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Coluna

O trabalho de economistas para um mundo melhor

    Prêmio Nobel de 2019 reconhece os avanços recentes de uma verdadeira revolução empírica e o ressurgimento da economia do desenvolvimento

    Em 1988, o professor Robert Lucas, ganhador do prêmio Nobel de Economia, publicou um artigo baseado em uma série de palestras ministradas na Universidade de Cambridge chamado  "On the Mechanics of Economic Development". No texto, ele descrevia os novos modelos de crescimento econômico existentes e chamava a atenção para a necessidade de entendermos não só por que alguns países crescem, mas principalmente por que alguns países deixam de crescer. No artigo Lucas se pergunta: "há alguma ação que o governo da Índia poderia fazer para que sua economia crescesse como a da Indonésia ou do Egito? Se sim, o que exatamente? Se não, o que na natureza da Índia faz com que isso seja verdade? As consequências para o bem estar humano envolvidas em perguntas como essas são simplesmente impressionantes. Uma vez que se começa a pensar nelas, é difícil pensar em qualquer outra coisa."

    Junto com o trabalho de Lucas veio uma enxurrada de modelos teóricos que buscavam explicar o crescimento econômico dos países baseados em inovação, retornos crescentes de escala e investimentos em capital humano, como os trabalhos de Paul Romer publicados em 1986 e 1990 – que lhe deram o prêmio Nobel algumas décadas depois. Mas as implicações de políticas advindas desses modelos não eram claras. Como é que os países poderiam gerar mais pesquisa e desenvolvimento? Como poderiam melhorar a qualidade da educação? Além disso, esses modelos ignoravam aspectos fundamentais que proliferam em países mais pobres como falhas de mercado, desigualdade e diferentes instituições.

    Mas um grupo de microeconomistas estava pensando ativamente nesses temas. Em 1993, Abhijit Banerjee, recém contratado pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), publicou o artigo "Occupational Choice and the Process of Development" com Andrew Newman. Eles mostravam que a interação entre imperfeições no mercado de crédito advindas de informação assimétrica e desigualdade de riqueza no nível micro poderiam afetar a renda agregada e o crescimento de países gerando divergências entre países no longo prazo. Diversos outros microeconomistas teóricos desenvolveram modelos enfatizando falhas de mercado, equilíbrios múltiplos e externalidades, resgatando muitas das ideias de Rosenstein-Rodan e Hirschman dos anos 1940 e 1950, como descrito por Debraj Ray em seu texto "What's new in development economics?". Entre eles estava Michael Kremer, que publicou, também em 1993, o trabalho "The O-Ring Theory of Economic Development", onde mostrava que as imperfeições no mercado de trabalho com trabalhadores heterogêneos e pareamentos imperfeitos no nível micro poderiam gerar complementaridades estratégicas e má alocação de fatores no nível macro. 

    A revolução dos experimentos adaptados para os países em desenvolvimento, os novos aprendizados com o trabalho de campo e a geração de novos dados abrem novas possibilidades de pesquisa para a área de desenvolvimento econômico

    Ao mesmo tempo em que novos modelos econômicos chamavam a atenção para a relação entre imperfeições em mercados e consequências macroeconômicas, novas bases de dados coletadas em países em desenvolvimento e novas formas de identificar empiricamente os efeitos de falhas de mercado geraram uma explosão de estudos empíricos. Mas grande parte desses trabalhos descrevia falhas de mercado, não avaliava políticas que poderiam resolvê-las. Outras áreas da economia aplicada passavam por uma revolução de credibilidade nos anos 1980 e 1990 com os trabalhos empíricos de Orley Ashenfelter, Joshua Angrist, David Card, Alan Krueger, que tinham como grande inovação metodologias que imitassem na vida real os experimentos de laboratório. É nesse contexto que surgem os primeiros experimentos com o objetivo de avaliar a efetividade de políticas específicas em países em desenvolvimento.

    Michael Kremer, que tinha tido experiências como professor no Quênia durante os anos 1980, iniciou em 1994 uma colaboração com a ONG holandesa Internationaal Christelijk Steunfonds e utilizou o método experimental escolhendo 25 escolas de uma lista de 100 elegíveis para receber livros didáticos – e publicando anos depois o trabalho "Textbooks and test scores: Evidence from a prospective evaluation in Kenya", em conjunto com Paul Glewwe e Sylvie Moulin. Em 1997, o governo do México começou a avaliação aleatorizada do Progresa, um programa de transferência de renda condicional similar ao Bolsa-Família, a primeira avaliação aleatorizada de um programa governamental em grande escala em um país em desenvolvimento em colaboração com acadêmicos como Paul Gertler e Paul Schultz. Em 1998, Ted Miguel junto com Michael Kremer começaram a avaliação experimental de um programa de redução de infecção com vermes de crianças em áreas rurais do Quênia com o objetivo de medir impactos sobre saúde e educação.

    Foi somente no começo dos anos 2000 que Abhijit Banerjee, até então um economista teórico, e Esther Duflo começam a sua linha de pesquisa utilizando experimentos na área de educação com trabalhos como “Promoting School Participation in Rural Rajasthan: Results from Some Prospective Trials” e “Remedying Education: Evidence from Two Randomized Experiments". Com a criação do centro de pesquisa Poverty Action Lab no MIT, em 2003, o uso de experimentos aleatorizados para a avaliação de políticas em países em desenvolvimento explodiu e se tornou comum tanto em conferências e publicações acadêmicas como em organismos internacionais como o Banco Mundial e o BID.

    O campo de desenvolvimento econômico, que no meio dos anos 1990 tinha sido declarado como praticamente morto por Paul Krugman, em seu famoso ensaio "Toward a Counter-Counterrevolution in Development Theory", renasce como uma das áreas mais ativas em economia aplicada nos anos 2000. A revolução dos experimentos adaptados para os países em desenvolvimento, os novos aprendizados com o trabalho de campo e a geração de novos dados abrem novas possibilidades de pesquisa para a área de desenvolvimento econômico. Além disso, surgem enormes complementaridades com organismos internacionais e governos para testar nova políticas e medir sua efetividade. O que começou com avaliações em educação e saúde, rapidamente transbordou para outras áreas como a avaliação de políticas de combate à corrupção, redução de criminalidade ou fomento ao empreendedorismo.

    Apesar de diversas limitações que possam existir na metodologia experimental com preocupações relacionadas a validade externa, aspectos éticos dos experimentos e a limitação do tipo de pergunta que eles podem responder, não há dúvida de que sabemos mais hoje sobre o que é eficaz para reduzir a mortalidade infantil, fazer com que crianças aprendam mais na escola e que políticas podem reduzir a corrupção do que há duas décadas. Por isso, o prêmio Nobel deste ano dado a Abhijit Banerjee, Esther Duflo, e Michael Kremer é um reconhecimento não só aos visionários que levaram os experimentos às regiões mais pobres do planeta, mas é também uma realização de que economistas podem trabalhar para fazer deste mundo um lugar melhor e mais justo.

    Claudio Ferraz é professor da Cátedra Itaú-Unibanco do Departamento de Economia da PUC-Rio e diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade  Stanford e no MIT. Sua pesquisa inclui estudos sobre as causas e consequências da corrupção e a avaliação de impacto de políticas públicas.

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