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Coluna

O populismo e o ataque às universidades

    O anti-intelectualismo é típico de governos autoritários que se sentem ameaçados pela liberdade de pensamento

    O presidente Jair Bolsonaro e seu ministro de Educação Abraham Weintraub abriram uma guerra à pesquisa e às universidades brasileiras na semana passada. O confronto começou com Bolsonaro dizendo que o MEC (Ministério da Educação) pretende reduzir os investimentos em cursos de filosofia e sociologia (humanas) e focar em "áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte como: veterinária, engenharia e medicina."

     

    Depois disso, tivemos a declaração do ministro de Educação apontando para um corte de verbas de universidades federais por "balbúrdia" com foco na UnB (Universidade de Brasília), UFF (Universidade Federal Fluminense) e UFBA (Universidade Federal da Bahia). O ministro disse que "a universidade que em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiver fazendo balbúrdia, terá verba reduzida". Após muitas reclamações e pressão da sociedade civil, o MEC voltou atrás e decidiu, no lugar de punir universidades por balbúrdia, cortar 30% de verbas de todas as universidades federais. Muitas bolsas de pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)   estão atrasadas e há rumores de que sejam cortadas de forma significativa.

     

    Por trás desse movimento há uma crença de que as universidades federais brasileiras são antros do marxismo cultural e que é preciso combatê-lo urgentemente. Esse tipo de ataque às universidades, e o anti-intelectualismo, é típico de governos autoritários que chegam ao poder por vias populistas e se sentem ameaçados pela liberdade de pensamento universitário.

     

    Um artigo recente na revista Slate descreve o caso da Hungria, onde o primeiro ministro Viktor Orbán reduziu os recursos ou privatizou as melhores universidades, censurou diversas conferências com temas que não eram de seu agrado, e obrigou uma das melhores – a Center European University – a deixar o país. Este tipo de fenômeno também está acontecendo em países como Polônia e Turquia.

    O objetivo final de uma universidade não é simplesmente produzir pessoas qualificadas para o mercado de trabalho, como parecem acreditar o presidente e o ministro de Educação

    Mas não é a primeira vez que ataques são direcionados a acadêmicos e cientistas. Na Alemanha nazista, professores judeus foram perseguidos e expulsos. Fabian Waldinger, da Universidade de Munique, mostra em seu trabalho "Quality Matters: The Expulsion of Professors and the Consequences for PhD Student Outcomes in Nazi Germany", publicado no Journal of Political Economy que, entre 1933 e 1934, aproximadamente 18% dos professores de matemática de universidades alemãs foram expulsos. Em alguns departamentos esse número chegou a 50%, incluindo figuras famosas como John von Neumann, Richard Courant, e Richard von Mises. Essas expulsões tiveram graves consequências em termos de qualidade de teses escritas, trabalhos publicados por alunos de PhD e suas carreiras no longo-prazo. Nos EUA, na época do Macartismo, nos anos 1950, diversos professores foram perseguidos e acusados de comunismo.

     

    O problema central da visão anti-intelectual é a falta de compreensão do que é uma universidade e para que serve. Professores devem ter a liberdade de buscar a verdade e divulgar seus achados e conhecimentos sem restrições ou censura dentro e fora da universidade. Isso não quer dizer que eles possam fazer qualquer coisa, principalmente se forem professores e pesquisadores de universidades públicas pagos pelo dinheiro do contribuinte. Eles devem ensinar e fazer pesquisa de qualidade.

     

    Mas o objetivo final de uma universidade não é simplesmente produzir pessoas qualificadas para o mercado de trabalho, como parecem acreditar o presidente e o ministro de Educação. Tão importante quanto isso é gerar novo conhecimento que possa ser utilizado de uma forma ou de outra pela sociedade, mesmo quando esse conhecimento é abstrato como na matemática. O maior exemplo disso no Brasil é o Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada).

     

    Pelas palavras do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Educação, eles devem achar que o Impa não serve para nada já que muita gente com um mestrado do Impa teria um salário relativamente baixo no mercado de trabalho. Trata-se, porém, de um dos institutos de matemática mais respeitados do mundo e recentemente deu ao Brasil a medalha Fields, o equivalente ao prêmio Nobel da matemática. Apesar de ser conhecimento abstrato, as descobertas da matemática para a física, engenharia e outras aplicações práticas são enormes.

     

    E as ciências humanas, para que servem? Para que precisamos de filosofia, antropologia, e sociologia por exemplo? Vou seguir aqui a resposta do Social Sciences and Humanities Research Council do Canadá, um dos maiores financiadores de ciências sociais e humana do mundo: "A pesquisa feita pelas ciências sociais e humanas responde perguntas sobre quem somos como seres humanos, o que precisamos para prosperar em tempos complexos e para onde vamos nos próximos anos. Aumenta nossa habilidade para entender e responder de forma criativa a questões individuais, sociais, culturais e econômicas."

     

    Sem pensamento crítico sobre a existência e o comportamento do ser humano, tanto de forma individual como em sociedade, será muito difícil ter uma sociedade justa, onde as pessoas sejam felizes. Não é à toa que as melhores universidades do mundo como Cambridge, Harvard, Oxford ou Stanford oferecem cursos excelentes de engenharia e ciências da computação, mas também de ciências sociais e humanas. Não adianta somente gerar algoritmos e pensar em como fazer empresas ficarem mais produtivas com "Big Data", temos que pensar também no futuro e na ética de máquinas tomando decisões pelos homens e quais serão as implicações disso para a nossa sociedade. Coisas que parecem abstratas nas discussões da sala de aula podem ter uma utilidade enorme no dia de amanhã.

     

    Com meus argumentos acima, não quero dizer que as universidades federais brasileiras funcionem perfeitamente e que não devemos ser críticos, muito pelo contrário. Há muita coisa errada na gestão de universidades federais e no financiamento da ciência no Brasil. Os salários de professores são idênticos independentemente de produtividade e as promoções são geralmente por tempo de carreira, não por mérito. A burocracia para receber recursos e gastá-los é imensa fazendo com que pesquisadores percam um tempo enorme com papelada no lugar de pesquisa. Há poucos recursos para recém-doutores e pesquisadores juniores enquanto pesquisadores sêniores, muitos que não publicam, continuam recebendo suas bolsas.

     

    O ranking de periódicos – o famoso Qualis –é ridículo e incentiva a mediocridade já que publicar nas melhores revistas do mundo vale pouco mais do que publicar aqui em português. Os rankings de universidades não levam em consideração o fator de impacto das pesquisas e contam números de mestres e doutores sem levar em consideração as qualidades das teses. Há quotas regionais de recursos que são independentes de produtividade. Há uma imensa dificuldade de fazer parcerias com o setor privado e muitas vezes estas são vistas como "privatização da universidade".

     

    Todos esses são problemas reais que deveriam ser debatidos e discutidos. Não produzimos mais pesquisa de ponta pelos motivos citados acima e não por que nossos cientistas são marxistas disfarçados fazendo lavagens cerebrais enquanto seus alunos desfilam pelados pelas universidades. Devemos parar de perseguir moinhos de vento e focar no que realmente importa para melhorar a produção de conhecimento no Brasil. Só assim poderemos gerar melhores profissionais que pensem no futuro do país, melhores líderes para os setores público e privado e melhores invenções que contribuam para o desenvolvimento econômico e social de longo-prazo

     

    Claudio Ferraz é professor da Cátedra Itaú-Unibanco do Departamento de Economia da PUC-Rio e diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade  Stanford e no MIT. Sua pesquisa inclui estudos sobre as causas e consequências da corrupção e a avaliação de impacto de políticas públicas.

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