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Coluna

Negro favelado de sucesso: um corpo estranho

    O efeito colateral que o sistema produz: desde Carolina Maria de Jesus, nos anos 1950, até a perseguição ao DJ Rennan da Penha, no Rio, em 2019

    “Enquanto a esquerda branca acha que faz revolução e acha que sabe o que é ser preto favelado por ir pro Circo Voador cantar ‘Eu vou pro baile da gaiola’, eu não posso ir para casa almoçar porque no caminho posso tomar um tiro de um caveirão voador. Mais uma tarde de horror que a gente espera que dure o mínimo possível e derrame o mínimo de sangue (negro e favelado). Existem níveis de existência e reflexão que solidariedade nenhuma proporcionam, só a real vivência mesmo”.

    Publicado por uma estudante de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o texto coloca em primeiro plano as violências experimentadas pela juventude negra e favelada que acessa as universidades públicas brasileiras. Violências de ordem prática que mostram o quanto estamos longe de alcançar uma cidade que seja, de fato, para todas as pessoas. Violências também da ordem da “episteme”, ou seja, de relações de saber-poder instituídas, que confinam determinados sujeitos à condição de objetos, se quisermos usar um conceito de Michel Foucault.

    Essa violenta narrativa do tempo presente remeteu-me à situação absurda de expedição de mandado de prisão para Rennan da Penha. Criador do Baile da Gaiola, um dos eventos de funk mais famosos do Rio de Janeiro, o rapaz é acusado (com mais dez pessoas) pelo crime de “associação” e “olheiro” do tráfico de drogas. A fragilidade das provas (uma testemunha aponta o jovem como “DJ dos bandidos”) que geraram o mandado evidencia um problema que persiste na história do Brasil. A perseguição a pessoas que, com inteligência e habilidade, ousam escrever a própria história e a dos grupos em que se inserem. Pessoas que dão um drible nas estatísticas de desumanização legitimadas pelo Estado por meio da militarização da segurança, do sucateamento da educação pública, do sucateamento do Sistema Único de Saúde.

    Relembrando a flecha certeira dos Racionais MC’s, Rennan é o “efeito colateral que o sistema produz” por ao menos duas razões. Primeira razão: ser um jovem favelado de 25 anos vivo. Isso é um bem precioso se considerarmos que a expectativa de vida em favelas como o Complexo da Maré é de 74 anos, ao passo que a média de idade nas mortes na comunidade é de 24 anos. Segunda razão: ter se tornado um profissional de sucesso como idealizador e empresário da cultura do funk carioca.

    Olhar para essa situação dentro de uma perspectiva histórica deixa claro que o papel de “efeito colateral” é mais comum do que pensamos.

    Em 1955, Carolina Maria de Jesus foi “colateral” ao se tornar a autora mais vendida do país com o livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada”. Como castigo pelo crime cometido (o de fazer sucesso por meio de seu trabalho intelectual), a escritora foi, várias vezes, orientada pelo editor Audálio Dantas a trajar um lenço na cabeça durante sessões de fotos e entrevistas de divulgação da obra. Usando um conceito da feminista afro-dominicana Ochy Curiel essa “demanda” editorial contribuiu para reforçar a “outridade” da autora. Ou seja, a fixação de Carolina na identidade de “escritora favelada”.

    Migrando do mercado literário para o mundo acadêmico, Beatriz Nascimento também sentiu na pele o efeito colateral que gerou na produção científica. Historiadora pioneira no estudo dos quilombos, a pesquisadora e ativista dos movimentos sociais negros permanece ausente dos programas de curso de história do Brasil colonial. Em boa parte deles, afirmações como “a favela é nosso grande quilombo” não encontram lugar, sendo tratadas como inconvenientes e inoportunas. Do quilombo para o universo esportivo, nove meninos do time de base do Clube de Regatas do Flamengo pagaram com corpos queimados a ousadia de se tornarem efeitos colaterais da pobreza e do preconceito racial.

    Essas e outras histórias me remeteram aos debates em torno do texto “Estranhar o currículo”, no qual a historiadora Guacira Lopes Louro provoca-nos a praticar o movimento de desconfiar do que está posto. Seguindo a proposta da autora, de questionar o domínio do conhecimento,  percebemos que o trabalho de jovens como Rennan incomoda. Por quê? Porque em vez de naturalizar as narrativas “clássicas” de criminalização da pobreza, escreve novas histórias nas quais as favelas são retratadas como espaços humanos, caracterizados pela produção de afetos, cultura, lazer, geração de renda.

    Em um país com 43 mil escolas e 2 milhões e meio de crianças e adolescentes fora delas, trabalhos como esse, em vez de crime, deveriam servir de referência para a criação de políticas públicas. Como lembrou a deputada federal Talíria Petrone: “Falar da realidade da favela é sempre perigoso. Fazer sucesso no Brasil todo falando sobre isso é mais ainda. Rennan da Penha é um DJ famoso, negro e favelado.”

    Pena: seis anos e oito meses em regime fechado.  #DeixaeuDançar

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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