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Coluna

Mais Brasil, menos Brasília

    O slogan é bom, mas é mentira: nesses pouco mais de três meses de governo Bolsonaro, nunca estivemos tão obcecados com Brasília

    O título aí em cima é o slogan que a campanha presidencial de Jair Bolsonaro surrupiou da de Marina Silva, da eleição anterior. Dá para entender o roubo: o slogan é bom. Quem é que não é a favor de uma coisa dessas? Viver aqui no chão, construindo coisas, cuidando das pessoas, trabalhando, amando, rindo – em vez de ficar com a cabeça lá, entre aqueles prédios esculturais de concreto branco, sob o domínio daqueles homens de terno preto, cheios de acusações de corrupção.

    Quem é que não quer um Brasil livre das amarras de Brasília – de suas notícias lúgubres sobre o PIB (Produto Interno Bruto), seus impostos que nos tomam quase metade de tudo o que produzimos, suas leis feitas sob medida para favorecer a si própria, seus títulos de “excelência” aplicados a tanta gente que não é excelente em nada, suas ideologias enchendo suas bocas mas não os nossos pratos? Mais Brasil, menos Brasília, óbvio.

    O slogan é tão bom que funcionou. Foi a aura de outsider – de não parecer com o que geralmente se espera de Brasília – que elegeu Bolsonaro. Mas hoje dá para dizer com convicção: era mentira. Se o que botou Bolsonaro sentado na cadeira acolchoada do Palácio do Planalto foi a promessa de que poderíamos esquecer Brasília e cuidar de nossas vidas, claramente fomos enganados. Mesmo quem continua apoiando o governo há de concordar: nunca estivemos tão obcecados com Brasília. Acordamos de manhã pensando nela, passamos o dia tensos, diante da certeza de que a qualquer momento outra granada sem pino será arremessada de lá.

    É que estamos em guerra – em guerra cultural. Tudo – tudo, tudo tudo – é matéria-prima para ser transformada em munição para a disputa ideológica. Nem no Carnaval o Brasil conseguiu desconectar de Brasília, entre os enredos políticos e o golden shower sem noção do presidente. Brasília invadiu os campos de futebol, os grupos de família no WhatsApp, as timelines do Facebook, os cultos religiosos, os espetáculos de música.

    Mais grave: invadiu as escolas. Todas as escolas, todas as universidades. Brasília transformou todas as salas de aula do país inteiro em campos de batalha da guerra cultural. Já não era fácil para os professores no Brasil dar condições para que seus alunos aprendam, em meio a deficiências de gestão, de formação, salários baixos e falta do mínimo. Agora ficou quase impossível. Eles não conseguem mais focar na aprendizagem, de tão distraídos que estão com os torpedos ideológicos que não param de chegar do Planalto Central, com políticos dando palpite sobre currículo, ameaças de perseguição política, demissões por discordar do governo, acusações de serem inimigos do país. Sem falar que, com Brasília pensando só em fazer guerra, esquece-se de comprar livros – não é o foco.

    Se é o governo que dá o tom, os outros 200 milhões de nós seguimos no mesmo andamento: vamos todos ficando obcecados com Brasília e com a ideologia que emana de lá

    Brasília também está se metendo na vida de todo mundo que produz. As exportações são vítimas frequentes. Em meio à guerra cultural, há que se bombardear inimigos – a China, os países árabes, a América do Sul. E muitas vezes essas bombas, que só têm valor ideológico, podem acabar prejudicando negócios reais. Ou a vida dos brasileiros, como aconteceu quando Brasília mirou em Havana e acabou acertando centenas de cidades pequenas e regiões rurais do Brasil, que ficaram sem nenhum médico para evitar que uma apendicite termine em morte.

    Brasília também está empenhada em tirar o Brasil do processo de tomada de decisões: o governo extinguiu pelo menos 650 conselhos federais, que permitiam alguma participação dos cidadãos nas questões que importam.

    Agora, o governo resolveu mirar nos artistas, que vê como inimigos. A Lei Rouanet, um mecanismo imperfeito criado pelo governo Collor, mas que ao menos cria um canal de financiamento para a arte e a cultura, é um alvo simbólico importante da guerra cultural. Não importa muito o fato de que os grandes beneficiários dela não sejam artistas de esquerda – são grandes instituições, como museus e orquestras. Sem problema: o governo corta investimento, mas abre exceções para essas instituições. Afinal, o objetivo não é mesmo economizar: é atacar os inimigos. O mesmo vai acontecendo na imprensa, que, não bastasse a crise do modelo de negócios, tem que lidar com a disputa de narrativas – e aí não sobra tempo nem cabeça para buscar a verdade.

    Artistas e jornalistas são vulneráveis, mas tem gente que é muito mais: os indígenas, por exemplo. Mais vulneráveis ainda são as outras espécies que deram o azar de coabitar conosco este complicado pedaço do mundo. Esses são alvos fáceis para Brasília. De dentro de seu gabinete em Brasília, um ministro do Meio Ambiente que não entende patavinas de meio ambiente, e que falsificou seu currículo para enganar o Brasil fingindo que entende, vai tomando decisões que levam destruição para o Brasil inteiro. É Brasília atacando o Brasil.

    E nessas a ideologia que tomou Brasília vai se tornando mais relevante na nossa vida do que a própria vida, aqui no chão. O escritor de que o presidente gosta, que nem sequer mora no Brasil, usa as redes sociais e a influência sobre a família Bolsonaro para impor suas exóticas ideias teóricas sobre a realidade concreta. E, se é o governo que dá o tom, os outros 200 milhões de nós seguimos no mesmo andamento: vamos todos ficando obcecados com Brasília e com a ideologia que emana de lá. Não há uma conversa, uma decisão, um projeto que não passe por Brasília.

    Eu mesmo, que comecei esta coluna disposto a falar das complexidades da vida aqui embaixo, não consigo mais evitar falar do governo. Como falar de outra coisa num momento em que um estelionatário destrói nossos ecossistemas? Em que a ideologia na educação inviabiliza o futuro? Em que a democracia é corroída dia após dia? Em que o pesadelo que expulsou meus avós da Europa, quase um século atrás, reaparece em flashbacks?

    Sigo querendo mais Brasil, menos Brasília. E torcendo para que o Brasil entenda logo que o caminho para ter isso não é entregar Brasília pros incendiários.

    Denis R. Burgierman é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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