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Coluna

Lugar da cabeça é na cabeça

    Uma reflexão sobre a poeta Stela do Patrocínio e o trabalho intelectual de mulheres negras no Brasil de 2019

    Em 2015, quando comecei o trabalho com a disciplina “Intelectuais Negras: saberes transgressores, escritas de si e práticas educativas de mulheres negras”, as estudantes chegavam com poucas referências de autoras negras. O fato de falarem mais de Angela Davis e bell hooks do que de Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus sempre me chamou atenção, produzindo muitos incômodos. A construção de cânones pelo mercado editorial é tão forte que faz com que jovens leitoras conheçam mais escritoras estrangeiras do que as de seu país. Um desconhecimento que incide diretamente na dificuldade de se sentirem identificadas com o trabalho intelectual. Observando esse contexto, durante dois anos montei programas de curso com exclusividade de autoras negras brasileiras na bibliografia. Mudanças começaram a acontecer. De 2017 em diante, as turmas passaram a chegar com listas mais amplas, que continham, inclusive, autoras que eu mesma, como professora, desconhecia. Foi o caso de Stela do Patrocínio (1941-1992).

    Grande poeta brasileira, Stela, aos 21 anos foi internada no Hospital Psiquiátrico D. Pedro II. Entre 1966 e 1992, ano de sua morte, viveu na Colônia Juliano Moreira, lugar onde, por meio do trabalho com a mente, ressignificou a violência dos choques elétricos e o confinamento. A obra dessa brilhante intelectual, lembrada pela psicanalista e filósofa Viviane Mosé por seu “porte altivo”, apresentou-se na forma de falas e textos curtos, que passaram a integrar um ateliê montado na Colônia, em 1986:

    Nasci louca

    Meus pais queriam que eu fosse louca

    Os normais tinham inveja de mim

    Que era louca.

     

    Tal qual Carolina Maria de Jesus, a filha de Zilda Xavier do Patrocínio e Manoel do Patrocínio escrevia em pedaços de papelão, que jamais foram encontrados, textos sobre a sua existência como pessoa. Uma característica compartilhada na escrita de mulheres negras:

    Eu já fui operada várias vezes

    Fiz várias operações

    sou toda operada

    Operei o cérebro, principalmente

    Eu pensei que ia acusar

    Se eu tenho alguma coisa no cérebro

    Não, acusou que eu tenho cérebro

    Um aparelho que pensa bem pensado

    Que pensa positivo

    E que é ligado a outro que não pensa

    Que não é capaz de pensar nada e nem trabalhar

    Eles arrancaram o que está pensando

    E o que está sem pensar

    E foram examinar esse aparelho de pensar e não pensar

    Ligados um ao outro na minha cabeça, no meu cérebro

    Estudar fora da cabeça

    Funcionar em cima da mesa

    Eles estudando fora da minha cabeça

    Eu já estou nesse ponto de estudo, de categoria

     

    Da convivência com ela surgiu o livro “Reino dos Bichos e dos Animais é o meu nome”, organizado por Viviane com objetivo de visibilizar o pensamento de Stela, diante do tamanho de sua potência e singularidade:

     

    É dito: pelo chão você não pode ficar

    Porque lugar de cabeça é na cabeça

    Lugar de corpo é no corpo

    Pelas paredes você também não pode

    Pelas camas você também não pode ficar

    Pelo espaço vazio também não vai poder ficar

    Porque lugar de cabeça é na cabeça

    Lugar de corpo é no corpo.

     

    É representativo dos avanços que o Brasil vivenciou entre 2003 e 2016 que eu, a professora, tenha sido apresentada a Stela do Patrocínio pelos estudantes universitários negros. Esse movimento intelectual que conduziram relaciona-se à busca desses jovens por novos sentidos de intelectualidade e formas de fazer ciência com as quais se identifiquem. Relaciona-se também ao grande potencial revolucionário que a sala de aula e a educação pública representam.

    Haveria muitos mais a comentar. Mas, por ora, basta dizer que passa um filme na mente. Três anos depois de publicada a carta em que denunciei a ausência de autoras negras na 15ª Flip, retorno a Paraty para lançar “Você pode substituir Mulheres Negras como objeto de estudo por Mulheres Negras contando a própria história”, meu primeiro livro autoral, com as bençãos e o brilho da visionária Conceição Evaristo, autora consagrada mundialmente. Enquanto mulheres, historicamente silenciadas, desautorizadas a expor ideias e manifestar posicionamentos, temos, de fato, conseguido mover estruturas, fazendo com que a história das classes trabalhadoras seja contada “na primeira pessoa”, para usar um conceito de minha autoria.

    Várias são as implicações desse “poder da autodefinição”, nos termos de Patricia Collins, autora da obra “Pensamento Feminista Negro”. Traduzida este ano pela editora Boitempo, o subtítulo do livro – conhecimento, consciência e a política do empoderamento – mostra a força com que mulheres negras, minoria do mercado editorial brasileiro, protagonizam novas formas de escrever, organizar e autorizar o conhecimento. Formas estas que passam pelo reconhecimento do papel das histórias individuais para a compreensão do percurso de grupos raciais e de gênero.

    Considerando que somos a maioria da população brasileira, percorrer os itinerários dessas pensadoras, narrados na primeira pessoa, é imprescindível para conhecermos mais sobre a história do Brasil. Em seus limites e potências. Por isso, apesar das dificuldades indescritíveis pelas quais o país passa, é importante celebrar o fato de que entre 10 e 14 de julho diversas autoras negras brasileiras estarão em Paraty. Além de mim e Conceição, Djamila Ribeiro, Joice Berth, Juliana Borges, Letícia Brito, Miriam Alves, Maria Duda, a nigeriana Ayobami Adebayo e a portuguesa Grada Kilomba estaremos lá. Todas lançando livros e conversando sobre trabalho intelectual. Como aprendemos com Stela precisamos ser livres para atravessar os portões. “Estar internada é ficar todo o dia presa.”

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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