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Coluna

Precisamos parar de desejar força para mulheres negras

    Desejar ‘força’ para quem está no olho do furacão é parte da história brasileira de naturalização das desigualdades e de não divisão das responsabilidades de violências estruturais

    A coluna desta semana é inspirada em uma mistura de sentimentos evocados pelo veto do presidente da República, Jair Bolsonaro, à campanha publicitária do Banco do Brasil, pela prisão de Rennan da Penha, acusado de “associação ao tráfico”, assim como pela repercussão da utilização das imagens de Marielle Franco em um desfile de moda. Entra na minha lista também o anúncio de autoexílio de Camila Mantovani da Silva. Ativista da Frente Evangélica pela legalização do aborto, a jovem de 26 anos anunciou a decisão de sair do país por medida de segurança diante das ameaças e perseguições a si e sua família. Aparentemente díspares, se pararmos para pensar, os assuntos possuem o mesmo “radical”, “raiz do problema”, se quisermos usar o conceito feminista de Angela Davis: o silenciamento e a desapropriação dos direitos de pessoas negras — em especial mulheres — à propriedade intelectual e material.

    Nesse debate, a enunciação do lugar de fala da autora deste texto — uma acadêmica confinada no 0,4% da comunidade científica brasileira — é importante. Por meio dessa enunciação, relembro as formas pelas quais o racismo e o machismo se impõem nas nossas vidas. Por exemplo, dificilmente vocês verão intelectuais negras sendo perguntadas sobre suas referências de leitura. Tanto a imprensa quanto os comitês científicos estão mais preocupados em nos fazer narrar experiências de racismo e ouvir sobre nossas soluções mirabolantes para perversidades que não criamos.

    Daí que para fazer este texto, decidi eu mesma me perguntar sobre referências e inspirações. Para responder, revistei as memórias da infância e adolescência, no bairro do Méier, subúrbio carioca, onde passei mais da metade da vida. Na esquina do meu prédio, tinha um jornaleiro. Aos domingos, costumava ir até a banca para ler jornais e revistas. Seu Manoel, um português de 70 anos, estimulava minhas visitas. Menos por perceber meu amor pelo mundo das letras do que para esbarrar nas coxas e braços de uma menina em corpo de mulher. Uma criança preta que chegava sozinha ao seu estabelecimento comercial para sentar e ler. Sabendo que havia algo de “errado” naquela situação, preferia ficar quieta quando retornava à casa. Assim como a maior parte das famílias negras, a minha, que buscava dignidade e respeito em um bairro de classe média baixa, era avessa à qualquer discussão sobre racismo. Diante de gerações aprimorando o silêncio como ferramenta de linguagem e resistência, tinha eu: uma menina que não queria perder o direito, a duras penas conquistado, de sair de casa para ler.

    Foi assim, conjugando violência sexual com a liberdade embutida na leitura, que se iniciou o processo de autoconstrução do que bell hooks chama “intelectual negra insurgente”. Em um país governado pela extrema-direita, que defende a ideia de que “a universidade deve ficar reservada para elite intelectual” e no qual homens brancos ganham 63% a mais que mulheres negras, precisamos nos perguntar: como os processos de formação de leitores e intelectuais são determinados por experiências de raça, classe, gênero, sexualidade?

     Em um momento no qual conceitos de alta relevância como “lugar de fala” e “empoderamento” — bancados por pensadoras negras — ganham a academia, as redes e as ruas, desejar força é se eximir do compromisso de lidar com o “radical”

    Ainda puxando os fios da memória, relembro que, já na universidade, tomei contato com o trabalho de colunistas como Lya Luft e Martha Medeiros. Rapidamente, a menina que sempre amou a escrita poética e literária tornou-se fã das duas. Ainda que a palavra “feminismo” fosse nova, sentia-me atraída pelo fato de ver mulheres escrevendo em impressos tudo que lhes desse na telha. Amores, dores, viagens, relacionamentos, literatura. Sonhos, projetos de mundo. “Que foda! Quero fazer isso um dia”, pensava.

    “As palavras têm poder”, já dizia o candomblé bem antes de o filósofo se tornar Foucault vírgula Michel. Tanto poder, que décadas depois me torno colunista de um jornal — risos. E aí quando penso que chegou a vez, minha escrita fica confinada à “O que mais vai acontecer hoje?” Para responder à pergunta de Lya Luft, tome estatísticas, mapas de violência, listas extensas de pessoas mortas, prisões arbitrárias, cortes de verba na educação, saúde e por aí vai.

    Tudo isso conduz à reflexão sobre o contexto de produção de minha identidade de colunista, na qual se insere um ritual que repito diariamente. Ler os cinco primeiros comentários a postagens de mulheres negras sobre denúncias de situações de racismo. Todos eles trazem, invariavelmente, a palavra “força”. Chegamos aqui ao ponto principal do texto.

    Desejar “força” para quem está no olho do furacão é parte da história brasileira de naturalização das desigualdades e de não divisão das responsabilidades de violências estruturais. Em um momento no qual conceitos de alta relevância como “lugar de fala” e “empoderamento” — bancados por pensadoras negras — ganham a academia, as redes e as ruas, desejar força é se eximir do compromisso de lidar com o “radical”. É se manter na zona de conforto, fazendo vista grossa a problemas que não cabem em caracteres.

    E se em vez de desejar força para a jornalista Anielle Franco, subsidiássemos uma política de direito autoral na qual a imagem de sua irmã Marielle Franco fosse reconhecida e respeitada como patrimônio de uma família negra, pobre e favelada? E se antes dos votos de força, perguntássemos a Camila Mantovoni do que ela realmente precisa? Uma mulher que está arrumando as malas para deixar o Brasil porque como evangélica defende que mulheres tenham direito de decidir o que fazer com seus corpos quer se manter viva. De preferência em seu país.

    Considerando o nível de vulnerabilidade dos homens negros no Brasil, me vem à mente Rennan da Penha. DJ funkeiro que distribui kits escolares para crianças no Complexo da Penha. Uma favela deflagrada, localizada no mesmo Brasil em que  71 das 100 pessoas assassinadas são negras e no qual Carolina Maria de Jesus escreveu “Quarto de despejo: diário de uma favelada” com papéis que catava do lixo. Em vez de força, a imagem de Rennan —um jovem negro de 25 anos, bonito, feliz, bem-sucedido — deixa aquela vontade de dançar no sistema, dizendo lá no Planalto: “Vai pra gaiola, vai”.

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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