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Coluna

O racismo de Trump. E o da minha avó

    E o meu também: gostamos de acreditar que somos pessoas boas, e que o mau do mundo está nas pessoas ruins, que têm características odiosas

    Racismo, machismo, homofobia são falhas morais, defeitos do caráter. Certo? São sinais de maldade, não é isso? Se alguém é racista, está de alguma forma conectado ao genocídio na periferia. Se é machista, faz parte do sistema que mata mulheres a pedradas. Se é homofóbico, integra o grupo de apoiadores da execução de quem não se enquadra na divisão tradicional de gênero. Né?

    No entanto, quando deixo a memória passear pela doçura da infância, tem algo difícil de ignorar: minha avó era racista.

    Não era pouco, não, era muito. Você precisa ver as palavras que ela usava para se referir a nordestinos,, a japoneses, a negros, basicamente a qualquer grupo que não fosse o dela. Para falar de negros ela até mudava o idioma, como que sugerindo que o assunto não devia ser discutido em público. “Shvartse”, dizia, recorrendo ao iídiche nativo: minha avó era judia, nascida na Polônia, sobrevivente do racismo. E, quando acuso seu próprio racismo, não consigo evitar sentir uma culpa, como se eu estivesse ofendendo sua memória.

    Não estou, juro. Amava - amo - minha avó. Conhecendo-a bem, entendo que suas crenças de superioridade eram firmemente ancoradas num complexo de inferioridade, difícil de evitar para alguém cuja primeira infância foi marcada por um projeto de exterm��nio de toda a sua comunidade, dela própria inclusive. Mas, para além disso, sei que ela era uma mulher do tempo dela, e amo tantas outras mulheres e outros homens do tempo dela, que no entanto eram racistas. Eram machistas. Eram homofóbicos. Faziam piadas sobre a inferioridade dos outros, tratavam-nos com desrespeito, eram condescendentes, agressivos, desrespeitosos, injustos. Inclusive eu - já ri de piadas no passado que talvez hoje em dia dessem cadeia.

    Acho que talvez devêssemos parar de tratar esse assunto apenas com o olhar moral.

    A filósofa americana Kate Mane é uma das pessoas que estão propondo uma alternativa. Escrevendo sobre misoginia, ela propõe que machismo, mais do que uma característica individual, é “primariamente uma propriedade dos ambientes sociais”. Não é tanto que minha avó fosse racista. Ela era, mas o racismo não vinha exatamente dela: ela expressava algo que estava na sociedade toda.

    Baseada em pesquisas bem sólidas de comportamento humano, Kate descreve o fenômeno de um jeito interessante. Ela acha que misoginia é uma espécie de polícia que vigia o regime social em vigor no mundo hoje: o patriarcado. O patriarcado tem suas regras - que são regras culturais, sociais, que sabidamente são muito mais poderosas do que regras criminais - e a comunidade de homens e mulheres inconscientemente pune quem quebra essas regras. Misoginia é essa punição. A mulher que não cumpre seu papel - e que não se cala para dar protagonismo para o homem mais próximo - é agredida, com palavra ou com porrada. É preterida, é acusada, é injustiçada. No limite, é morta.

    A realidade que as novas pesquisas parecem revelar é que quase nenhum de nós é de todo bom ou de todo ruim, e que a imensa maioria é capaz de expressar ideias ou ações odiosas, quando o clima social é propício

    Por um lado, o jeito que ela vê o mundo é mais terrível do que estamos acostumados. Gostamos de acreditar que somos pessoas boas, e que o mau do mundo está nas pessoas ruins, que têm características odiosas - são machistas, racistas, homofóbicos. A realidade que as novas pesquisas parecem revelar é que quase nenhum de nós é de todo bom ou de todo ruim, e que a imensa maioria é capaz de expressar ideias ou ações odiosas, quando o clima social é propício - como era nos anos 1930, quando minha avó teve que cruzar o oceano, ainda criança, expulsa para sempre de seu mundo em destruição. E, como o clima social parece ser propício ao ódio de novo, a maldade pode se abater sobre nós vinda de qualquer um, não apenas da minoria de pessoas más.

    Mas, se isso significa que qualquer um de nós pode ser ruim, significa também que somos todos capazes de mudar. Hoje vivemos um momento de revelação. No mundo todo, nas mais diversas sociedades, esses sistemas estão sendo colocado às claras. O caso mais evidente é o da relação entre os gêneros - não passa uma semana sem que exploda um escândalo mostrando os mecanismos terríveis da misoginia em ação.

    Esses escândalos não poupam ninguém. Este mês, bateu nos padres da Igreja Católica, que estariam abusando freiras - antes, já havia exposto altos executivos, políticos poderosos, artistas cultuados, chefes de todas as indústrias, de todos os setores, detentores de todos os tipos de poder. Uma consequência disso é uma certa tensão social - quanta gente, no mundo todo, não deve estar pensando “será que eu posso ser o próximo”?

    Ser o próximo envolve sofrer uma humilhação terrível, viver uma vergonha impossível de esquecer. Afinal, nossa tendência é ver machismo, racismo, homofobia, como defeitos morais. Kate Mane acha que o medo de sofrer essa vergonha talvez seja parte do que tem criado uma resistência conservadora, que tem se organizado para eleger gente abertamente racista, homofóbica, machista, como Donald Trump.

    É fundamental expor os mecanismos do machismo, do racismo, da homofobia, mas provavelmente vai dar mais resultado se encontrarmos formas de fazer isso que não tornem tudo pessoal - que não ameacem todo mundo com humilhação. Minha avó era racista, porque expressava algo dominante na sociedade. Mas isso não significa que ela fosse igual ao cretino que tentou matá-la, ou aos canalhas que estão se aproveitando do preconceito alheio para acumular poder político hoje. Não era.

    Eu, que nasci homem, e branco, e hétero, numa sociedade que privilegia cada uma dessas características, também carrego, com toda certeza, traços que seria melhor não ter. Sei que tenho que melhorar também. E acho que vamos melhorar por empatia - não por ameaça.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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