Coluna

O beabá do populismo

    A política populista moderna prioriza forma sobre conteúdo, anima a divisão e o ódio e manipula símbolos nacionais como se fossem propriedade pessoal

    Populismo é um termo complexo. Tanto que não existe uma única definição para esse conceito, que indica um conjunto de práticas políticas que, de uma maneira geral, apelam para o “povo” e a “soberania” e, assim, se opõem às “elites” nacionais ou estrangeiras. Em nome do “povo”, que é transformado numa espécie de categoria abstrata e acima das demais, vários expedientes próprios das democracias representativas são colocados em questão.

    Talvez por isso mesmo, a política populista é em geral definida não tanto por seu “conteúdo”, mas por sua “forma” de exercer o poder. Tanto que sua maior característica é o contato direto com as massas urbanas, sendo que o líder, muitas vezes carismático, seria o responsável pela intermediação direta com o povo, sem a participação de partidos, corporações ou instituições do Estado.

    Foi Max Weber (1864-1920), em “A política como vocação”, quem definiu a autoridade carismática como aquela que se baseia "na devoção a um ato de heroísmo excepcional, ou ao caráter exemplar de uma pessoa, o que lhe legitima a autoridade”. Mas não existe problema, teoricamente, em contar com um político carismático que tenha capacidade de energizar e capacitar a população. O problema surge quando tais personagens acabam por tomar o lugar do Estado e das demais instituições, tendo como recurso forte a capacidade de falar “diretamente” com a população, sem a intermediação de outros poderes da República. 

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    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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