Coluna

Os sonhos assassinados da família de Agatha

    O que pode acontecer mesmo quando fazemos tudo certo e as políticas para 'os filhos dos outros'

    Passados mais de oito dias do assassinato de Agatha Felix, ainda está na minha cabeça o desabafo do avô, Aílton Felix, cuja fala eu gostaria de analisar cuidadosamente: "Não foi o filho dele, nem a filha dele, não, foi a filha de um trabalhador. Ela fala inglês, tem aula de balé, tem aula de tudo, era estudiosa. Ela não vivia na rua, não. Agora vem o policial aí e atira em qualquer um que está na rua. Acertou minha neta. Perdi minha neta. Não era para perder ela, nem ninguém".

    A fala do senhor Aílton Felix descreve muito bem as estratégias de famílias negras e pobres das comunidades, onde vivem no meio do fogo cruzado. Diferentemente do que famílias de classes privilegiadas possam imaginar, as “favelas” não são conglomerados de meninos e meninas “perdidas”, que vagam pelas ruas, não estudam, não recebem o cuidado e a atenção das suas famílias e que, de uma forma ou de outra, não terão serventia alguma para a sociedade.

    Desde sempre, pessoas negras e pobres entenderam que a educação seria o caminho para a vida mais digna dos seus filhos e filhas. A falta de herança e de parentes influentes, o fato de não fazerem parte de uma poderosa rede de relações que podem, com um telefonema, garantir empregos bem remunerados, fez com que pais e mães pobres, assim como tias, vizinhas e avós, repetissem, geração após geração, que estudar é fundamental para “ser alguém na vida”.

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    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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