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Coluna

Por que os populistas são tão afeitos ao esporte?

    Conquistas esportivas podem ter um efeito positivo sobre a identidade nacional dos países. E a construção dessa identidade (em particular, de quem está fora dela) é fundamental para o populismo

    O recente êxito futebolístico do Flamengo não passou despercebido pelo presidente Jair Bolsonaro ou pelo governador Wilson Witzel. Não sendo esse interesse necessariamente devido às preferências clubísticas de ambos, fica a pergunta: por que tamanha paixão tão repentina?

    Sob certo aspecto, a resposta parece óbvia: políticos procuram se associar a causas ou movimentos que são populares, na esperança de converter tal associação em votos. Dito de outro modo, é uma motivação semelhante à dos meios de comunicação que dão mais espaço na programação aos times de maior torcida.

    Não é preciso muita reflexão para concluirmos que essa é uma resposta incompleta. Primeiro, ela elide o fato de que, por mais torcedores que tenha o Flamengo, muitos há que não o são. Dado que muitos flamenguistas não apreciam os políticos em questão, e supondo que o “rubro-negrismo” de ocasião desperte grande antipatia nos torcedores rivais, é natural concluir que a aritmética não é favorável a essa estratégia.

    Mas o fato é que Bolsonaro e Witzel estão muito longe de serem originais ou únicos na tentativa de fazer uso político de eventos ou façanhas desportivas. Como para demonstrar que tal impulso cobre todo o espectro de decência e humanidade possível no âmbito das lideranças políticas, tanto Nelson Mandela, em um extremo, como Adolf Hitler, no outro, o exemplificam. Tampouco é preciso sair do contexto brasileiro ou sul-americano para encontrar casos semelhantes.

    É forçoso concluir, portanto, que a estratégia deve fazer algum sentido. Afinal de contas, parece altamente improvável que tantos políticos, de tão distintos matizes ideológicos, estejam todos equivocados a esse respeito.

    Se o esporte (e o futebol em particular) é uma espetacular ferramenta de construção de identidade, é natural que o populismo queira utilizá-la com essa finalidade

    A resposta, a meu ver, passa pelo fato de que o esporte é um poderosíssimo instrumento de expressão e formação de identidades cívicas. Tal poderio é particularmente vívido no caso do futebol, e em especial das seleções nacionais. Muitos exemplos sublinham a ideia de que conquistas futebolísticas podem aumentar o orgulho nacional e, dessa forma, inclusive ajudar a reparar divisões internas: a França de 1998 (ou 2018) ou a Alemanha de 2014 celebrando equipes multirraciais, ou a Espanha de 2010 reunindo catalães e castelhanos, são apenas alguns casos recentes e proeminentes.

    Mas seriam esses, de fato, exemplos reais de tal efeito? Por um lado, parece possível que essas narrativas sejam apenas isso: narrativas, do tipo que a mídia tanto preza, mas sem contrapartida de fato no comportamento ou nas atitudes dos cidadãos. De outra parte, também é perfeitamente possível que o sucesso esportivo seja, em alguma medida, o resultado, e não a causa, de um enfraquecimento nas divisões internas de uma sociedade: talvez a evolução social que permitiu a incorporação de descendentes de imigrantes às seleções francesa ou alemã tenha sido fator determinante em ampliar o talento disponível dentro de campo.

    Em um artigo a ser publicado na American Economic Review, eu e meus coautores, Ruben Durante e Emilio Depetris-Chauvin, mostramos evidência de que conquistas de seleções de futebol podem de fato ter um efeito positivo sobre a identidade nacional. Olhando para o contexto da África Subsaariana, no qual a questão das divisões étnicas é extremamente saliente, nós mostramos que cidadãos entrevistados após uma vitória da sua seleção têm probabilidade consideravelmente maior de dizerem-se mais identificados com seu país do que com seu grupo étnico. Mais ainda, eles também demonstram uma maior propensão a confiar em seus compatriotas de outras etnias.

    Também mostramos que as conquistas esportivas têm consequências concretas. Quando a seleção de um país consegue uma classificação inesperada para uma competição importante, como a Copa do Mundo ou a Copa Africana de Nações, observa-se uma redução na ocorrência de conflitos étnicos, em comparação com países que quase lograram se classificar, mas não conseguiram ao final. Dito de outro modo: o famoso exemplo da Costa do Marfim de Didier Drogba não parece ter sido casual ou único.

    O que explica tal efeito? É exatamente quando o grupo de jogadores da seleção é mais etnicamente diverso, que o impacto do sucesso é mais substancial. Isso sugere que ao menos parte do mecanismo passa por ilustrar a possibilidade de êxito com base na cooperação entre grupos distintos de concidadãos. Em outras palavras, a seleção ilustra e traz ao plano concreto a ideia de uma nação trabalhando por um objetivo comum. A experiência de triunfo, vivida coletivamente, demarca a nação enquanto comunidade imaginada (nas palavras de Benedict Anderson).

    Mas o que isso nos diz a respeito do Brasil? Notemos primeiramente que, dentre os políticos mais afeitos ao uso estratégico das experiências coletivas geradas pelo esporte, destaca-se a presença desproporcional de um matiz distintamente populista. Sem necessariamente entrar em uma discussão sobre se o termo “populismo” tem conotação pejorativa, parece-me incontroverso que Fernando Henrique Cardoso não se enquadrava na categoria. Em que pesem as acrobacias de Vampeta, também me parece óbvio que FHC era menos afeito ao uso político do futebol do que outros presidente recentes.

    Não creio que seja coincidência. É central a qualquer tipo de populismo a demarcação de um “povo”, e é portanto fundamental estabelecer e fortalecer uma identidade. Os piores exemplos, claro, são aqueles mais excludentes, nos quais um subconjunto da população pertence ao “povo” enquanto os demais são vilipendiados – os “maus brasileiros” ou as minorias que têm de se submeter ao desejo da maioria, sem reclamar – mas o impulso de delimitar um subconjunto, em maior ou menor detrimento de outro, é essencial. Se o esporte (e o futebol em particular) é uma espetacular ferramenta de construção de identidade, é natural que o populismo queira utilizá-la com essa finalidade.

    Temos, portanto, de resistir às tentativas de apropriação de símbolos esportivos por uma corrente política. A seleção – o Flamengo, o Corinthians ou o Íbis – é patrimônio de todos nós, e nos representa a todos. Sejamos nisso tão inclusivos quanto a “nação arco-íris” de Mandela, e mantenhamos a máxima distância das visões excludentes, como o ideal ariano de Hitler.

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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