Não tem outro nome: é uma máfia que se apossou de pedaços enormes do máquina pública

É ruim quando nos roubam. É pior quando o Estado usa nosso dinheiro para financiar quem nos rouba.

É bem ruim viver sob a ameaça de uma organização criminosa. É bem pior quando a organização criminosa captura o Estado e não só nos ameaça, mas usa nossos próprios meios, tomados de nós via impostos, para nos prejudicar. A isso se chama de máfia.

Não é de ontem nem de anteontem que o Estado brasileiro é corrupto. O que parece ter mudado mais recentemente foi o quanto ele é mafioso. Corrupção é ruim: é como o Predador daquele filme de suspense, o monstro espreitando na floresta para atacar você. Máfia é pior: é como o Alien do filme clássico, que se alimenta de suas próprias entranhas para tirar a força que ele usa quando você menos espera, para matá-lo de dentro para fora. Se a máfia toma o Estado, põe a nação toda para trabalhar para ela. E acabamos todos, querendo ou não, a serviço da máfia.

Os primeiros meses de 2019 foram reveladores sobre o quanto organizações mafiosas se infiltraram nas instituições do nosso Estado. Se você não leu ainda a estarrecedora reportagem da piauí, A Metástase, sobre como esse processo tomou o Rio de Janeiro, faça isso correndo - ela está temporariamente aberta para não assinantes, e é uma aula sobre a tragédia que se apossou do nosso país enquanto estávamos ocupados fazendo guerra de memes no Facebook.

A matéria puxou o novelo a partir do assassinato de Marielle Franco, um ano atrás,  e acabou revelando prováveis cúmplices dos criminosos com cargo de delegado, de assessor, de procurador, de deputado, e daí para cima, talvez bem para cima. À medida que o quadro vai sendo pintado, fica claro que opera na máquina estatal do Rio uma vasta máfia, sem tirar nem por, que domina territórios, elege políticos por intimidação nesses territórios, usa esses políticos para se colocar acima da lei, comanda vários braços do Estado, controla negócios escusos de milhões, possui um arsenal mais mortífero do que aquele a serviço da lei e conta com os préstimos de uma agência de assassinatos, operada por supostos servidores públicos. A máfia faz o que quer: desliga câmeras de segurança na via pública, encerra investigações policiais, contraria ordens federais, ameaça jornalista de morte. Ela manda.

Não é sobre Bolsonaro essa história, é sobre o Brasil. Importante mesmo é que essas investigações ajudem a deixar a luz entrar e exponham o quanto do Estado foi tomado pela máfia

Não em tudo, felizmente. O lado bom de ler a matéria da piauí é perceber que há ainda no país, apesar de tanta gente dizendo o contrário, bons profissionais, inteligentes, com a coragem de arriscar a vida em nome de fazer direito o seu trabalho. Aquilo que chamávamos de heróis, antes de ficarmos tão cínicos.

Não sei se por coincidência, nesta semana da mulher, numa investigação do assassinato de uma mulher, mas boa parte desses heróis são mulheres também. Por exemplo, Vera Araújo, repórter de O Globo, que não se conformou com o fato de que, num homicídio em via pública, a polícia não havia encontrado uma única testemunha decente, e foi sozinha fuçar a cena do crime, até encontrar um morador de rua e uma passante que haviam visto tudo, e que tinham sido discretamente dispensados por policiais, para não contarem o que sabiam. Tem também as promotoras Letícia Petriz e Simone Nascimento, que assumiram o caso quando ele já estava prestes a morrer sufocado e, mesmo diante da pressão para que deixassem para lá, acionaram a divisão de combate ao crime organizado da Polícia Civil e investigaram debaixo de todas as pedras que ninguém tinha querido virar até então.

Elas acabaram revelando que os tentáculos da máfia tomaram boa parte do corpo do Estado - a tal metástase de que fala o título da matéria da piauí. Esta semana ficou evidente que o tumor se espalhou por toda parte, e está todo enrolado na primeira família do Brasil, os Bolsonaros, que estão cheios de laços - de amizade, de trabalho, de vizinhança, de admiração - com os acusados de terem matado Marielle. Ronnie Lessa, um policial militar ligado à máfia, mora no mesmo condomínio que o presidente, e é, segundo a polícia, pai de uma ex-namorada de um dos filhos de Bolsonaro. Junte à equação a votação enorme de Flávio na região dominada pela máfia, aos mafiosos que Flávio contratou em seu gabinete, às homenagens que ele fez com dinheiro público a chefes da máfia, aos desvios de dinheiro público feitos em seu gabinete, às críticas gratuitas que o presidente vinha fazendo ao repórter d’O Globo Chico Otávio, um dos responsáveis pela investigação, e o que temos é talvez o maior escândalo da história do Brasil ligando um presidente a crimes hediondos.

Que fique claro: não há nenhuma prova de que Jair ou Flávio Bolsonaro tenham se envolvido no assassinato de Marielle. Nenhuma. Nem sequer há prova de que eles tenham cometido crime. O que há, sem dúvida, é uma quantidade imensa de evidências de que eles têm relações profundas com a organização mafiosa que infiltrou o Estado e da qual Ronnie faz parte. O que se espera é que essas evidências sejam examinadas, como tantas outras de crimes sérios não foram nos últimos anos. Não importa se os assassinos agiram só por ódio ao que Marielle representa ou por contrato, a mando de alguém importante. Importa é entender como a máfia mata quem se coloca a frente dela, como ela chupinha o Estado, e desmantelá-la.

Se essas investigações vão levar ao impeachment do presidente ou à prisão de algum de seus filhos, não dá para saber por enquanto - e nem é o caso de saber. Impeachment ou prisão só devem acontecer em caso de prova que não deixe dúvidas - deveria ser sempre assim, aliás. E isso nem é o mais importante. Não é sobre Bolsonaro essa história, é sobre o Brasil. Importante mesmo é que essas investigações ajudem a deixar a luz entrar e exponham o quanto do Estado foi tomado pela máfia. Para que possamos tomar de volta dela o que é nosso.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.

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