Coluna

Ibejis, alegrias e juventude negra em profunda tristeza

    No Brasil do século 21, os jovens negros estão mais vulneráveis, pois seus corpos, em tese livres, não são posse de ninguém senão deles próprios

    Setembro é o mês dos Ibejis e minha intenção inicial era falar sobre alegrias, sobre celebração da infância, fé e da expectativa do convite do caruru. Contudo, o mês de setembro também é mês de refletir sobre suicídio, tema que pensei em não abordar. Eu queria falar de algo positivo, de alegria e cultura popular, mas eis que as próprias crianças acabaram me apontando como os temas encontrariam um ponto de diálogo que conduzisse este texto para uma reflexão sobre infância, violência, tristeza, melancolia e suicídio.

    Numa certa quarta-feira, caminhava pela cidade de Cachoeira quando avistei, ainda bem cedinho, dois meninos negros caminhando pela praça. Não eram sete da manhã e já estavam felizes, sendo meninos, divertindo-se. Eu os reencontraria mais tarde na feira livre, quando os reconheci durante um longo debate entre eles e um homem mais velho, que aconselhava um terceiro garoto sobre o uso de um boné: “Rapaz, não use esse boné assim não. Os homem já não gostam da gente, você ainda usa esse boné assim, vão achar que você é ladrão”. O menino olhou assustado. Como poderia a forma de usar um boné provocar problemas com a polícia? Sua resposta, cheia de coerência e inocência foi perfeita: “Oxi, mas eu não faço nada errado?!”

    Um segundo homem se juntou ao diálogo. Tirou o boné da cabeça do menino e o recolocou da forma que achava ser adequada. “Pronto, bote assim, agora sim, assim eles podem ver seu rosto e não achar que você está querendo se esconder e nem deve nada a ninguém.” O menino que eu encontrei mais cedo achou tudo um exagero, riu e disse que ninguém podia vigiá-los o tempo todo. Resolvi intervir, e disse: “Eu lhe vi mais cedo no jardim, você estava jogando pedra nos pombos.” Ele arregalou os olhos e a senhora que vendia frutas, a qual ele chamava de tia, disse: “Viu? Sempre tem alguém de olho na gente.” Portanto, eis aí o tema deste texto, que eu acredito que tenha sido apontado pelos Ibejis: a juventude negra está em risco, pois, dentre outras coisas, está se sentindo melancólica. Garantir a vida e a integridade da juventude e pensar estratégias políticas para preservá-la devem ser objeto de debate público. A tristeza está adoecendo meninas e meninos negros; também não está fácil para elas e eles viver no Brasil.

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    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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