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Coluna

Por que protestamos pela educação?

    Mobilização contra cortes de recursos para universidades é maior do que movimento por melhores escolas na educação básica

    Os protestos que aconteceram nesta quarta-feira (15) pelo Brasil afora são uma novidade na vida política nacional. Não porque protestos sejam uma novidade. Durante a ditadura tivemos muitos, depois houve Diretas Já, impeachment de Collor, protestos de 2013 e protestos a favor e contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Mas, em geral, o brasileiro não protesta pela educação.

    Desse ponto de vista, os protestos a favor da educação e da ciência são uma ótima novidade na política nacional. Mas se pararmos para pensar, é surpreendente que não haja mais protestos pela educação dado nosso atraso histórico nessa área.

    Não é de hoje que nossos indicadores educacionais são ruins, mesmo comparando com o resto da América Latina. Em 1950, a população argentina e chilena com mais de 15 anos tinha quase cinco anos de escolaridade, enquanto no Brasil tínhamos uma média de dois anos. Nos 30 anos, seguintes essa média subiu para 7,3 na Argentina e 6,95 no Chile, enquanto no Brasil ganhamos aproximadamente um ano de escolaridade média entre 1950 e 1980 de acordo com os dados do Barro e Lee.

    Após a democratização melhoramos e hoje nossa população tem quase oito anos de escolaridade, ainda abaixo dos 9,5 da Argentina ou 9,78 do Chile. Porém, apesar de termos mais crianças na escola, temos muitas crianças alfabetizadas tardiamente, uma taxa de repetência enorme, um abandono no ensino médio altíssimo e aprendizagem na sala de aula extremamente deficiente.

    Por que a população não sai pra rua demandando mais recursos para educação, mais escolas e professores, melhor qualidade do ensino? Acho que há três diferentes explicações. 

    A primeira é que as pessoas não sabem quanto é o gasto educacional e quão ruim é a qualidade da educação. Os cortes feitos pelo governo de Jair Bolsonaro colocaram essa informação em evidência e, sabendo que a educação receberá menos recursos, as pessoas foram protestar. Mas esse não parece ser um fator de primeira ordem para explicar os protestos.

    Não devemos alocar recursos somente para os grupos que gritam mais alto

    Desde 2005 o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) divulga indicadores de qualidade escolar a cada dois anos para municípios, estados e para o Brasil. Nenhuma dessas divulgações levou a grandes protestos, mesmo quando os resultados parecem medíocres. O resultado do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos, na sigla em inglês), que permite comparações com outros países, também é divulgado de forma sistemática e não leva muita gente pra rua cada vez que aparece que o Brasil está muito longe da Finlândia.

    Uma segunda explicação é que recursos para a educação universitária geram maior pressão do que educação básica. Não por serem mais importantes ou porque as pessoas conhecem mais seus valores e qualidade, mas porque o problema de ação coletiva de sair para protestar é mais fácil de ser resolvido.

    Enquanto estudantes universitários e professores são diretamente afetados pelos cortes e têm alta capacidade de mobilização, alunos de escolas básicas, principalmente crianças de ensino fundamental, têm pouca capacidade de mobilização por sua alfabetização. Claro que seus pais poderiam protestar por eles, mas essa não é a maior demanda da população adulta num contexto em que emprego e renda são fundamentais e os retornos a uma educação de qualidade só serão sentidos no futuro.

    Uma terceira explicação é que protestos acontecem quando expectativas são frustradas. De forma similar ao que aconteceu em 2013, o crescimento do investimento em educação universitária durante os anos PT no Brasil foi enorme e políticas como cotas, Prouni e Fies geraram grandes promessas para uma nova geração de jovens que antes não tinham acesso à universidade.

    As políticas do governo Bolsonaro vão contra essas promessas e geram grandes frustrações que levariam as pessoas pra rua. Os professores Francesco Passarelli e Guido Tabellini mostram esse efeito no trabalho "Emotions and Political Arrest" publicado em 2017 no Journal of Political Economy. Eles mostram que a sensação de ser tratado de forma injusta pelo governo pode gerar protestos e que grupos que protestam recebem mais recursos do governo.

    Os cortes de recursos para universidades federais e agências de pesquisa científica, e sua arbitrariedade, certamente farão muito mal ao Brasil. Mas não devemos alocar recursos somente para os grupos que gritam mais alto. Mesmo sem termos crianças de 7 anos na rua reclamando que não estão sendo alfabetizadas precisamos melhorar a qualidade da educação básica.

     

    Claudio Ferraz é professor da Cátedra Itaú-Unibanco do Departamento de Economia da PUC-Rio e diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade  Stanford e no MIT. Sua pesquisa inclui estudos sobre as causas e consequências da corrupção e a avaliação de impacto de políticas públicas.

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