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Coluna

O Prêmio Nobel de Economia e a nota de R$ 3

    As ciências sociais contribuem, sim, para a solução de problemas práticos. E há muitos pesquisadores qualificados no Brasil nessa área

    Imaginemos que nosso (humano) apetite pelo barraco seja saciado nos próximos 2 anos, 11 meses, 3 semanas e 1 dia que ainda nos separam das próximas eleições gerais. Imaginemos ainda que, por efeito de saturação, a maioria do eleitorado não vote com o fígado nessa próxima oportunidade. Teremos então a chance de que o noticiário de política seja pautado por problemas reais. Se isso ocorrer, o debate poderá enfim focar as políticas, qual seja, as melhores estratégias para enfrentar os enormes desafios de uma sociedade que pretende ser civilizada. 

    Então, teremos oportunidade de observar que a crença de que as ciências sociais não contribuem para a solução de problemas práticos é tão falsa quanto uma nota de R$ 3. Os laureados com o Prêmio Nobel de Economia de 2019 dedicaram sua vida acadêmica a produzir evidências empíricas sólidas para subsidiar a formulação de políticas eficazes contra a pobreza. Estiveram menos interessados em contar o número de pobres (o que é importante) e mais em entender como estes vivem, como se comportam, que escolhas fazem, com base no suposto (corretíssimo) de que esse conhecimento é condição para a efetividade daquelas políticas.

    Quantas vezes você foi chantageado à mesa por recusar uma comida que crianças famintas de alguma área muito pobre estariam prontas a devorar? Se você repete essa chantagem com seus filhos, está desatualizado.

    Contemporaneamente, não é a falta de alimentos que impede que os mais pobres tenham a força física necessária para realizar atividades que lhes permitam ganhar a vida com seu próprio trabalho. Os avanços (baseados na ciência) da produção alimentar reduziram substancialmente a escassez e o preço dos alimentos. Avanços tecnológicos também reduziram o esforço físico requerido dos que executam trabalhos menos qualificados. A combinação dessas duas trajetórias implica que uma dieta à base de bananas e ovos caberia no orçamento dos mais pobres e seria suficiente para evitar a desnutrição. O problema é que, assim como você e seus filhos, os mais pobres também não aceitam comer apenas bananas e ovos pelo resto da vida.

    Não é a inatividade o principal problema. Os muito pobres têm uma vida econômica. Esta é feita de múltiplas atividades. Os rurais distribuem seu tempo trabalhando em sua pequena propriedade (frequentemente sob ameaça de perda). Mas produzem também como diaristas nas grandes propriedades e migram temporariamente atrás de atividades sazonais. Mulheres urbanas desempenham múltiplas tarefas em um mesmo dia. Combinam a prestação de serviços domésticos em um turno a vendas ambulantes em outro. Se assim é, nossa reforma trabalhista terá efeito zero sobre a vida econômica dos muito pobres. Não precisam ir para a informalidade para (alegadamente) melhorar de vida. Já estão nela.

    É tão falsa quanto uma nota de R$ 3 a crença de que produzir conhecimento orientado a resolver problemas práticos dispensa o domínio de conhecimentos básicos que não são diretamente aplicáveis

    O crescimento econômico não é condição suficiente para tirar os mais pobres da pobreza. Seu barco não será levantado se e quando a onda vier. Embora os indivíduos pobres busquem se especializar, a multiplicidade de atividades (incluindo a migração temporária) inibe o desenvolvimento de capacidades laborativas. Suas habilidades são limitadas e muito específicas. A escala de suas atividades “empresariais” é muito pequena, o que implica razoável dose de desperdício. Embora possam teoricamente ampliar a escala de suas atividades, esta requer investimentos que não podem ser obtidos, devido às suas dificuldades para obter crédito. Pela mesma razão, não contam com seguros, o que implica que a perda de um ativo pode ser devastadora. Na ausência de políticas especificamente orientadas a enfrentar esse conjunto de obstáculos, o crescimento econômico por si só não teria o condão para desarmar essas armadilhas.

    Todas estas conclusões podem ser encontradas no artigo “The Economic Lives of the Poor”, publicado por Abhijit Banerjee e Esther Duflo no Journal of Economic Perspectives em 2007. O estudo foi baseado em surveys realizados com famílias extremamente pobres em 13 países, cujos bancos de dados estão disponíveis.

    A leitura do artigo não requer conhecimentos sofisticados de econometria ou equações. Apenas conceitos básicos de aritmética, tais como proporções, médias e medianas. Sua produção, contudo, exigiu um conhecimento profundo de teoria econômica, de tratamento estatístico de dados e de requisitos metodológicos para comparação. Moral da história: é tão falsa quanto uma nota de R$ 3 a crença de que produzir conhecimento orientado a resolver problemas práticos dispensa o domínio de conhecimentos básicos que não são diretamente aplicáveis.

    Do melhor de meu conhecimento, Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer nunca produziram trabalhos sobre o Brasil. Fizeram bem. Não seria mesmo necessário. O Brasil dispõe de muitos cientistas sociais de mesmo quilate. Conta também com uma tradição de produção de dados que permitiria examinar com grande facilidade se as conclusões de nossos laureados se estendem ao Brasil.

    Se o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e nossas instituições de pesquisa sobreviverem à “era do barraco” nossos pesquisadores não deixarão de dar sua contribuição à produção de conhecimento orientado a resolver questões práticas. Este é um ofício para o qual dedicaram toda uma vida. 

     

    Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Política da USP e diretora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da “Brazilian Political Science Review” (2012-2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016-7). É graduada em ciências sociais pela UFRGS, fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp, e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do Massachussets Institute of Technology, nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

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