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Coluna

O que explica a banalização do horror?

5 de set de 2019 (atualizado 05/09/19 às 16h40)

    Em países com uma herança da escravidão que ainda se faz presente, a atitude de líderes que apoiam a violência e a tortura pode ajudar a normalizar comportamentos desumanos

    Um jovem negro de 17 anos foi chicoteado e torturado por seguranças de um supermercado após furtar uma barra de chocolate. Ele foi despido, amordaçado, amarrado e torturado com um chicote de fios elétricos por cerca de quarenta minutos. Isso não aconteceu em 1835, quando a lei brasileira permitia que escravos sofressem penas de açoutes, mas agora, em 2019. Como podemos ter esse grau de violência e perversidade, dirigida com frequência a jovens pretos, em pleno século 21?

    Parte da explicação está no fato de a sociedade brasileira continuar sendo desigual, discriminatória e violenta. Pretos são tratados com desconfiança pelo Estado e sofrem diariamente as consequências da discriminação (mesmo quando ela é estatística), seja no mercado de trabalho ou nos tiros que a polícia dispara contra eles nas favelas. A herança da escravidão, minimizada por muitos, permanece no inconsciente de cidadãos que cresceram achando que sua cor de pele os torna superiores.

    Essa herança não é fictícia. No artigo "The Political Legacy of American Slavery" os cientistas políticos Avidit Acharya, Matthew Blackwell, e Maya Sen utilizam dados históricos de distritos americanos e a proporção de escravos em 1860 para estudar preferências políticas e atitudes raciais no presente. Eles mostram que diferenças contemporâneas em votações e atitudes políticas entre regiões americanas têm suas origens, em parte, na prevalência de escravos 150 anos atrás. Locais que tinham mais escravos têm hoje indivíduos que fazem mais oposição a ações afirmativas e que nutrem  sentimentos de ressentimento contra pretos. Os autores argumentam que, depois da Guerra Civil Americana (1861 -1865), os brancos do sul dos EUA tinham incentivos para reforçar normas sociais racistas para manter o controle da mão de obra preta recém liberta. Uma análise mais profunda desse fenômeno está no livro dos mesmos autores chamado "Deep Roots: How Slavery Still Shapes Southern Politics".

    No Brasil, os economistas Thomas Fujiwara, Humberto Laudares e Felipe Valencia utilizam a linha de Tordesilhas para investigar os efeitos de longo prazo da escravidão. No trabalho "Tordesillas, Slavery and the Origins of Brazilian Inequality" eles mostram, usando dados do censo de 1872, que há uma descontinuidade no número de escravos do lado português comparado com o lado espanhol. Essa diferença na presença de escravos está associada hoje a uma maior desigualdade de renda e a outras diferenças de renda e educação.

    Mudanças podem também acontecer com a eleição de um novo líder que apoia a tortura e a violência. Ele pode fazer com que se torne normal realizar ações que antes seriam consideradas grotescas e desumanas.

    Mas se essas diferenças históricas sempre estiveram presentes, por que temos a impressão de que crimes bárbaros como a tortura do jovem no supermercado estão aumentando? Por que os seguranças filmaram e disponibilizaram o vídeo de algo tão absurdo? E por que o apoio da população a esse tipo de tortura parece ter aumentado?  

    Para entender esse fenômeno temos que analisar as normas sociais que regem o comportamento de uma sociedade e como essas normas podem durar muitíssimo tempo em alguns casos, e mudar rapidamente em outros. Muitas vezes choques ou mudanças bruscas propiciam essas mudanças. As economistas Raquel Fernández, Sahar Parsa e Martina Viarengo estudaram normas sociais relacionadas com a homossexualidade no trabalho "Coming Out in America: AIDS, Politics, and Cultural Change". Elas argumentam que a epidemia de HIV ajudou a normalizar a homossexualidade ao dar visibilidade às  pessoas doentes e "tirar do armário" nomes conhecidos. A aceitação de relações homossexuais cresceu nos EUA de 20% em 1973 para 60% em 2016.

    Mudanças podem também acontecer com a eleição de um novo líder que apoia a tortura e a violência. Ele pode fazer com que se torne normal realizar ações que antes seriam consideradas grotescas e desumanas. As eleições de Donald Trump nos EUA e de Jair Bolsonaro no Brasil trouxeram à tona comportamentos que antes seriam considerados inadmissíveis por parte de líderes. Muitas pessoas, ao observarem esses comportamentos, passaram a achar que é natural falar mal de minorias, maltratar imigrantes e usar a violência para resolver conflitos. Além disso, certos comportamentos que antes seriam castigados socialmente passaram a ser elogiados.

    O trabalho "From Extreme to Mainstream: The Erosion of Social Norms", dos economistas Leonardo Bursztyn, Georgy Egorov e Stefano Fiorin, tenta quantificar esse fenômeno. Eles utilizam experimentos na vida real para medir a disposição das pessoas a expressar preferências xenofóbicas publicamente. Num deles, participantes recebiam um bônus toda vez que autorizavam os pesquisadores a fazer uma doação para uma organização anti-imigração. Quando a decisão foi pública e observável pelos pesquisadores, a doação à organização xenofóbica foi menor do que quando a ação foi privada e não pôde ser observada. Porém, quando os indivíduos receberam (aleatoriamente) informação de que as chances de Trump ganhar aumentaram, o grupo que era observado se tornou mais disposto a fazer doações "xenofóbicas".

    Ainda é cedo para afirmar que os líderes populistas de extrema direita como Bolsonaro estão sendo bem sucedidos em modificar as normas sociais existentes. Mas uma coisa é certa: a proliferação de mídias sociais e as mensagens diárias de ódio terminam por banalizar a maldade e a violência. Recuperar a civilidade nos custará muito esforço.

    Claudio Ferraz é professor da Cátedra Itaú-Unibanco do Departamento de Economia da PUC-Rio e diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade  Stanford e no MIT. Sua pesquisa inclui estudos sobre as causas e consequências da corrupção e a avaliação de impacto de políticas públicas.

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