Coluna

Por que mais armas geram mais violência?

    Pesquisas nos Estados Unidos feitas ao longo do tempo dão indícios sólidos de que posse e porte de armamentos não reduzem furtos, roubos ou homicídios. Flexibilização no Brasil pode ser ainda mais danosa

    Entre 1980 e 2016 os homicídios cresceram assustadoramente no Brasil. Nesse período mais um milhão de brasileiros foram assassinados e a maioria morreu vítima de uma arma de fogo. Dada a incapacidade do Estado de proteger seus cidadãos, muitos acreditam que a solução para a epidemia de violência vivida pelo Brasil seja a descentralização e privatização da defesa pessoal. O argumento é que ao facilitar a posse de armas dos indivíduos e estabelecimentos comerciais, bandidos serão dissuadidos de roubar e matar, e com isso diminuiremos a criminalidade e violência prevalecente. Esse é o argumento central do livro "More Guns, Less Crime" publicado por John Lott em 1998 nos EUA e defendido no Brasil pelo presidente Bolsonaro e muitos de seus seguidores.

    Mas o que sabemos sobre a possível efetividade do aumento de posse e porte de armas sobre a criminalidade e violência? Para responder a essa pergunta precisamos ir além dos achismos e utilizar a evidência empírica de forma sistemática. Temos que comparar o que aconteceu em locais que mudaram sua política de posse e porte de armas com lugares similares, que não modificaram sua política. Nos EUA essas mudanças já aconteceram no passado e permitem uma comparação entre estados que adotam políticas diferentes ao longo do tempo.

    Em estudo publicado em 2013, Cheng Cheng e Mark Hoekstra utilizam mudanças nas leis de estados americanos que expandem a justificativa para o uso de força letal para a defesa de propriedade, as chamadas leis “stand-your-ground” . Essas leis foram inicialmente aprovadas para permitir que indivíduos defendessem suas casas contra potenciais invasores, mas a partir de 2005 diversos estados americanos passaram leis que expandiram o domínio de defesa para outros locais como veículos próprios e locais de trabalho. Os autores comparam o que acontece com furtos, roubos e homicídios em estados que aprovaram as novas leis comparados com estados que não passaram essas leis. Eles encontram que a flexibilização de defesa com arma não reduz furtos e roubos, mas aumenta homicídios em 8%.

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    Claudio Ferraz é professor da Vancouver School of Economics, na University of British Columbia, Canadá, e do Departamento de Economia da PUC-Rio. Ele é diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade de Stanford e no MIT.

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