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Coluna

Turistas de Wakanda: mulheres negras de férias na Bahia

    Quando nos demos conta, tínhamos virado atração local. Alguns homens e mulheres curiosos, dirigiram-se a nós com uma pergunta já na forma de resposta: ‘Vocês não são daqui?’

    Minha última coluna foi dedicada a pensar as relações entre feminismo e maternidade. Em meio a uma viagem de férias na companhia de uma amiga, lancei a seguinte pergunta: como mães podem se apropriar do tempo para valorizar a sua individualidade como mulheres, com projetos e vontades próprias, que extrapolam a condição materna? Na coluna desta semana, dando continuidade às edições férias de verão, desdobro a indagação. Para isso, trago, na forma de novas perguntas, um tema que acompanhou nossa estadia em Itacaré, na Bahia. Em um país em que mulheres negras ocupam a base de todos os indicadores sociais, como construímos a identidade de “turista negra”? Quais relações de gênero, raça, classe, sexualidade evidenciadas por meio desse lugar de fala?

    A interação animada com a cobertura da nossa viagem nas redes sociais assim como o fato de várias outras mulheres negras também estarem viajando para se divertir e descansar saltaram aos meus olhos. Nesse momento de retrocessos, as imagens de Djamila Ribeiro, Erica Prado, Erly Guedes, Ellen Paes, Joice Berth, Isis Virgilio, Luiza Brasil em aviões, ao volante de carros, em cachoeiras, rios e praias paradisíacas, iates, florestas, sítios, museus, vinícolas tornam-se marcantes. Sozinhas ou acompanhadas por amigas, familiares e namorados, seus movimentos entram para conta da resistência às políticas de desumanização, que nos confinam ao lugar de criadas para servir.

    Durante 12 dias na cidade do surf, observei que assim como em todo o Nordeste, lá, a maioria da população é composta de pessoas negras. Acompanhando a história da região, parte considerável desse grupo racial é de pessoas dedicadas a atividades profissionais ligadas aos ramos do comércio e do turismo.

    Como se trata de uma cidade pequena, consolidei-me como uma espécie de personagem “improvável”. Uma mulher negra que gerava identificação, orgulho e admiração, em especial de outras mulheres negras, com quem criei vínculos de amizade

    Não sendo moradoras da cidade, trabalhadoras do sexo, esposas de “gringo”, tornamo-nos alvo de especulações. Para barqueiros, guias de trilhas, cozinheiras, garçonetes, motoristas, surfistas, viramos uma espécie de enigma a ser decifrado. Logo no começo da viagem, saí com Tenka para dançar no Favela Coffee Shop, a principal balada da cidade. Com a nossa presença, a pista de dança, que estava vazia, rapidamente lotou. Quando nos demos conta, tínhamos virado atração local. Alguns homens e mulheres curiosos dirigiram-se a nós com uma pergunta já na forma de resposta: “Vocês não são daqui?” E seguiam nos acompanhando com olhares de admiração e curiosidade. Quando explicávamos nossas origens do Rio de Janeiro e de São Paulo, a conversa avançava para dúvidas como: com que vocês trabalham? Atrizes? Modelos? Dançarinas? Com roupas de capulana estampadas em diversos tons, rebolando funk carioca até o chão, nos sentíamos as próprias turistas de Wakanda que, ousadas, decidiram pousar sua nave para desbravar a paradisíaca Itacaré.

    Em diversas situações, para responder às perguntas, expliquei que era professora universitária no Rio de Janeiro (o que também aumentava a surpresa) e que me dedicava a trabalhar com a história das mulheres negras. Isso, assim como o cuidado de divulgar iniciativas profissionais que considerei relevantes de serem conhecidas por meu público, fez com que muitas pessoas locais passassem a me seguir nas redes sociais.

    Como se trata de uma cidade pequena, consolidei-me como uma espécie de personagem “improvável”. Uma mulher negra que gerava identificação, orgulho e admiração, em especial de outras mulheres negras, com quem criei vínculos de amizade. Nossas parecenças de cor de pele, tipo de cabelo, ligação com o mar reverteram-se em muitas conversas com adolescentes, mães, avós, tias que tinham curiosidade em saber desde o que faz uma acadêmica, o que é preciso para conseguir uma vaga na universidade, até quando eu iria abrir uma sede do Grupo Intelectuais Negras na cidade. Nem preciso dizer que amei a ideia! Do meu lado, essas perguntas me fizeram pensar a importância do lugar de educadora e formadora de opinião que consegui alcançar articulando as identidades de acadêmica, ativista, mãe, surfista. Uma jornada cada dia mais difícil e desafiadora de produzir conhecimentos científicos  para um público mais amplo.

    O jardim não é feito só de flores. O mar tem também suas ressacas. Já sabemos. Senti isso quando abri a boca com uma pranchada e precisei recorrer ao hospital público local. Por mais que, no final, tudo tenha dado certo, senti pavor ao imaginar qual poderia ser o resultado da costura da boca de uma mulher negra de boné, short e biquíni (ou seja, criada para servir, não ser servida) em uma cidade no interior da Bahia.

    Todas essas experiências me ensinaram que, por mais que a chave do exotismo permaneça na imagem de “cidadãs wakandenses”, ela também guarda um avanço considerável. Em vez das rotineiras situações de sexualização, as pessoas permitiram-se ter dúvidas a respeito do que a identidade “mulher negra” pode representar. E o fato de terem ido esclarecê-las diretamente com os “objetos” fez com que nossa “diferença” fosse apropriada de formas que contribuíram para reeducação das relações raciais e de gênero no Brasil. De boca aberta, decididamente #itacaréforever!

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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