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Coluna

Minha autocrítica

14 de ago de 2019 (atualizado 14/08/19 às 22h14)

    Olhando para trás, acho difícil evitar a conclusão de que fracassei nas minhas nobres intenções

    Faz quase três anos que estreei este espaço aqui — uma coluna para tentar entender o mundão pulsando lá fora e para discutir formas mais racionais de cuidar dele. No meu primeiro texto, publicado em 17 de novembro de 2016, prometi “tentar lançar um olhar mais sistêmico e complexo sobre este momento difícil que o mundo está vivendo”. Dois meses antes, Dilma Rousseff tinha sido deposta pelo Congresso Nacional, e o Brasil iniciava a fase mais aguda da crise institucional que dura até hoje, com o sistema político inteiro desmoralizado e o ressentimento tomando a nação. Ao norte, dias antes, Donald Trump havia conquistado a presidência americana, numa campanha baseada em ultraje e mentiras — um presságio do que estava nos aguardando.

    Meu plano na época não era encontrar culpados pelas múltiplas crises que pipocavam por todo lado, “mas pensar em jeitos de mudar a forma como fazemos as coisas”. Eu não queria que este aqui fosse mais um entre tantos espaços de polarização, que dividem o mundo entre “nós” e “eles”, se comunica com uns e é odiado pelos outros. Afinal, “tudo indica que o problema não é dos ‘outros’: é do sistema todo, e diz respeito a cada um de nós.”

    Hoje, olhando para trás, acho difícil evitar a conclusão de que fracassei nas minhas nobres intenções. Ao longo destes anos, por mais que eu não quisesse, acabei por polarizar-me também. Apesar do esforço para falar dos sistemas, e não das pessoas, e de tentar escrever para todo mundo, furando bolhas, ficou difícil não escolher lado quando o Brasil caiu na armadilha de eleger como presidente um completo incapaz cujo projeto é destruir tudo aquilo que prezo — arte, ciência, cultura, ambiente, educação, democracia, verdade, liberdade.

    São tempos de urgência. De agir de acordo com a consciência. De indignação, de luta, de defender a sobrevivência daquilo que importa, do jeito que der.

    Se inaugurei este espaço prometendo ajudar os leitores a entender o que estava acontecendo, acabei usando-o frequentemente para compartilhar meu próprio assombro com o salto suicida que o país decidiu dar. Se o plano era trazer teorias e pensadores que jogassem luz sobre o confuso momento histórico que vivemos, acabei perdido no escuro eu mesmo, em meio a um tempo no qual não se sabe nem mais o formato da Terra. E, se vim para cá na crença de que seria capaz de deixar de lado as emoções para ser racional, tenho que admitir que perdi a cabeça com mais frequência do que gostaria, diante do absurdo de tudo.

    Portanto, peço desculpas. Está aqui minha autocrítica. Não estive à altura do que prometi. Acho aliás que este país precisa desesperadamente de autocríticas de muita gente — um desastre dessas proporções é obra coletiva, para a qual muitos contribuíram. Mas não vou apontar dedos, hoje não; que a ocasião não é para isso. Cabe a cada qual sua própria autocrítica — é isso que o “auto” significa. Este país já tem gente suficiente fazendo autocrítica dos outros.

    Talvez eu não tivesse mesmo chance de cumprir o combinado. O mundo à nossa volta não está muito interessado em racionalidade, ou em ponderação. São tempos de urgência. De agir de acordo com a consciência. De indignação, de luta, de defender a sobrevivência daquilo que importa, do jeito que der.

    O fato é que foi uma honra, um orgulho e um prazer manter esse espacinho, cercado por todos os lados do conteúdo sério, equilibrado, organizado e contextualizador do Nexo. Em meio a tanta histeria e destruição, este canto é uma ilha de sensatez. E, num mundo esgarçado pela polarização, ainda é um dos poucos lugares que ainda conseguem conversar através das bolhas. Hoje me despeço desta coluna. Preciso fazer algo diferente por uns tempos — não sei se você entende a necessidade, acho que ela está se impondo para muita gente.

    Continuarei por perto do Nexo, ajudando a fazer a série “Cientistas do Brasil que você precisa conhecer”, pensando projetos, conversando sempre. Sou fã, e sigo assinante. Espero que várias das conversas começadas aqui continuem, e frutifiquem. Obrigado pela paciência.

     

     

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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