica da história, já estamos cheios. Ops, inverti. Fica assim mesmo...

    PS: Lanço em maio um novo livro sobre o autoritarismo no Brasil. Esta coluna deve muito a ele.

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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