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Coluna

Eu sou porque nós somos. Marielle nunca esteve tão viva

    É certo que ela não precisava morrer para que o Brasil aprendesse de vez como a violência é epidêmica por aqui. Mas o legado mais forte que ela nos deixou foi seu exemplo de ousar imaginar um Brasil diferente, mais inclusivo e plural

    Faz um pouco mais de um ano que Marielle Franco foi brutalmente assassinada. Desde a semana passada conhecemos os dois suspeitos do assassinato, possivelmente mercenários, ambos policiais militares: um se aposentou, isto é, está reformado, e outro foi expulso por fazer “bicos” de segurança ilegais. Nada sabemos, porém, sobre o mandante ou os mandantes do crime. O que, sim, sabemos é que a polícia encontrou 117 fuzis M-16 na casa do amigo de um dos acusados, no Méier, na Zona Norte do Rio, em mais uma prova de como armas em casa não são sinal de pacificação.

    Há quem diga que o problema dos envolvidos era uma certa “obsessão com as esquerdas” e que o computador de um deles estaria cheio de frases ligadas à ideologia do “supremacismo branco”. Há quem diga, ainda, que o alvo da dupla poderia ser qualquer um do campo das esquerdas; a seguir essa tese, a morte da ativista teria sido quase um acaso. Da minha parte, cada vez mais tenho convicção de que o objetivo era, sim, Marielle Franco. Na verdade, quem a matou foi o próprio Estado brasileiro que não sabia onde alocar uma vereadora que falava a partir de lugares sociais que costumam ficar invisíveis. “A favela sou eu”, costumava afirmar a ativista, que se autodefinia, igualmente, como lésbica, mãe jovem e solteira, pobre e negra. Solidária à comunidade, ela mostrava não ter medo de morrer, além de provocar: “o dia que a favela não sair, não descer à cidade para trabalhar a cidade não acontece”. 

    Ademais, devia ser complicado enquadrar uma pessoa como Marielle, que conseguia enxergar as dificuldades das pessoas, mas preferia explorar potencialidades. Se cuidava de denunciar violências cometidas contra a população, mostrando o abuso de autoridade, a letalidade das ações da PM e também as ligações de alguns policiais cariocas com as milícias, ela também se preocupava com os PMs mortos, e suas famílias, em sua maioria (e não há coincidência aqui) negros.

    Marielle fazia muito barulho dentre os vereadores do Rio, com suas roupas coloridas que destoavam em meio a um mar de ternos em vários tons de cinza. Aliás, no seu um ano e meio como vereadora, ela se destacou por incluir pautas plurais e estranhas naquele ambiente homogêneo e composto, em sua vasta maioria, por homens brancos, de meia idade, com ideias e visões de mundo muito semelhantes. Uma das muitas frases que se colaram à ativista, e que não tinha nada de jogo de efeito, pois era uma necessidade naquele contexto misógino, foi produto daquele lugar e dinâmica, mas ganhou as ruas com um sonoro, “Vocês não vão me interromper”, ecoado na capital carioca por mulheres de várias idades, cores, situações sociais e regiões.

    O Brasil não é, e nunca foi, uma democracia social. Os números elevados de feminicídios e de transfeminicídios, os ataques sistemáticos às minorias sociais, em especial às populações negra e indígenas, estão por aí para comprovar

    Dona de frases lapidares e emblemáticas, nos lugares que fosse repetia mais um outro bordão: “Eu sou porque nós somos”! Sim, pois a pauta de Marielle não segmentava. Ela era muitas e fazia política com afeto unindo setores muitas vezes distintos. Tanto que se elegeu com o voto da Zona Sul do Rio de Janeiro.

    Essas são imagens de Marielle que trago comigo, mas que foram também “tomadas de empréstimo” de Mônica Benício (viúva de Marielle que se reinventou como ativista no meio de tanta dor) e de Fernanda Chaves; assessora dessa que foi a quinta vereadora mais votada no Rio, e que estava no carro, junto com ela, na ocasião da chacina.

    Mônica e Fernanda participaram de um seminário realizado na universidade norte-americana de Princeton, chamado “Black Feminisms across the America: a tribute to political activist Marielle Franco” (Feminismos negros nas Américas: um tributo à ativista política Marielle Franco”), onde tive a oportunidade de aprender muito e praticar a arte que mais aprecio: a escuta.

    Lá estavam também outros nomes importantes como de minha “amiga, colega de academia e parceira de colunas de terças-feiras no Nexo”, Giovana Xavier, que dentre outros chamou atenção para um tema crucial de nossa agenda atual. Se quisermos, mesmo, “descolonizar” nossas formas de saber vamos ter que incluir e reconhecer outras formas de conhecimento; não apenas aquelas canônicas e consagradas pela universidade.

    Também participou do encontro a imensa Angela Davis, professora, escritora, filósofa, ativista, que explorou o conceito de “feminismo negro abolicionista”. Davis defende uma visão plural do feminismo, aquele que “imagina novos mundos”, e “novas possibilidades de liberdade,” disse ela. Ela também discorda da maneira como a academia tem ficado presa a seus próprios conhecimentos, criando áreas e se mantendo “atada” a elas, como se fossem propriedade privada. A conclusão é que não há um fora e um dentro, universidade ou ativismo, pois o perigo é “confundir nossas teorias com a própria realidade”.  Outra lição é que o feminismo negro tem muito a ensinar e que não basta ter como objetivo  ocupar os mesmos postos masculinos e reproduzir desigualdades. Melhor é advogar a utopia de um mundo diferente, menos hierárquico e mais plural. Um mundo abolicionista.

    Uma coluna não é bom lugar para resumir um evento que passou; ela costuma funcionar melhor se expressa o sentimento que ele deixou. Depois de assistir ao sensível documentário sobre Marielle (e o que ela significava), realizado por Jamille P. Dias e Débora McDowell; de ouvir a provocação de Carolyn Rouse, dizendo que era preciso retomar “as ferramentas do senhor de terras” para então desmontá-las, de ouvir Tianna S. Paschel explicando o quão antigos são os movimentos negros feministas; de escutar Mario Medeiros explicando a dupla morte desses grupos e pessoas — a física e a morte da memória —; ou de aprender com o mestre Arcádio Diaz que nos descreveu as “artes de bregar”, quando se reconhece que o inimigo é mais forte, mas não se desiste fácil, pois assim aprendemos a negociar e a ganhar território, parei para pensar em Marielle e também no sintoma que ela criou.

    Imagino que o mandante do crime há de ter imaginado que Marielle seria um alvo fácil. Não entendeu, porém, que ela não morreria na memória. Aliás, nas ruas do Rio, de São Paulo, de Campinas, de Belo Horizonte, de Lisboa, Buenos Aires, em várias universidades brasileiras e norte-americanas, nas TVs, nas rádios, nos jornais, em tantos lugares, a vida da ativista foi lembrada e celebrada como símbolo de um Brasil muito diferente desse que hoje vivemos, tão dado a cultivar maus valores e a pregar o ódio.

    É certo que ela não precisava morrer para que o Brasil aprendesse de vez como a violência é epidêmica por aqui. É verdade que seu corpo não precisava ser chacinado para que finalmente destruíssemos no exterior a imagem de que essa é uma nação mestiçada e democrática. O Brasil não é, e nunca foi, uma democracia social. Os números elevados de feminicídios e de transfeminicídios, os ataques sistemáticos às minorias sociais, em especial às populações negra e indígenas, estão por aí para comprovar. 

    No entanto, o luto e a revolta provocaram reações inesperadas, e dos dois lados. De um lado, a força de Marielle carregava tal potência, que até mesmo na hora da sua morte, seus inimigos ao invés de fazerem discursos de congraçamento, apostaram no escárnio, na ironia e na disseminação de fake news. Alguns afirmaram que ela era namorada do traficante Marcinho VP; outros quebraram uma placa com o nome da vereadora, sendo que um deles, o deputado estadual Rodrigo Amorim, ainda mantém a metade rasgada em seu gabinete. A negativa é também uma forma, enviesada, de reconhecimento. Afinal, não se faz tanto barulho se o alvo de ataque não tem o potencial de multiplicação que mostrou ter.

    De outro lado, foram muito maiores as reações de contrariedade diante do destino tragicamente ceifado da vereadora. Mais impressionante é que a memória de Marielle não ficou apenas na vitimização. Ela foi, de fato, uma vítima da nossa violência descontrolada, do arbítrio dos poderes privados e da política de ódio que temos vivido no Brasil. Todavia, o legado mais forte que ela nos deixou não foi, com certeza, a sua morte, mas a vida da vereadora e seu exemplo de ousar imaginar um Brasil diferente, porque mais inclusivo e plural.

    Num dos vários momentos lapidares da palestra de Angela Davis, a professora explicou que “o que nós professores fazemos melhor é treinar jovens para fazer coisas lindas nesse mundo. Fazer perguntas e assim fazer uma diferença nesse mundo”.   Num dos belos episódios que Fernanda Chaves relatou, estava uma figura de linguagem retirada de uma expressão que circula nas favelas cariocas, e que foi muito usada por Marielle, que costumava provocar, dizendo que o que nós queremos “é o baile todo”.

    Marielle não está mais andando pelas ruas bradando por nossos direitos ou interrogando seus colegas vereadores. Quem sabe é chegada a hora de todos nós ocuparmos os vários espaços onde a ativista circulava, reconhecer as várias Marielles que ainda estão por aí, para mostrar como não é mais possível viver numa bolha e habitar apenas um lugar.  “Eu sou porque nós somos”.

    A ativista de roupas e turbantes coloridos nos deixou para residir em cada um de nós. Até em respeito à sua memória termino essa coluna com uma pergunta que não quer calar: o que nós queremos, mesmo, saber é: quem mandou matar Marielle e Anderson? De peixes pequenos o mar está repleto. Hora de caçar os tubarões.

     

    PS: Esse seminário foi organizado pelo Brazil Lab, mais especificamente por Marília Librandi, João Biehl e Pedro Meira Monteiro que, coerentes e generosos, fizeram com que o “baile todo” pudesse dançar.

     

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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