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Coluna

O governo contra o Brasil

    Estamos sob o poder de gente que odeia o país e que trabalha, conscientemente ou não, para inviabilizá-lo

    De repente, tudo está sendo questionado. Há quem defenda que a Terra seja plana, que vacinas são venenos, que a Lua não existe. Menos de um século depois de Adolf Hitler colocar em prática seu projeto de matar todos os esquerdistas do mundo, há um vibrante debate, se não na academia ao menos nas redes sociais, sobre se o nazismo é de esquerda – seria portanto um projeto suicida de esquerda.

    Em meio a tantas dúvidas, restam algumas certezas.

    Uma delas é a de que educação é o caminho para a prosperidade. Países que melhoram sua educação e dão acesso a ela para mais gente ficam mais ricos – os dados são incontestáveis. Não adianta ter petróleo, ou ouro, ou nióbio: países com baixos índices educacionais dão errado. Podem até ter soluços de prosperidade aqui ou ali, mas sucumbem diante da baixa produtividade, da incapacidade de inovar, da pequenez de horizonte. Vendem seus recursos naturais a preço de banana e depois torram uma fortuna comprando-os de volta manufaturados em países mais bem preparados. É por isso que não importa se você é de esquerda ou de direita: todos os países desenvolvidos do mundo oferecem educação pública gratuita à maioria da população, independentemente de classe social ou de opinião política. Nos Estados Unidos, por exemplo, 90% das crianças estudam em escola pública, quase como em Cuba.

    Outra certeza é a de que é desejável que a atividade econômica não inviabilize a si própria. Qualquer país com alguma ambição nesta Terra pensa a longo prazo e não sai queimando os recursos que lhe permitem sobreviver. Assim como nenhum dono de casa razoável abre buracos na parede a marretadas para arrancar os fios de cobre e vendê-los no mercado – porque não quer ficar no escuro hoje à noite –, nenhuma nação com alguma visão de futuro destrói seus ecossistemas e seu clima para faturar hoje o que vai fazer falta amanhã.

    Uma terceira certeza bem sólida é a de que um país, para dar certo, precisa descobrir o que tem de único e de especial e cultivar essas coisas. As indústrias que mais produzem valor a partir do nada são as criativas – aquelas que não precisam esburacar a terra para pagar as contas. A mera existência de uma cultura vibrante movimenta bilhões na indústria de turismo, gera produtos culturais astronomicamente lucrativos, além de fazer surgir uma aura global de simpatia pelo país, que acaba beneficiando todas as suas outras indústrias. E países que se orgulham de si próprios são mensuravelmente mais felizes, o que tem um monte de repercussões positivas, da saúde à economia.

    Países são coisas complexas. Governos, portanto, serão sempre polêmicos. Não há um cujo legado seja incontestável. Juscelino Kubitschek fez a economia crescer e revolucionou a infraestrutura – também nos tornou dependentes de rodovias e empreiteiras, o que nos causou tantos problemas. Getúlio Vargas criou as bases da nossa identidade nacional e deu direitos a milhões que nunca os tiveram – também foi autoritário e hoje é acusado de ter enrijecido para sempre nossas relações trabalhistas. Luiz Inácio Lula da Silva, que terminou seu segundo mandato com a maior aprovação popular da história – incríveis 87%, à beira da unanimidade –, acabou virando o pior vilão de todos os tempos para uma proporção razoável da população. Mesmo desastres evidentes são redimidos por parcelas da população – Collor abriu a economia, elogiam uns; Temer desideologizou as relações internacionais, argumentam outros.

    Diante dessas poucas certezas que me restam neste mundo tão incerto, fica difícil concluir diferente: nossos atuais governantes estão contra o Brasil

    Por isso, normalmente evito generalizar demais quando analiso a qualidade de um governo. Por maior que sejam suas virtudes, fico atento aos seus defeitos, e vice-versa. Num mundo tão complexo, quase nada é inteiramente ruim, ou inteiramente bom. E mesmo o que é horrível para mim pode ser fantástico para o meu vizinho, e há que se respeitar a opinião do vizinho, que é tão dono do país quanto eu.

    Mas, diante dessas poucas certezas que me restam neste mundo tão incerto, fica difícil concluir diferente: nossos atuais governantes estão contra o Brasil. Os mandatários que temos hoje são inimigos da educação – se isso já não estivesse evidente pelos cortes orçamentários, dirigidos preferencialmente à educação básica, e pela retórica agressiva e desnecessária contra professores e contra nossas melhores instituições de ensino, os sobrevoos de helicóptero disparando tiros de fuzil sobre uma escola não deixam margem para dúvida.

    Ninguém discute que a gestão ambiental no Brasil de 2019 é um desastre, e um crime – isso ficou evidente nesta quarta-feira (8) quando quase todos os ex-ministros do Meio Ambiente vivos da história do país, de todas as cores ideológicas, se reuniram para juntos lamentar e denunciar o que está acontecendo. A atitude do governo em relação à cultura brasileira, outro alvo preferencial da retórica governamental e dos cortes orçamentários, foi sintetizada pelo próprio presidente no Carnaval, quando ele fez o que pôde para destruir a reputação internacional da principal atração turística brasileira.

    Estamos sob o poder de gente que odeia o Brasil e que trabalha, conscientemente ou não, para inviabilizá-lo: é “autoxenofobia”, como bem batizou o jornalista Bruno Torturra.

    É por isso que cada vez mais estou tomado por uma outra certeza: estamos sob o domínio de inimigos do Brasil. Resistir a eles não é questão de ideologia. É obrigação cívica.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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