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Coluna

Um conto natalino científico

    As pesquisas brasileiras sobre o vírus Zika são um ótimo exemplo da dedicação e contribuição de cientistas para o progresso da sociedade

    No dia 19 de dezembro de 2015 o laboratório do Prof. Jean Pierre Schatzmann Peron, no Instituto de Ciências Biomédicas da USP (Universidade de São Paulo), recebeu um presente de Natal antecipado e inusitado: uma amostra do vírus Zika. O simbolismo da época do ano em que a amostra chegou não passou despercebido, e o laboratório fez uma breve cerimônia, simbolicamente colocando a amostra embaixo de uma árvore de Natal improvisada. Mas a cerimônia durou apenas alguns minutos, pois eles não podiam esperar para abrir esse presente. O grupo tinha um problema científico urgente para resolver: verificar se a infecção pelo vírus Zika de fato causava microcefalia.

    Apenas alguns meses antes, em agosto de 2015, a neurologista pediátrica Vanessa van Der Linden liderou uma equipe de médicos pernambucanos que percebeu e reportou um aumento dos casos de microcefalia na região. Em setembro do mesmo ano, uma equipe multinacional liderada pela epidemiologista Celina Turchi Martelli, da Fundação Oswaldo Cruz em Recife, demonstrou que havia uma correlação entre a ocorrência de microcefalia em recém-nascidos brasileiros e a infecção por vírus Zika nas mães dessas crianças. Seu trabalho mereceu menção da prestigiosa revista científica Nature, que a elegeu uma cientista de destaque em 2016.

    Mas, como é bem sabido em ciência, correlações não significam causa. O fato de as mães terem sido infectadas pelo vírus não provava que o vírus era a causa da microcefalia. A correlação podia existir por muitos outros motivos, incluindo diferenças entre os lugares onde essas mães moravam e infecção por outras doenças também transmitidas por mosquitos, dentre muitas outras possibilidades. Foi nesse ponto que o Prof. Peron aceitou trabalhar, a convite de seu colega, o virologista Prof. Paolo Marinho Zanotto. Em novembro de 2015, percebendo a gravidade do problema, o Prof. Zanotto rapidamente montou uma equipe de mais de 30 pesquisadores para investigar o vírus e sua possível relação com a microcefalia, com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo), o principal órgão de financiamento à pesquisa para essa iniciativa.

    O conhecimento sobre a infecção e suas consequências progrediu rapidamente, graças ao preparo e dedicação de cientistas brasileiros, todos com vínculos a universidades e institutos de pesquisa públicos de excelência

    O Prof. Peron, naquele momento, era um especialista em imunologia do cérebro que nunca havia trabalhado com vírus, mas que tinha o conhecimento, além de um laboratório de neurologia necessário, para assumir o desafio. Jovem, há pouco contratado como professor, fã de rock (faz parte de uma banda chamada “The Professors”), e acima de tudo carismático, conversou com os estudantes de seu grupo, e propôs que, perante a emergência nacional em que se encontravam, parassem seus projetos de mestrado e doutoramento para se dedicar integralmente à investigação das consequências que uma infecção de Zika em uma mãe prenha tinha nos cérebros de fetos de camundongos. Todos os membros do seu grupo aceitaram o desafio.

    Na passagem de 2015 para 2016, não houve comemorações de Natal, Ano Novo ou Carnaval para o grupo de cientistas. Todos permaneceram no laboratório durante os feriados, trabalhando muitas horas, dia e noite, até que obtiveram a resposta, publicada em maio de 2016. Seus experimentos mostraram que, de fato, infecção por vírus Zika durante a gravidez leva a danos nos cérebros dos fetos. Esse trabalho se juntava a outras evidências experimentais, também conduzidas rapidamente por pesquisadores dedicados de vários grupos diferentes trabalhando em paralelo, demonstrando que o vírus causava lesões especificamente em células cerebrais em desenvolvimento, como aquelas que existem durante a gestação. Estava comprovada experimentalmente a hipótese de que a infecção por vírus Zika era causa de microcefalia congênita.

    Os progressos científicos brasileiros relacionados ao Zika não pararam por aí. Pesquisadores brasileiros participaram de ensaios para a criação de vacinas contra o vírus (atualmente em fase de testes em humanos). Desenvolveram um mosquito transgênico capaz de controlar a população do mosquito natural que transmite a doença. Criaram técnicas para descobrir compostos antivirais contra Zika, e descobriram que medicamentos antivirais já usados eram eficazes contra o vírus. Criaram vários exames laboratoriais capazes de diagnosticar a infecção, além de diferenciá-la de infecções por vírus semelhantes como da dengue e chikungunya. Utilizando-se de criatividade científica extraordinária, e notando que o vírus destrói células em desenvolvimento, mas não neurônios adultos, cientistas brasileiros se aproveitaram do poder de destruição do Zika para tratar e eliminar tumores cerebrais, que são semelhantes às células em desenvolvimento de fetos. Em muito pouco tempo, o conhecimento sobre a infecção e suas consequências progrediu rapidamente, graças ao preparo e dedicação de cientistas brasileiros, todos com vínculos a universidades e institutos de pesquisa públicos de excelência.

    Nessas festas de fim de ano, cientistas pelo mundo todo devem comemorar com seus amigos e familiares, pois são acima de tudo pessoas normais. Mas também irão visitar seus laboratórios para cuidar de equipamentos, experimentos e produtos. Farão isso por necessidade, pois a ciência não é interrompida para os feriados, mas também por amor ao processo de descobrir e saber que se contribuiu, mesmo que com pequenos passos, para o progresso da sociedade.

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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