Coluna

O machado, o 13 de maio e as bolsas de pesquisa

    Os cortes na educação são absurdos. Ao mesmo tempo, a maneira como nós, comunidade acadêmica, lidamos com as oportunidades de democratizar o conhecimento científico são muito limitadas

    Machado: palavra usada para finalizar os pontos de jongo. Jongo: manifestação cultural surgida no sudeste do Brasil, em especial no Vale do Rio Paraíba do Sul, que consiste na execução de dança em roda ao som de músicas (pontos) feitos pelos participantes (jongueiros). Um dos pontos mais conhecidos do jogo diz o seguinte “depois do 13 de maio cativeiro acabou”. O verso certeiro tecido pela primeira geração de descendentes de escravizados contrasta com questionamentos elaborados pelos movimentos sociais negros durante os séculos 20 e 21. 

    A despeito da assinatura da Lei Áurea em 1888 ter representado a libertação de 250 mil pessoas escravizadas, a ideia de abolição como uma grande mentira é predominante nos movimentos sociais negros. Entre outros fatos e processos, essa perspectiva eternizou-se na histórica “Marcha contra a farsa da abolição”. Realizada no centro do Rio de Janeiro no dia 11 de maio de 1988, a marcha, que reuniu mais de 20 mil pessoas para protestar contra o racismo, foi duramente reprimida pelo Estado brasileiro. Além de prender militantes que chegavam de trem de subúrbios e da Baixada Fluminense, conforme registros e pesquisas históricas, a Polícia Civil destruiu cartazes, panfletos e impediu manifestantes de encerrarem a caminhada na estátua de Zumbi dos Palmares, como tinha sido planejado pelos organizadores.

    Como eu sei de todas essas coisas? A resposta é simples. Porque existe pesquisa no Brasil. Existência essa que torna possível conhecermos em profundidade aspectos da história do nosso país. Nesse caso da marcha de 1988, a pesquisa tornou possível conhecermos aspectos narrados sob o ponto de vista de pessoas negras, em obras imprescindíveis como “Histórias do Movimento Negro no Brasil”. Organizado pelos historiadores Amilcar Pereira e Verena Alberti, o livro reúne entrevistas com militantes de movimentos sociais negros de todo o país. Yedo em Campinas, Mundinha Araújo no Maranhão, Sueli Carneiro em São Paulo, Zélia Amador de Deus em Belém do Pará e por aí vai.

    Assim como milhares de pesquisas em ciências humanas, a realização dessa investigação implicou viagens da equipe, transcrição de entrevistas, produção de registros audiovisuais, contrato editorial. E contou com financiamento parcial do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

    Infelizmente, conversamos muito pouco sobre os bastidores que envolvem a realização de pesquisas acadêmicas em nosso país. As razões variam – e passam pela cultura endógena e elitista das universidades públicas. É essa cultura que justifica o desespero da comunidade acadêmica, refletido na frase “temos de mostrar para a sociedade o que fazemos”. Dita diante da notícia – de fato desesperadora – do corte de milhares de bolsas de pesquisa em programas de pós-graduação sob alegação de estarem “ociosas”, essa frase merece atenção. Se achamos importante “mostrar o que fazemos” em contextos de crise, há o pressuposto de que em tempos de “normalidade” esse compromisso se desfaz. Fiquei com essa sensação vendo e recebendo tantas campanhas de divulgação científica nas ruas.

    É claro que se trata de uma (mais uma) medida arbitrária e absurda que marca os 133 dias de governo do presidente Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, a maneira como nós, comunidade acadêmica, lidamos com as oportunidades de democratizar o conhecimento científico são muito limitadas. Haja vista, por exemplo, a obsessão no campo das ciências humanas em desautorizar saberes que se organizam pela “lógica do machado” – como o jongo. Lembro aqui da existência de uma pesquisa em desenvolvimento por uma jovem historiadora no Programa de Pós-graduação em Educação da UFRJ, com objetivo de comprovar a existência de uma epistemologia jongueira. Uma pesquisa inovadora e que, por sinal, é financiada com bolsa da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento da Pesquisa no Ensino Superior).

    Parece que toda quinzena o papo se repete por aqui? Também fico com essa sensação porque, no fim das contas, a ameaça do corte das bolsas, que se concretizou e voltou (por enquanto) apenas ao status de ameaça, atinge quase que exclusivamente pessoas da classe trabalhadora que ingressaram no ensino superior através de políticas públicas como Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), Sisu (Sistema de Seleção Unificada), ações afirmativas sociais e raciais.

    Para a maioria de estudantes da graduação e da pós, bolsa no Brasil é salário! Renda que garante aluguel, contas, compras de mês, e, quiçá, com um bom planejamento, uma meia dúzia de livros. De fato, uma grande “balbúrdia”, típica de países com distribuição de renda desigual, investimentos parcos em educação, nos quais a população insiste em conciliar o supostamente inconciliável: elite intelectual e classe trabalhadora. E por falar em balbúrdia, vale conferir o bate-papo coletivo sobre o 13 de maio no blog Conversa de Historiadoras.

    “A canoa do jongueiro tem boca e sabe falá”.

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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