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Coluna

Quando é necessário negociar e 'bregar': desafios para 2020

    Há sempre espaço para negociar e buscar um lugar melhor mesmo em situação de desvantagem política, social, econômica e cultural

    Uma foto que está, faz tempo, pendurada na parede, colada num álbum ou perdida num arquivo, é, em geral, percebida como uma ilustração: uma prova do passado. Por isso mesmo, costumamos pensar que são retratos fiéis daquilo que efetivamente “teria” acontecido. No entanto, muitas vezes, uma imagem não apenas devolve o que ocorreu. Inventa o que se quer que ocorra. Elas correspondem, pois, a “formas de imaginar críveis”, no sentido que só fazem sentido se confirmarem algo que “poderia ter acontecido”, mas nem sempre “aconteceu”.

    Ou seja, fotógrafos do passado e do presente jamais deixam de incluir nos documentos que produzem suas próprias perspectivas, interpretações e objetivos. É certo que seguem certos padrões. No entanto, jamais escondem suas “intenções”. Elas funcionam, portanto, como “padrões de intenção”, tomando emprestado a expressão do famoso crítico visual, Michael Baxandall.

    Exemplos podem ser retirados de um conjunto de ilustrações ou, por vezes, em uma só imagem que condensa vários “padrões de intenção”: esconde ao mesmo tempo que expõe padrões de hierarquia e formas de violência física e simbólica. Esse é o caso das fotos feitas em estúdio ou ao ar livre, e que trazem senhores ladeados por seus escravizados.

    Senhores e senhoras sendo transportados por escravizados em suas “seges” ou “cadeirinhas” – como eram chamadas à época – faziam parte do cenário urbano do Rio de Janeiro escravista. Tema cativo, e de predileção, dos artistas-viajantes que vieram ao Brasil no 1800 (e se impressionaram com esse “espetáculo” odioso de uma pessoa que carrega a outra), a tópica foi traduzida para o universo dos fotógrafos, que, ao ar livre, ou dentro dos estúdios, procuraram eternizar esse tipo de cenário que performava, de forma sintética, a hierarquia existente num sistema escravocrata.

    Escravizados estavam sempre descalços, e muitas vezes mal ou pouco vestidos, enquanto seus senhores e senhoras caracterizavam-se pelo excesso de roupas e os sapatos que traziam em seus pés. Enquanto proprietários davam-se pouco a ver – muitas vezes cobertos por cortinados de onde só se desnudava parte de seus corpos; escravizados encontravam-se sempre muito expostos. Existiam também jogos corporais marcados: se o “mestre” encontrava-se sempre ereto e altivo, escravizados precisavam mostrar-se recurvados em sinal de respeito.

    Esses são, pois, “padrões” compactuados, e que permitem uma mesma leitura e “intenção”. Eles escondem um universo de associações, convenções e decorrências. O mundo que a escravidão criou carregava uma linguagem autoritária e de posições marcadas e rígidas; ao menos na representação. Afinal, enquanto o sistema existiu no Brasil, multiplicaram-se as formas de revolta escrava sob a forma de rebeliões individuais e coletivas, insurreições, quilombos, fugas, assassinatos, envenenamentos, abortos. No entanto, nas imagens oficiais a mensagem deveria ser outra, apresentando uma sociedade ordenada, dividida mas pacífica.

    Brega é um belo conceito criado por Arcadio Quinonez Diaz para definir como, mesmo numa situação de desvantagem política, social, econômica e cultural, há espaço para negociar e buscar um lugar melhor

    E é nessa circunstância que reside a originalidade dessa foto. Trata-se de um Albúmen, datado de 1860, cujas lentes se abriam e se fechavam muito lentamente. Portanto, nesse intervalo do clique da máquina, muita coisa poderia acontecer, com os “modelos” não se comportando conforme as designações do fotógrafo ou de seu produtor, e negando as orientações a eles transmitidas.

    A foto é tirada num estúdio, aparecendo no segundo plano um painel pouco escondido, onde se vê o que deve ter sido o cenário montado para uma outra fotografia. Trata-se, pois, de uma cena posada em um fundo artificial. Ao centro, e no lugar onde convergem as luzes – e, portanto, a atenção –, está uma mulher, da “família Costa Carvalho”. Com uma pose altiva e senhorial, ela devolve a imaginação do fotógrafo: linda, muito bem vestida, cheia de adornos que denotam prosperidade, ela não tem, entretanto, nome próprio. É como se o sobrenome de seu marido, e a riqueza que ele carrega, fossem suficientes para caracterizá-la.

    Já nas laterais, figuram dois cativos vestidos como pajens – terno completo, chapéu elegante, mas pés descalços para deixar clara a condição. No entanto, as atitudes de ambos diante do fotógrafo (e da sociedade) não poderiam ser mais opostas. O escravizado localizado à esquerda da sege, há de ter “obedecido” as orientações recebidas previamente. Respeitoso, ele traz o chapéu em uma das mãos, reclina seu corpo e olha para baixo. Tudo nele é submisso e servil. Por sua vez, o escravizado da direita, comporta-se de maneira em tudo contrária: seu amplo chapéu continua postado em sua cabeça, seu corpo esguio apresenta-se muito ereto, ele se apoia na “cadeirinha” (ao invés de carregá-la nos ombros), coloca as mãos na cintura e encara o fotógrafo de maneira nada submissa. Aliás, ele se revela relaxado e irreverente. Mais do que isso, ele mostra, com sua atitude, como até mesmo numa cena de posições delimitadas e rígidas, escravizados conseguiam negociar e agenciar sua condição, de forma a assim sublinhar o autoritarismo do cenário montado. Usavam dos poucos recursos que tinham para denunciar como não eram “objetos passivos” na cena.

    Há, portanto, nesses documentos visuais, um jogo de ver e de não ver; uma maneira sinuosa de restituir regimes de visão que dialogam de perto com o contexto em que se inserem. Mas há mais: uma inesperada forma de agenciar o lugar social e de não se acomodar. E, se conseguimos notar a diferença e a singularidade dessa foto, é justamente porque o modelo da direita subverteu o que é um “padrão de intenção”.

    É possível afirmar também que ele “foi para a brega”. Brega é um belo conceito criado por Arcadio Quinonez Diaz para definir como, mesmo numa situação de desvantagem política, social, econômica e cultural, há espaço para negociar e buscar um lugar melhor, mesmo que seja “capturando” os olhares que continuam a observar essa foto, entendendo e não entendendo – apenas imaginando –, o que lá acontece.

    No Brasil de 2019, esse ano que já vai acabando sem deixar muitas saudades, fomos obrigados a “bregar” muito, e me parece que continuaremos assim: “sempre na brega”. O homem à direita na foto pode continuar anônimo para nós, um século e meio depois. Mas o certo é que ele, literalmente, “roubou a cena”.

    P.S.: Um feliz 2020 para vocês!

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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