Coluna

Um feliz Natal preto, bem preto!

    Como tratar de representatividade negra e de cotidiano real numa festa em que, mesmo do ponto de vista mercadológico, pessoas negras ainda são invisíveis? 

    Neste período natalino, fala-se muito em humanidade e a importância do amor e respeito a todos os seres humanos. Para as pessoas as quais a humanidade não é algo dado, e sim fruto de lutas, Natal também é época de afirmação.

    O coletivo Ouriçado Produções, formado por um grupo de artistas negras e negros baianos, trouxe uma “bem-humorada” e interessante paródia das chamadas natalinas da Rede Globo. Chamo de “bem-humorada” por ser irônica e porque, de certa forma, ridiculariza a harmonia irreal do elenco da emissora, que poderia se passar na Noruega ou no Leblon, ou em qualquer lugar onde negros não existam.

    Voltando à paródia do coletivo Ouriçado, denuncia-se o horror da vida das pessoas negras, que festejam o Natal ao mesmo tempo em que convivem com uma realidade de genocídio, de desemprego, de abuso e violência policial. A única certeza na encenação é que “a festa é luta e a batalha é nossa”, além das pessoas parceiras que quiserem juntar-se às pessoas negras na sua constante luta por reconhecimento da sua humanidade.

    Sendo o Natal, na maioria das vezes, uma celebração que pode se deslocar do seu significado cristão, que é o nascimento de Cristo, e se materializar na celebração da cultura europeia e da branquitude, para nós, pessoas negras da cidade mais negra fora da África, as celebrações natalinas podem parecer um paradoxo.

    Em vez da neve, estamos no início do verão e das festas de rua que antecedem o carnaval. Além disso, buscamos, cada vez mais, estar perto da praia, o que é bem diferente do inverno rigoroso que compõe o clima dos filmes natalinos que vamos ver na televisão. A única coisa que está em consonância com os filmes produzidos no hemisfério norte é a decoração natalina da maioria dos shoppings da cidade, sobretudo os mais elitizados. Lá estão expostos os “bons velhinhos” brancos e barbudos, que se parecem com os avós de quase ninguém por aqui.

    Nesta época do ano, ser auxiliar do “Papai Noel” é possibilidade sazonal interessante para as moças brancas pobres ou da classe média soteropolitana. Porém, a atividade tem seu desafio: super mal-humoradas, pelo menos uma vez no ano elas devem ser pacientes e até servir os filhos e filhas da pequena branquitude baiana, ou ocasionalmente, num raro episódio das suas vidas, topar com uma criança negra à qual devem tratar “pacientemente”.

    Crianças negras e brancas, portanto, juntam-se na mesma fila para tirar uma fotografia com o avô que não se parece em nada com a família de boa parte delas, num cenário cheio de neve falsa que cai sobre pinheiros e esquilos de pelúcia ( ou de mentira), que também não temos por aqui.

    Porém, este ano de 2019 será marcado por uma presença inédita na festividade natalina baiana. Essa novidade nos aproxima da realidade, da humanização e das conquistas da representatividade.

    Pela primeira, vez um shopping de Salvador, cuja decoração natalina tem como tema o filme Madagascar, que se passa na África, decidiu fazer justiça tardia e escolher um Papai Noel negro para receber as crianças. Desde então, essa tem sido a sensação natalina das famílias negras que, pela primeira vez, podem resolver o dilema de manter a fantasia infantil dos seus filhos e filhas sem caírem na contradição e na armadilha da hegemonia da branquitude.

    Explico melhor: este ano, em Salvador, uma família negra não reforçará a ideia de que o que é bom, belo, inocente e caridoso — em suma, a representação do amor incondicional a todas as crianças do mundo, negras e brancas — materializa num homem que quase não faz parte do seu cotidiano. Enquanto os “papais noéis” de todos os outros shoppings de Salvador não podem ser vistos nas ruas nem no nosso cotidiano, ou no máximo podem ser vistos na TV na figura de pessoas poderosas que estão longe de representar amor ou caridade, o senhor Ubirajara Pereira, o Papai Noel negro, poderia estar na festa natalina de quase todas as famílias de Salvador. Ele pode ser o tio que reclama que nunca mais nos viu, o pai sempre mal-humorado que abrirá uma trégua na noite do dia 24 , o avô carinhoso dos nossos filhos, o vizinho que sempre insiste para que visitemos a ceia da sua família, além da nossa. O papai negro também pode ser o motorista do ônibus, o professor, o porteiro, o advogado que resolveu um problemão para nossa família este ano, o médico experiente que insiste para que cuidemos da nossa saúde ou o nosso babalorixá, dentre tantos outros papéis.

    Seu Bira é o avô de quem pode não ter tido avô e é o Papai Noel das mulheres e homens negros, hoje adultos, que sonhavam com ele, e que pela primeira vez podem acreditar que, sim, ele é real, ele existe e mora aqui na nossa cidade. Ele está lá no shopping, ou nas ruas, nas nossas famílias… basta querer ver. Assim, termino este texto que foi uma pausa em todos os assuntos reais (e muitas vezes cruéis) que foram temas dos meus textos este ano. Essa pausa é um espaço para falar de fantasia e realidade, que também constituem nossas subjetividades, sobre o que nos faz humanos. O Papai Noel negro significa a afirmação do nosso direito à humanidade. Representatividade quer dizer isso.

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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