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Coluna

Joga bola, jogador: um texto sobre despedidas

    Como acadêmica e intelectual pública, a responsabilidade de contar a história dos outros passa pela abertura, pelo compromisso e pela escuta

    Estou há duas semanas pensando como é estranho se despedir de quem a gente não conhece. Era sábado, dia 10 de agosto. Eu estava feliz. De biquíni, pensando em ir à praia. Com surfe e banho de mar, pretendia agradecer à Iemanjá pela noite gloriosa de lançamento do meu livro no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). 13 anos depois da publicação do Manifesto Anticotas e depois de 122 anos da desistência de Lima Barreto em dar continuidade ao curso de Engenharia devido ao racismo, lá estava eu.

    Vestida de linho branco, no Salão Nobre do mesmo prédio em que esses dois fatos aconteceram, afirmei o seguinte: “Você pode substituir Mulheres Negras como objeto de estudo por Mulheres Negras contando sua própria história”. A emocionante apresentação de minha amiga e jornalista Flávia Oliveira sobre a importância dos títulos formais conquistados em meu trajeto assim como a plateia, lotada de crianças, estudantes, ativistas, jornalistas, editores, mães, pais, avós, tios, amigos e familiares reforçaram a certeza sobre a qual todos os dias aprendo. Meu trabalho acadêmico é missão. Um plano ancestral que me cabe executar da melhor forma.

    Pensando em tudo isso, sentada no café da esquina, rolo o feed do Instagram. Deparo-me com uma fotografia de família ilustrando um texto assinado por Stéphane Marçal Sabino. Intelectual negra brilhante, estudante do curso de letras da UFRJ, a autora despedia-se, com palavras, de seu primo Gabriel Pereira Alves, um jovem de 18 anos. Estudante do terceiro ano de ensino médio e jogador de futebol do Olaria Futebol Clube, o rapaz foi atingido por uma bala — enviada pela violência do poder público — enquanto aguardava, uniformizado, o ônibus para ir à escola no dia 9 de agosto de 2019.

    Como uma professora ativista dos direitos humanos para população negra e cidadã, moradora de uma cidade governada com tiro, porrada e bomba, a história de Gabriel, ocorrida na rua Conde de Bonfim, na Tijuca (próximo à minha casa), infelizmente não é surpreendente, tão pouco representa a última. Entretanto, para mim, existiu algo novo. Pela primeira vez, convivi de perto com a dor da perda de uma pessoa devido à política de extermínio do Estado brasileiro. De posse desse entendimento, a substituição da praia pelo Morro do Borel tornou-se inevitável, oportunizando-me uma das experiências mais bonitas e grandiosas que já vivenciei. Agir, pensar e sentir a partir de um jovem e do que sua vida representa para a família e sua comunidade.

    Por não ser uma pessoa da favela, existe certo desconforto para narrar esta história, que é minha sem ser minha. E o importante de ser frisado, considerando meu lugar de acadêmica, é que justamente por não ser favelada possuo o poder de contá-la na primeira pessoa. De ser lida. Escutada. Poder conquistado do qual lanço mão.

    Por mais que eu estivesse ali devido à morte, o tempo todo falávamos de vida. De encontros. Alegria. Sonhos. Trabalho. Investimento. Oportunidades.

    Por mais que o clima estivesse tenso, no mototáxi da Rua São Miguel até a comunidade do Terreirão vivi muitas cenas que não costumamos associar à favela. Crianças sendo cuidadas por suas mães, comerciantes empreendendo em gastronomia, música e vestuário, pais jogando bola com seus filhos, carros estacionados, fachadas de organizações culturais. A favela é tudo isso e muito mais, explicou brilhantemente Flavia Oliveira. Essas imagens da vida preta contrastam com o taxista do asfalto, que convicto me disse: “O problema da Tijuca é o Borel”. Moço, não diga isso. O Borel é a solução da Tijuca e do Rio de Janeiro. Desse complexo de favelas diariamente sobem e descem pessoas da classe trabalhadora que fazem a nossa cidade acontecer. Precisamos enxergar esta verdade. “Vendo por esse lado a senhora está certa”. Ufa!

    Em meio a tanta vida criativa, chegamos com Stéphane à casa de Gabriel. Lá tem D. Rose. Mãe que até a manhã de sexta-feira, 9 de agosto, estava se dividindo entre o trabalho na creche e a tomada de decisões do que sua família faria para comemorar o aniversário de Seu Fabrício, esposo e pai de Gabriel. “Íamos fazer um bolinho, minha filha”. “Ganhei de presente a morte de meu filho”. São falas de dois cidadãos cariocas sobre uma vida que, mesmo retirada, segue pulsando.

    Uma das coisas importantes dessa história precisa ser contada. Estamos diante de uma família estruturada, com organização emocional, financeira, política. Essa é outra representação negada às pessoas faveladas, objetificadas como seres “largados à própria sorte”, conforme afirmou Florestan Fernandes em “A integração do negro na sociedade de classes”. Gabriel tem (é duro dizer tinha!) mãe, pai, irmãos, tias, tios, primos, amigos, namorada. Acabara de ganhar de presente de D. Rose a matrícula na autoescola. Começaria sua iniciação no volante na segunda-feira. De forma mais direta, assim como Stéphane e milhões de jovens negros, tratados como alvos, Gabriel Pereira Alves foi resultado de um projeto assinado por Rosemar Pereira Marçal, Fabrício Pereira Alves e toda uma família, que vibrava e o apoiava na busca de seus sonhos. A gente lembra de projetos da favela interrompidos: #MariellePresente #LibertemDJRennandaPenha.

    Engraçado aparecer aqui “envolvimento”, palavra usada para desumanizar os meninos que trabalham no tráfico de drogas. “Ele tem envolvimento”, costuma-se dizer. Gabriel, por sinal, não tinha nenhum. Já o meu envolvimento com a família cresceu muito. Fiquei me perguntando o porquê. Uma das respostas é: por mais que eu estivesse ali devido à morte, o tempo todo falávamos de vida. De encontros. Alegria. Sonhos. Trabalho. Investimento. Oportunidades. O bolo de laranja e o café adoçado na garrafa, feitos carinhosamente por Regina, uma das tias de Gabriel, fizeram com que, em uma espécie de transe, a gente acreditasse que estávamos ali para celebrar a vida. O mais bonito é que realmente estávamos.

    O fato de “ser a professora da Stéphane” está me fazendo pensar muito no meu papel político de acadêmica e intelectual pública. Na responsabilidade que quem “não é da favela” precisa ter com as pessoas da favela. Não tenho resposta, mas tenho abertura, compromisso, escuta. E aqui lembro da conferência de Angela Davis na Universidade de Princeton: “Acadêmicos precisam parar de usar a academia como desculpa para não fazer nada”.

    Biel, eu li seu caderno todo. Você é um jovem cheio de vida, talento, inteligência. Um orgulho de menino para o Brasil. Queria te receber em 2020 como meu aluno na UFRJ. Não deu. Sinto muito por essa bala. Quero agradecer a você e à sua família por tantos ensinamentos sobre a arte da vida. Entre eles, o de nos despedirmos cantando “como é grande o meu amor por você”. Joga bola, jogador. Descanse em paz.

     

    “Para nós ele nunca será só mais um. Ele será sempre Gabriel Pereira Alves”.

    (23/05/2001 - 09/08/2019)

     

    Nota de despedida:

    Existem também aquelas despedidas que merecem ser celebradas. Após um ano e meio de trabalho, 39 colunas, onde com o método da “narrativa na primeira pessoa” visibilizei o trabalho intelectual de mulheres negras, despeço-me do Nexo Jornal. Decisão que tomei de forma planejada, dentro do que acredito sobre compromisso, reconhecimento e novos voos. Agradeço a toda a equipe na figura do meu editor José Orenstein, o Zé, pela parceria. Uma grande oportunidade, retribuída, entre outras, por um feito inédito na história do Nexo: a publicação de um livro autoral que eterniza na cultura impressa o conteúdo deste importante jornal. Deixo para o fim aquele super obrigada ao meu público. Nesse tempo vocês me presentearam com muito carinho, saberes, provocações e energias positivas. No Brasil, mulheres negras que conquistam espaços de poder através da palavra escrita continuam sendo minoria. De posse desse lugar agradeço aos meus orixás pela oportunidade de seguir escrevendo novas histórias. Modupé!

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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