Ir direto ao conteúdo
Coluna

O impacto do lobby do veneno na vida dos brasileiros

14 de jun de 2019

    Estudos mostram, para além do aumento da produtividade, os efeitos da adoção de agrotóxicos baseados em glifosato na saúde de recém-nascidos

    O Ministério da Agricultura aprovou recentemente o registro de mais 31 agrotóxicos. Desde 2016, o número de agrotóxicos registrados no Brasil cresce de forma assustadora como pode ser visto no gráfico abaixo. Entre 2005 e 2015 houve uma média de 150 agrotóxicos registrados anualmente. Enquanto isso, em 2017 e 2018, passamos a ter mais de 400 registros. Muitos são reproduções de princípios ativos do glifosato, um polêmico herbicida associado a linfomas e alvo de diversos processos nos tribunais dos EUA.

     

    A expansão do uso de agrotóxicos no Brasil está fortemente relacionada com a adoção de sementes geneticamente modificadas para o plantio de milho e soja que foram liberadas para uso em 2003. A expansão da soja geneticamente modificada beneficiou a economia através de um processo de transformação estrutural como mostram Bustos, Caprettini e Ponticelli no artigo "Agricultural Productivity and Structural Transformation: Evidence from Brazil".

    Além disso, a crescente demanda da China beneficiou trabalhadores locais por meio de empregos e maiores salários. Mas o uso excessivo de agrotóxicos pode gerar problemas de saúde não só para os usuários, mas para as populações que podem ser afetadas pela contaminação de solo e água.

    Dado o crescimento no uso de agrotóxicos e as consequências negativas, precisamos urgentemente debater regras que tornem o uso de agrotóxicos mais responsável

    Entre 2000 e 2012, o uso de agrotóxicos por unidade de área mais do que dobrou no Brasil. Num trabalho recente, "Glyphosate Use in Agriculture and Birth Outcomes of Surrounding Populations", os economistas Mateus Dias, Rudi Rocha e Rodrigo Soares examinam o impacto da adoção de agrotóxicos baseados em glifosato na saúde de recém-nascidos.

    Eles exploram a expansão do uso de sementes geneticamente modificadas nos anos 2000 e sua complementaridade com o uso de agrotóxicos. Os autores mostram que em localidades que compartilham água de áreas que expandiram o uso de glifosato durante os anos 2000 há um aumento significativo na mortalidade infantil, na frequência de nascimentos prematuros, e um aumento na frequência de bebês nascidos abaixo do peso.

    Esses efeitos negativos geram perdas econômicas enormes para o país. Usando estimações do valor estatístico da vida no Brasil, Dias, Rocha e Soares estimam perdas sociais na casa dos US$ 646 milhões. Além disso, essas perdas subestimam os custos sociais já que não incorporam a incidência de doenças como câncer na população adulta. Dado o crescimento no uso de agrotóxicos e as consequências negativas, precisamos urgentemente debater regras que tornem o uso de agrotóxicos mais responsável.

    Claudio Ferraz é professor da Cátedra Itaú-Unibanco do Departamento de Economia da PUC-Rio e diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade  Stanford e no MIT. Sua pesquisa inclui estudos sobre as causas e consequências da corrupção e a avaliação de impacto de políticas públicas.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!