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Coluna

Os sonhos assassinados da família de Agatha

30 de set de 2019

    O que pode acontecer mesmo quando fazemos tudo certo e as políticas para 'os filhos dos outros'

    Passados mais de oito dias do assassinato de Agatha Felix, ainda está na minha cabeça o desabafo do avô, Aílton Felix, cuja fala eu gostaria de analisar cuidadosamente: "Não foi o filho dele, nem a filha dele, não, foi a filha de um trabalhador. Ela fala inglês, tem aula de balé, tem aula de tudo, era estudiosa. Ela não vivia na rua, não. Agora vem o policial aí e atira em qualquer um que está na rua. Acertou minha neta. Perdi minha neta. Não era para perder ela, nem ninguém".

    A fala do senhor Aílton Felix descreve muito bem as estratégias de famílias negras e pobres das comunidades, onde vivem no meio do fogo cruzado. Diferentemente do que famílias de classes privilegiadas possam imaginar, as “favelas” não são conglomerados de meninos e meninas “perdidas”, que vagam pelas ruas, não estudam, não recebem o cuidado e a atenção das suas famílias e que, de uma forma ou de outra, não terão serventia alguma para a sociedade.

    Desde sempre, pessoas negras e pobres entenderam que a educação seria o caminho para a vida mais digna dos seus filhos e filhas. A falta de herança e de parentes influentes, o fato de não fazerem parte de uma poderosa rede de relações que podem, com um telefonema, garantir empregos bem remunerados, fez com que pais e mães pobres, assim como tias, vizinhas e avós, repetissem, geração após geração, que estudar é fundamental para “ser alguém na vida”.

    Ainda no século 19, algumas famílias negras ou indivíduos negros conseguiram acessar educação por entenderem que somente o acesso à instrução lhes garantiria autonomia, sobrevivência e respeitabilidade numa sociedade escravista.

    Assim fez Antônio Pereira Rebouças, conselheiro do Império, quando, ainda na primeira metade do século 19, financiou os estudos dos seus filhos, André e Antônio, na Europa. Luiz Gama tornou-se um grande intelectual negro pelo seu brilhantismo no direito e Teodoro Sampaio, o único da sua família a receber instrução, tornou-se engenheiro por meio do investimento educacional feito pela família que lhe apadrinhou, a mesma que havia sido proprietária dele mesmo e da sua família.

    Nos Estados Unidos não foi diferente. Foi por meio das letras que Frederick Douglass tornou-se o abolicionista mais importante daquele país. Douglass perseguiu o sonho de aprender a ler e escrever ainda como escravizado, o que fez secretamente, brincando ainda menino com crianças brancas alfabetizadas. Douglass encorajava que a comunidade afro-americana estudasse , pois acreditava que o caminho para a liberdade inevitavelmente passava pela educação.

    Vale lembrar que até o século 19 a educação era via de mobilidade, em geral, para os homens.

    Já no século 20, em 1960, Lucile Bridges, mãe de Ruby Bridges, fez com que sua filha, aos 6 anos de idade, desafiasse o sistema segregacionista do estado da Louisiana. A família ganhou na justiça o direito de que Ruby estudasse na melhor escola da região, que era uma escola branca e segregada. Conhecemos bem a fotografia de Ruby Bridges, pequenina, acompanhada por três agentes federais no seu primeiro dia de aula, marcado por protestos e xingamentos proferidos por pessoas contrárias ao acesso de negros a espaços até então reservados a pessoas brancas. Recentemente, Ruby Bridges descreveu aquele dia. Ela esperava que sua mãe a acompanhasse dentro da escola, mas a autorização era somente para a pequena estudante. Perguntada anos mais tarde, se, mesmo em nome da luta pelo fim da segregação racial nas escolas, Ruby deixaria sua filha de seis anos entrar numa escola branca sozinha, a ativista vacilou na resposta.

    Trago esses exemplos para afirmar que famílias negras, pobres, trabalhadoras, sempre entenderam as regras do jogo, ou seja, que educação é poder. A fala do avô de Agatha revela o projeto de uma família que buscava o caminho da mobilidade social por meio da educação da menina que falava inglês, gostava de xadrez e de dança, e que não se conformava em tirar notas baixas na escola. Ainda que morando numa comunidade pobre, os sonhos da família não tinham limites, contrariando tudo aquilo que parte da sociedade acredita que seja o cotidiano, prioridades e modo de viver das pessoas pobres.

    A família de Agatha, com quem ela estava constantemente, tinha total participação no seu cotidiano. Conheço bem essa realidade, pois essa é a vida do meu filho, sobrinhas, sobrinhos, pessoas conhecidas e que tramam estratégias de proteger a vida e o futuro dos seus filhos e filhas. Agatha, assim como muitas crianças que conheço, tinha suas conquistas e sucessos infantis celebrados pelas pessoas da sua comunidade e era motivo de orgulho e esperança das pessoas que lhe amavam. “Tinha um simulado que ela fez nessa semana e tirou 7! Essas eram as armas que a Agatha gostava de usar. Ela tinha um futuro, ia crescer e entrar na faculdade. Mas o Estado não quer isso. E se continuar dessa forma, o que vai acontecer?” (Aílton Felix, avô de Agatha).

    O que o senhor Felix fez foi afirmar a humanidade, dignidade e respeitabilidade da história da sua neta

    Se o caminho natural da prole das classes dominantes é ter “o anel de doutor no dedo”, como diria a minha avó, os filhos e filhas dos pobres querem viver e ter anel no dedo também. E nos últimos anos esse sonho tem se tornado possível por causa de políticas públicas que permitiram aos jovens negros e pobres entrar e se manter na universidade. Um exemplo concreto disso circulou na internet na semana passada, a fotografia da primeira turma de medicina da minha universidade, a UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), composta de 41% de estudantes negros e negras.

    O que o avô de Agatha lamenta é o sonho interrompido. A menina sempre bonita e sorridente das fotos, cujo zelo e cuidado familiar se refletem em roupinhas coloridas, fantasia de mulher maravilha, no cartaz escrito em inglês na escola de idiomas que cursava, na boneca favorita que hoje acompanha sua mãe inconsolável, era a aposta de um projeto familiar e coletivo. Isso era, sim, possível e a família investia para tal. Agatha fazia parte de uma geração que poderia ser tudo: dançarina, engenheira, astronauta, professora, médica, qualquer coisa. Isso porque, como fica bem expresso na fala do patriarca da família Felix, a família esforçava-se para trazer para sua realidade todos os símbolos e capital cultural que justificam, sob o argumento da meritocracia, que um determinado setor da sociedade agregue, geração após geração, melhores condições de vida e trabalho. Escola particular, língua estrangeira, boletim impecável, acesso à produção cultural europeia (balé). Esse capital cultural é determinante para que algumas crianças tenham sua infância e humanidade reconhecidas e sejam chamadas de crianças, enquanto outras, que vivem em comunidades pobres como a que Agatha vivia sejam chamadas de “menor”. Assim, o desabafo do Sr. Aílton nos diz que a família Felix cumpriu seu papel, fez sua parte.

    Uma educação de má qualidade significa concentração de renda e de privilégios entre as famílias que ainda ocupam a maioria dos melhores cargos públicos, os melhores empregos e a maioria das vagas nas universidades brasileiras. Não por acaso, escolas e universidades públicas são alvo do desmonte promovido pela atual política de Estado, estrangulando assim, outros sonhos e projetos familiares similares aos da família Felix.

    De acordo com a antropóloga Angela Figueredo, a dita “classe média negra”, no Brasil, se forma ou se consolida após o acesso à escolaridade elevada e emprego público, fruto de um investimento familiar e de uma rede de apoio em torno da pessoa que está a caminho da mobilidade. Em 1988, ano do centenário da abolição, chegamos a um número absurdo de desigualdade educacional que demonstra como o acesso à educação pode ser uma máquina de desigualdade.  Entre os que ingressaram no ensino superior naquele ano, 82,9% eram pessoas brancas e 14,5% eram negras. Em 2017, portanto após as políticas de cotas, o número de negros e negras nas universidades aumentou significativamente, passando para 34%. Mesmo assim, esse percentual ainda revela uma grande desigualdade sobre quem tem acesso ao ensino superior.

    A família de Agatha, assim como outras famílias pobres, acreditava num futuro que podiam desafiar essas estatísticas e via na educação o caminho mais importante. O caminho para a escola e a escola em si, deve ser, literalmente, o caminho que leva para o sonho de um futuro digno, de uma vida melhor e confortável, não para a morte.

    Em 2017, Maria Eduarda, de 13 anos, foi baleada dentro da quadra da escola e morreu. A menina que era atleta e sonhava ser jogadora de vôlei, fazia parte de um projeto organizado por um professor, cujo objetivo era formar jovens profissionais do esporte. Durante o velório da menina, o professor treinador chegou a dizer “de que adiantou eu ajudar ela a sonhar?"

    Marcus Vinicius morreu com um tiro nas costas enquanto caminhava para a escola em 2018. Vestido com uniforme escolar, o menino, pouco antes de morrer, conseguiu dizer para a mãe: “ele não viu que eu estava com roupa da escola, mãe?” Marcus Vinicius se referia ao blindado de onde partiu o tiro que tirou sua vida. Para ele, o fardamento escolar era o atestado da sua inocência: ele era uma criança indo para a escola, não estava fazendo “nada errado”. A camisa da escola do filho manchada de sangue virou bandeira de luta da sua mãe.

    Em 2018, Maria Gabriela, de 11 anos, foi baleada no braço enquanto estava na quadra da escola. A menina que “tirava boas notas”, também vivia sob a constante vigilância da mãe, que afirmou que não deixava a filha sair sozinha “nem para comprar pão”.

    Três dias após a partida de Agatha, Vitória foi baleada também quando voltava da escola, mas poderia ser a caminho da padaria, enquanto brincava na porta de casa, ou até mesmo dentro de casa.

    É muito simbólico que essas crianças estejam sendo impedidas de realizar seus sonhos e de suas famílias a caminho ou voltando da escola. É como se essas crianças e essas famílias estivessem sendo punidas por serem pobres, por serem negras e por, inocentemente, acreditarem que tudo dará certo, se não fizerem “nada de errado”. Foi isso, resumidamente, que o avô de Agatha quis dizer quando afirmou “ela não vivia na rua, não”, como se “viver na rua”, ou “brincar na rua” fosse um indicativo de descuido ou negligência familiar que poderia justificar o ocorrido. Vale refletirmos sobre o que significa “não fazer nada errado”. Caso uma criança esteja, por exemplo, vagando pela rua à noite, apertando campainhas aleatoriamente (o que muitos de nós fizemos na infância) ou até mesmo cometendo pequenas infrações, a opinião pública não se solidarizaria? Essa criança merecia morrer? Essa família negligente seria a culpada por uma tragédia? Conhecendo a sociedade brasileira muito bem, o que o senhor Felix fez foi afirmar a humanidade, dignidade e respeitabilidade da história da sua neta.

    Nesse Brasil em que todos querem o melhor para seus filhos e filhas, e que nem todos têm filé mignon para oferecer à sua prole, as famílias trabalhadoras, negras e pobres, começam essa disputa em extrema desvantagem. Enquanto para alguns “o melhor” pode significar até mesmo uma embaixada, para outros “o melhor” significa o direito de ir e voltar da escola sem medo. Cada vez mais, o melhor, para o pobre, significa o mais básico direito de viver e um dia, quem sabe, ter a alegria de participar da cerimônia de formatura dos seus filhos, filhas, netas, sobrinhas, vizinhos. Às famílias das crianças que tragicamente já se foram, fica a saudade e o sentimento de que o Estado e a sociedade brasileira as traiu.

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo e também integra uma organização de mulheres chamada Rede de Mulheres Negras da Bahia. É graduada em história pela Universidade Federal da Bahia, mestre pela Unicamp, doutora em história pela USP e pós-doutora pela City University of New York. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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