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Coluna

Uma questão de ciência: devemos temer os radicais livres?

    Eles estão em toda parte e têm um modo de operação muito particular. Sem eles, não existiríamos da forma como existimos

    Aconteceu há poucos dias nos EUA o congresso da maior sociedade mundial voltada para o entendimento de radicais livres. Apesar do nome, não se trata de um movimento político, e sim de uma sociedade científica, em que se estuda o papel na biologia e na medicina de um grupo de moléculas conhecidas como radicais livres. Cerca de 400 cientistas se reuniram para apresentar e discutir seus últimos achados científicos na área.

    Para entender o que são radicais livres, é preciso lembrar que toda a matéria que nos cerca é composta por moléculas e átomos. De fato, os átomos que nos compõem como seres vivos estão constantemente participando de reações químicas, gerando e modificando as moléculas que nos fazem existir. Átomos, por sua vez, possuem núcleos (que contêm prótons e nêutrons) e também elétrons, que transitam em torno dos núcleos em diferentes distâncias, conhecidas como orbitais, devido à sua semelhança com as órbitas de planetas em torno do sol. Mas a semelhança entre átomos e o sistema solar para por aí, pois elétrons tipicamente não têm orbitais individuais próprios, como os planetas. Em vez disso, a maioria dos elétrons existem em pares nos diferentes orbitais, o que lhes garante maior estabilidade química.

    Radicais livres são uma exceção nesse sentido, pois possuem elétrons sem par em um determinado orbital, ou elétrons desemparelhados. Essa propriedade é o que faz dos radicais livres moléculas especiais, pois ter elétrons desemparelhados significa, em geral, ter uma menor estabilidade química. Por conterem elétrons sem pares para estabilizá-los, os radicais livres tendem a sofrer reações químicas com maior facilidade. Em outras palavras, radicais livres são, geralmente, moléculas bastante reativas. Podem reagir com outras moléculas no nosso corpo, modificando-as.

    Você provavelmente já ouviu falar que radicais livres são moléculas que podem causar doenças e envelhecimento, sendo portanto os “maus elementos” dentre os produtos químicos. De fato, radicais livres que produzimos dentro dos nossos corpos podem levar a lesões de várias de nossas moléculas, participando de doenças, incluindo infarto cardíaco, cânceres e diabetes, entre outros.

    Ao tomar um antioxidante, você pode estar não só eliminando bons radicais livres, mas também diminuindo a sua proteção normal contra os maus radicais livres

    Devemos então tomar suplementos de antioxidantes, ou substâncias capazes de remover esses radicais livres para prevenir essas doenças? A esmagadora maioria dos estudos científicos cuidadosos indicam que essa estratégia não funciona para prevenir doenças e, em alguns casos, até piora a saúde. Isso acontece por dois motivos principais. Primeiro, antioxidantes são moléculas que não têm como estar em todos os lugares do nosso corpo ao mesmo tempo. Portanto não conseguem remover todos os radicais livres que são constantemente produzidos em nosso corpo, e que podem causar lesões em qualquer lugar, a qualquer momento.

    Uma estimativa indica que geramos todos os dias cerca de 1022 moléculas de um radical livre específico, chamado radical superóxido, por meio do nosso metabolismo. 1022 é o número um seguido de 22 zeros: 100000000000000000000000, ou dez setilhões de unidades dessa molécula – aproximadamente dez vezes mais moléculas do que há grãos de areia nas praias de todo o planeta, somente para um dos tipos de radicais livres que produzimos. Não há suplemento antioxidante que possa neutralizar um número tão grande de radicais livres.

    O segundo motivo pelo qual tomar antioxidantes não ajuda a prevenir doenças causadas por radicais livres é talvez o mais surpreendente: radicais livres possuem várias funções importantes para os nossos corpos, e antioxidantes podem inibir essas funções boas. Dentre as várias funções benéficas de radicais livres dentro de nós, podemos incluir a regulação da nossa pressão arterial (descoberta que foi agraciada com Prêmio Nobel em 1998) e a participação nos mecanismos de defesa do nosso corpo contra invasores. De fato, células do sistema imune produzem várias moléculas bastante reativas para nos defender contra microrganismos causadores de doenças, incluindo radicais livres, peróxido de hidrogênio (a mesma substância usada para clarear pelos e cabelos), e hipoclorito (presente na água sanitária). Outro papel bom de radicais livres é sinalizar para as nossas células que é necessário se proteger contra danos causados por maus radicais livres, deixando as células mais bem preparadas para possíveis lesões futuras. Isso significa que, ao tomar um antioxidante, você pode estar não só eliminando bons radicais livres, mas também diminuindo a sua proteção normal contra os maus radicais livres.

    Portanto, radicais livres são ao mesmo tempo bons e maus, mas acima de tudo são naturais (parafraseando aqui a professora Ohara Augusto da Universidade de São Paulo, uma líder mundial nos estudos dessa área e autora do excelente livro Radicais Livres: Bons, Maus e Naturais). Nós sempre existimos na presença dessas moléculas (até mesmo o oxigênio que respiramos e de que precisamos para viver é um radical livre!). Consequentemente, nossos corpos se adaptaram para utilizá-los para várias funções importantes e boas, além de terem se adaptado para se defender de modo eficiente contra suas funções ruins.

    Radicais livres são moléculas interessantes e importantes. E normais. É por isso que eu às vezes tenho medo de políticas radicais, mas não das moléculas radicais...

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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