Ir direto ao conteúdo
Coluna

O sol e a sombra. Ou como inventar uma história pela metade

07 de out de 2019

    Apagar ou borrar determinados acontecimentos quando se narra uma história não é obra do acaso. O caso da Revolução do Haiti é exemplar

    A matéria-prima da história são os documentos, escritos e visuais, encontrados em arquivos públicos ou em coleções privadas, além da memória individual ou coletiva presente em livros e diversas fontes. Se há quem inclua outras fontes privilegiadas, o certo é que, independentemente da pesquisa, a profissão do historiador ficou logo associada ao ato de lembrar: lembrar de um evento, de uma data, de uma celebração, de um costume, de um nascimento ou de uma morte.

    E se essa é uma espécie de convenção que se gruda aos profissionais de história como se eles fossem talhados e tivessem o dom natural da memória, cada vez mais distinguimos essas duas operações. Ou seja, muitas vezes, história e memória andam às turras e não contradançam um belo “viveram felizes para sempre”.

    Isso porque ninguém apenas lembra; muitas vezes esquecemos de maneira proposital ou não. Muitas vezes, também, se conta uma história pela metade, omitindo-se elementos fundamentais dela.

    Seja lá como for, a história foi sempre uma narrativa privilegiada. Tanto que hoje ela anda muito em voga, empreendendo-se em torno dela verdadeiras batalhas de sentido. Batalhas não pela melhor narrativa, mas pela verdade que alcance e convença melhor o leitor que se quer agradar.

    Vivemos num momento de muito diversionismo e da produção de histórias que não se pautam em documentos ou fontes, pois preferem seguir uma conclusão prévia que prescinde de comprovação.

    Mas se esses são casos extremos, e que omitem, muitas vezes de maneira consciente, certos eventos para sublinhar outros, é possível dizer que existem exemplos de historiadores sérios e comprometidos que também costumam esquecer ou não dar a importância devida a certos acontecimentos que alteraram o curso da humanidade. E se esse tipo de lapso por vezes ocorre só no caso de apenas um profissional, chama atenção quando a amnésia é geral e consolidada.  

    Vamos a alguns poucos exemplos. Começo por uma lente de mais longo alcance. O historiador inglês Eric Hobsbawm (1917-2012) escreveu uma obra fundamental chamada “A era das revoluções”.  Nela apontou os eventos que teriam inaugurado a nossa modernidade ocidental: a Revolução Americana (de 1776), que mostrou ao mundo como uma colônia pode lutar por sua independência e virar uma nação autônoma; a Revolução Industrial (1760-c.1830) que provou como homens e mulheres não se encontravam presos a um estamento, à sua origem, pois uma nova sociedade de classes tornava possível ascender e declinar socialmente, e a Revolução Francesa de 1789, que demonstrou como ninguém, nem mesmo o soberano, está acima da lei dos homens.

    Mas faz falta nessa historiografia um terceiro evento ocorrido no mesmo período, mas no espaço afro-atlântico: a Revolução do Haiti (1791-1804). Foi ela que comprovou como escravizados e escravizadas não estavam condenados a permanecerem como tal e que, contrariamente, tinham a capacidade de tomar um Estado e assim conservá-lo. Fez mais: o movimento radicalizou o conceito de igualdade, estendendo-o para toda a humanidade, o que incluía africanos e africanas transportados para as colônias americanas e obrigados a um cotidiano sem qualquer tipo de direitos.

    E, se essa revolução não consta dos nossos compêndios de “história universal”, é preciso interrogar o silêncio e a omissão. O certo é que esse evento, no seu contexto e mesmo depois, circulou muito pelas Américas. O historiador Flavio Gomes mostra que no Brasil, um ano após a eclosão da insurreição, nos registros policiais aparece um escravizado que traz tatuado em seu braço o nome de Jean-Jacques Dessalines (1758-1806), líder haitiano que se rebelou contra as autoridades coloniais.

    Além do mais, proprietários brasileiros criaram um termo especial para designar essa revolução, que assassinou senhores e membros das elites locais: haitismo ou haitianismo. O medo pode ser sólido como uma rocha, e é facilmente apreensível o temor que sentiam os donos de cativos que viviam em regiões, do final do século 16 até meados do 19, de maioria escravizada.

    Por isso, a Revolução do Haiti não cabia na historiografia, que preferiu caracterizar o movimento como uma “barbárie” em meio à “civilização”. Revoluções são muitas vezes violentas; basta lembrar do exemplo da Revolução Francesa, que criou a guilhotina para promover matanças em massa. Guilhotina que se converteu também num símbolo da revolução e dividiu espaços com a divulgação das máximas filosóficas da liberdade, igualdade e fraternidade.

    Imaginar-se branco voltou a ser uma espécie de ideologia de certos grupos sociais que se enxergam como representantes de um legado europeu e civilizado aqui nos trópicos americanos

    A pergunta que não quer calar é: “história universal” para quem? Perguntar é uma forma de rebeldia, e me causa certo espanto a Revolução do Haiti passar para a história como uma espécie de “engano” ou uma “aberração violenta”, enquanto a Revolução Francesa segue sendo entendida como um farolete para a liberdade.

    Existem, pois, critérios internos, explícitos ou não, que produzem, nas palavras do historiador haitiano, Michel-Rolph Trouillot, o “unspeakable”; aquilo que não pode ser dito e é assim contornado. Implica pensar nas formas pelas quais a história se forma, e como se produzem silenciamentos, por meio da construção de fontes privilegiadas (e o esquecimento de outras) e da construção de narrativas, que incluem disputas sobre o exercício do poder e “do que aconteceu”, ou não, aconteceu no passado.   

    Mas não se trata de culpar alguém ou de apontar o dedo para esse ou aquele historiador. O certo é que novas perguntas levam sempre a outras respostas, assim como inauguram formas de ver. Estudos pós-coloniais realizaram, desde os anos 1970, uma verdadeira virada epistemológica ao questionarem narrativas por demais eurocêntricas, até então entendidas como modelos civilizatórios universais, evolutivos e obrigatórios. Interpelaram também várias áreas do conhecimento, como a crítica literária, as ciências sociais, a política, a filosofia, a história da arte, as práticas museológicas e atingiram igualmente a historiografia.

    Se olharmos para um passado não tão distante, veremos como até muito recentemente não existiam histórias que incluíssem líderes femininas (só ao lado e como companheiras de seus maridos), protagonistas negros e exemplos que não fossem tirados de uma história ocidental, prontamente chamada de universal. Essa é uma geopolítica do conhecimento, que trabalha com determinados casos particulares como se fossem da ordem do geral e do exemplar, sem atentar para eventos que fogem à regra por eles imposta.

    Por que será que nós brasileiros nos imaginamos sempre gregos, romanos, europeus e norte-americanos? Por que será que nossos compêndios ensinam história como se fosse bula de remédio de efeito prolongado? Por que descrevemos os povos africanos de maneira unívoca e os europeus a partir de seus diferentes países de origem? A resposta a essas perguntas está na nossa forma de narrar a história e de organizar o passado.

    Muitas vezes a história se parece com um rio de curso único, ao naturalizar e domesticar o passado de forma a evitar ambiguidades, contradições e ruídos que desmontariam a catedral que se pretende erigir. E por aqui, um dos temas mais passíveis de ambiguidades e contradições é a questão da escravidão, que alterou nossa sociedade e cria marcas profundas no tempo presente. Esse é o motivo de o assunto continuar incontornável.

    O tema tem sido muito visitado, aliás, por nosso atual chefe do Executivo e seu ministro da Educação, que vira e mexe tocam na questão com o objetivo de dizer que tivemos uma “boa escravidão”. Essa é uma verdadeira contradição em seus termos, uma vez que um sistema que pressupõe a posse de uma pessoa por outra não tem qualquer chance de ser bom; só pode existir na base da violência, e de lado a lado. 

    Há também exemplos práticos dessa ambiguidade inscritos no nosso dia a dia. Vou me limitar a um deles. No sul de Santa Catarina existe um município chamado Treze de Maio que possui nome, brasão e hino remetendo à data que celebra a abolição da escravidão. No entanto, se a cidade contou com um quilombo nos seus arredores – e que foi reconhecido em 2015 quando se devolveram terras a descendentes de um escravizado – , agora procura entender sua origem como exclusivamente branca e italiana. No Censo de 2010, somente 0,8% da população local se autodeclarou preta, enquanto os que se consideraram brancos chegaram a mais de 97%. A cidade também votou maciçamente em Jair Bolsonaro nas últimas eleições para presidente. Ele teve 83,89% dos votos válidos no primeiro turno – a maior votação do país – e 89,24% no segundo. Não é para menos: a cidade rural tem 7.070 habitantes, boa parte deles se orgulham de andar armados e acreditam que o presidente está nesse posto para valorizar o agronegócio.  

    Não parece acidental, entretanto, que uma das maiores controvérsias gire em torno da estátua de um negro acorrentado, a qual, conta a lenda, teria sido retirada da cidade, restando hoje apenas uma outra, com a mesma personagem, mas sem correntes. 

    Há quem conte também que a obra teria sido pintada de branco, em certo momento; atitude que segue a mania de branqueamento social que os brasileiros têm. O certo é que a estátua hoje mora em frente à Igreja local e sem grande destaque. Ela parece um pouco sem sentido, pois os braços que antes mostravam ou quebravam correntes, agora parecem muito artificiais como se faltasse algo (e de fato falta). Já na entrada do município hoje se encontra um monumento em homenagem aos italianos que teriam chegado em 1877, subindo o rio Tubarão.

    Como nada nesse mundo é só coincidência, são justamente essas famílias que dominam a região e procuram “esquecer do passado escravocrata” e das populações negras que por lá vivem ou viviam. 

    Esses são exemplos de como se constroem memórias e narrativas na base de sublinhar, mas também borrar e apagar. Imaginar-se branco voltou a ser uma espécie de ideologia de certos grupos sociais que se enxergam como representantes de um legado europeu e civilizado aqui nos trópicos americanos.  Como escrevia Padre Antônio Vieira, no sermão da madrugada da ressurreição, não há sol sem sombra. Optar por uma única origem significa colocar na sombra (e buscar deletar) todas as demais. Não vai dar certo...

    Ps: Agradeço ao Fernando Canzian, que foi quem me contou sobre essa inacreditável história de lembranças e de esquecimentos.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!