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Coluna

O complexo drama da mídia e da democracia no século 21

13 de nov de 2019

    A utopia do acesso ampliado à produção e disseminação de conteúdo proporcionado pelas novas tecnologias rapidamente se converteu em um enorme desafio político de feições autoritárias

    Num passado distante – digamos, por volta de 2009 – uma revolução tecnológica de proporções históricas consolidava-se no cenário mundial da mídia e da disseminação da informação em geral. Sim, já nos havíamos então habituado à chegada da Internet e da World Wide Web, em particular. Mas o alcance dessas novidades (e da transformação por elas engendrada) estava sendo potencializado pela ascensão conjunta de fenômenos mais recentes: a banda larga, os smartphones e as redes sociais.

    Naqueles tempos inocentes, as perspectivas do impacto político e institucional dessa revolução não poderiam ser mais promissoras. Há muito sabíamos da importância da mídia no âmbito político, como propagadora das informações sem as quais a participação dos cidadãos, e sua capacidade de monitorar o comportamento dos governantes, tornam-se débeis. A Internet havia multiplicado em ordens de magnitude a disponibilidade de informação, e os smartphones agora colocavam tudo isso no bolso, e na ponta dos dedos, de um número crescente de pessoas.

    Mas, parafraseando os infames infomerciais dos anos 1990, não é só isso! As tecnologias de mídia convencionais – rádio, TV, jornais impressos – também democratizaram o acesso à informação, cada uma em seu momento. Elas, porém, impunham barreiras enormes à produção e à disseminação de conteúdo. Pouquíssimos controlavam o acesso a essas mídias convencionais e, portanto, concentravam enorme poder político. Isso não poderia ser mais claro do que em regimes não democráticos, que faziam da censura e do controle da mídia um elemento central de sua autopreservação. No entanto, mesmo em democracias consolidadas a questão do poder midiático estava sempre na ordem do dia.

    As redes sociais vinham para destruir esse estado de coisas. Nelas, somos todos produtores de conteúdo, e podemos compartilhar nossas opiniões e informações, bem como coordenar nossas ações políticas. O poder antes concentrado nas mãos de políticos ou magnatas da mídia estava agora, finalmente, com os cidadãos. O resultado só poderia ser o fortalecimento da democracia, e em fins de 2010 surgiu o exemplo da Primavera Árabe, turbinada pelas redes sociais que escapavam da mão de ferro dos ditadores, para ilustrar esse futuro que parecia inevitável.

    Desnecessário dizer aos nossos cérebros de quase 2020, exauridos por anos que parecem saídos de um romance de realismo mágico, que o tal futuro revelou-se muito mais distópico do que poderíamos ter imaginado então. Poucos hoje ousariam dizer que o novo cenário de mídia fortaleceu a democracia e tornou os governantes mais “accountable”, mais responsáveis e transparentes na prestação de contas à sociedade. Com efeito, é mais fácil argumentar que ocorreu exatamente o oposto.

    Fica a pergunta: por quê? Por que a utopia imaginada de 2010 revelou-se tão equivocada? Olhando pelo retrovisor, o fato é que algumas das características que pareciam tão promissoras nas novas mídias são, perversamente, parte importante da razão pela qual uma realidade tão diametralmente oposta emergiu.

    A grande sacada de figuras como Vladimir Putin foi perceber que, num mundo onde proliferam as notícias que desinformam, a reação das pessoas é concluir que toda fonte de informação está sob suspeita

    Primeiro, o inegável aumento na disponibilidade de informação é uma faca de dois gumes. Sim, de fato é possível consumir mais notícias sobre eleições ou o comportamento dos políticos. Mas o mesmo vale para futebol, fofocas de celebridades, ou filmes pornográficos. Resulta que, conforme aumentam as escolhas à disposição dos consumidores de conteúdo, o nível de conhecimento do cidadão médio sobre um dado assunto específico pode perfeitamente cair, ao mesmo tempo em que o dos aficionados por aquele assunto aumenta exponencialmente. A evidência empírica demonstra que isso ocorreu em outros momentos, como quando a ascensão das redes nacionais de TV nos EUA reduziu o conhecimento e engajamento com a política local.

    Some-se a isso que, num oceano de informação, aumentou o valor de ferramentas que ajudem a navegá-lo. Rapidamente, Facebook, Twitter e assemelhados tornaram-se os grandes curadores do menu de notícias que as pessoas efetivamente consomem. Longe de um mundo no qual o poder de controlar o acesso à informação dispersou-se, vivemos um cenário no qual organizações sem qualquer tipo de accountability – sem critérios claros e objetivos de prestação de contas à sociedade – concentram esse poder numa escala global sem precedentes.

    O outro fator crucial é a dispersão, que de fato foi criada, na produção de conteúdo. No mundo das redes sociais, podemos todos escolher em que versão da realidade acreditamos e propagamos. Como em nenhum outro momento histórico, a própria ideia de que existe um conjunto de fatos compartilhados dentro de uma sociedade vem caindo por terra. Em minha própria pesquisa, eu e meu coautor Daniel Hojman mostramos como o número limitado de opções no início da expansão da TV gerou uma redução na polarização política. O que vemos agora, tudo indica, é o processo oposto.

    Mais ainda, os próprios políticos e governantes rapidamente se deram conta de que essa dispersão pode ser explorada em seu benefício. Afinal, eles agora também são geradores e propagadores de conteúdo, não mais necessitando passar pela mídia tradicional para levar suas mensagens aos eleitores. Da mesma forma, eles podem usar as mídias sociais como ferramentas de mobilização em seu proveito.

    Também venho examinando as implicações disso em minha pesquisa, com Ruben Durante e Francesco Sobbrio, mostrando que a expansão do acesso à Internet inicialmente desmobilizou eleitores, mas eventualmente permitiu o crescimento de forças políticas que os trouxeram de volta ao cenário eleitoral, sob bandeiras eminentemente populistas. No momento, em projeto ainda preliminar com Pedro Bessone, Claudio Ferraz e Pedro Souza, estamos investigando como a expansão do Facebook no Brasil pode ter contribuído para reduzir a necessidade de os políticos responderem às demandas do eleitorado local, na medida em que lhes permite consolidar o apoio de seus eleitores mais ferrenhos.

    Com efeito, os populistas e autoritários têm-se revelado os grandes beneficiários, na arena política, dessas transformações. No século 21, um regime autoritário não precisa mais controlar a mídia a ferro e a fogo para manter-se no poder – em que pese o fato de o grande exemplo de poder autocrático moderno, o Partido Comunista Chinês, ainda optar por uma versão “high-tech” da abordagem tradicional via censura. O ditador (ou aspirante) moderno que não possua a mesma capacidade tecnológica e repressiva à disposição de Xi Jinping pode recorrer a algo muito mais barato: a desinformação.

    A grande sacada de figuras como Vladimir Putin foi perceber que, num mundo onde proliferam as notícias que desinformam, a reação das pessoas é concluir que toda fonte de informação está sob suspeita. Ocorre que é extremamente barato distribuir desinformação no ambiente de mídia atual, e é sintomático que o próprio termo “fake news" já tenha sido devidamente apropriado por líderes de inclinações autoritárias.

    Tudo isso nos trouxe, portanto, a um momento no qual cada um pode escolher acreditar no conjunto de fatos que confirma suas visões pré-concebidas, fatos esses que serão prontamente ofertados por agentes políticos que deles se beneficiem. As consequências dramáticas para a democracia, no plano mundial, estão apenas começando a emergir.

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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