Coluna

O governo federal, o desleixo e o desmanche da cultura

    Episódio da troca de comando da Fundação Casa de Rui Barbosa evidencia como a administração de Jair Bolsonaro tem um projeto que desconsidera a importância da produção de conhecimento

    No início de novembro, o governo federal decidiu transferir a Secretaria Especial da Cultura da pasta da Cidadania para o Ministério do Turismo, comandado pelo polêmico Marcelo Álvaro Antônio, ele próprio indiciado pela Polícia Federal por crime eleitoral e associação criminosa, atividades mais conhecidas como “candidaturas-laranja”. Já em sua pomposa nota oficial, o ministro declarou que sua pasta tem “sinergias e atividades naturalmente integradas”. O que há de “natural” ele não explicou, mas aproveitou para divulgar sua visão original, digamos assim, em relação ao que seria o papel da cultura: “A cultura é um dos principais atrativos do país e é responsável por grande parte da movimentação de visitantes nacionais e internacionais”. Me explique quem tiver entendido a complexidade da definição de Marcelo Álvaro Antônio.

    Para piorar, nesse meio tempo, o presidente da República nomeou o dramaturgo Roberto Alvim para chefiar a Secretaria Especial da Cultura. Alvim exercia o cargo de diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte (Fundação Nacional de Artes) e ganhou a simpatia da ala bolsonarista quando, em setembro, usou seu Facebook para atacar a atriz Fernanda Montenegro, de 89 anos. Na publicação, que viralizou, ele usa termos como “sórdida” para descrevê-la; tudo por causa de uma capa da edição de outubro da revista Quatro Cinco Um, em que a atriz aparece retratada como uma bruxa, sendo queimada numa fogueira de livros. Resultado: o ator, que utilizou, ele, sim, de comportamento “sórdido”, conseguiu o que queria – um cargo no Olimpo da política atual.

    Essas e outras atitudes tomadas pelo Executivo indicam não só sua contrariedade diante de intelectuais e artistas, como sua vontade de sucatear a Cultura. Mas se as notícias que relatei acima bombaram na mídia, preocupa uma certa política de subsolo, aquela mais miúda, feita na calada e sem muito alarde. Um episódio muito significativo, nesse sentido, refere-se à nomeação da nova presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa. Essa história simboliza o pouco caso do governo diante de importantes instituições culturais e o desprezo frente à produção de história, cultura, patrimônio, memória e arquivos de uma forma geral.

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    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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