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Coluna

Eleições presidenciais de 1989: já vi esse filme!

    Faz já três décadas que os brasileiros foram às urnas escolher seu presidente, virando a página da ditadura. A história tem o poder de familiarizar e também de advertir

    Em novembro de 1989, 30 anos atrás, realizaram-se as primeiras eleições diretas nacionais, depois da ditadura militar que assolou o país e suspendeu direitos dos brasileiros de 1964 a 1988. O clima só poderia ser de euforia. Afinal, não foram poucas as frustrações, traumas e distopias acumulados nessas três décadas de censura e repressão.

    Talvez por isso mesmo, a notícia da volta do país à democracia entusiasmou os brasileiros. Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves, um político mineiro da velha cepa, venceu uma eleição indireta no Colégio Eleitoral e tornou-se o novo presidente do Brasil, colocando um ponto final no golpe militar que aplicara 17 Atos Institucionais, tolhendo o direito de livre expressão, instaurando a censura estatal e fazendo com que vários cidadãos fossem presos, torturados, assassinados ou partissem para o exílio forçado.

    O destino foi, porém, matreiro, e Tancredo, que já estava doente, acabou morrendo antes de assumir o mandato. No seu lugar, entrou seu vice-presidente, José Sarney, que fazia parte de uma dissidência da Arena (Aliança Renovadora Nacional), renomeada em 1980 como Partido Democrático Social. Esse era também o partido dos militares, e Sarney, que tinha um passado ligado à ditadura, gerou todo tipo de suspeita.

    No entanto, Sarney cumpriu seu papel, no sentido de estabelecer as bases para o retorno da democracia mais efetiva no país. Em 1986, foram abertas eleições para a formação de uma Assembleia Nacional Constituinte, que acabou sendo integrada por líderes vindos das mais variadas tendências políticas. No dia 5 de outubro de 1988, uma nova Constituição foi promulgada, cujo texto foi chamado – e por todos os bons motivos – de “Constituição Cidadã”.

    A Constituição de 1988 estabelecia a realização de eleições para o ano seguinte, e partidos até então clandestinos – como o PCB, o PSB e o PCdoB – foram legalizados de modo a poderem lançar seus candidatos. Com essa sensação de casa e vida nova, não foram poucos os políticos que se apresentaram para disputar a Presidência da República. No total, eram 22 nomes e, aliás, seriam 23, caso Jânio Quadros não tivesse dado “uma de Jânio”, abdicando de sua própria candidatura.

    O certo é que o recorde de candidatos revelava um pouco da atmosfera que unificava boa parte dos brasileiros, que pareciam querer colocar uma pá de cal na ditadura e dar um jeito de “passar o passado a limpo”. O grande número também se explica por causa da circunstância: com pouco tempo para se organizarem ou criarem coalizões, a saída para os partidos foi lançar candidaturas individuais, muitas de última hora. Mesmo assim, grandes nomes apresentaram-se nesse ano: uma constelação de estrelas vindas de todo tipo de planeta. Alguns eram meros diletantes, outros políticos consagrados que passaram por experiências diversas, antes e durante a ditadura.

    O apresentador Silvio Santos, por exemplo, mais conhecido por seu programa de calouros na TV, resolveu testar sua popularidade. Com a campanha presidencial pegando fogo, em novembro de 1989, ele desbancou o pastor evangélico Armando Correa, e virou candidato pelo PMB. Mas a manobra teve braço curto. A despeito de Silvio Santos ter feito várias gravações para o “número 26” do PMB, uma vez que não houve tempo hábil para mudar o nome na cédula, seu registro de candidatura acabou impugnado por irregularidade. Outro candidato que fez fama na TV, por conta da única frase que dizia com veemência – “meu nome é Enéas” –, no curto tempo de exposição que tinha, saiu pelo Prona. Enéas Ferreira Carneiro era médico, militar, físico, matemático, professor e escritor, mas não tinha como decolar. Pelo menos divertia qualquer debate, com seus óculos grandes e barba protuberante.

    As candidaturas não se resumiam, todavia, a meros curiosos ou paraquedistas que caíram no lugar por obra do acaso. Afif Domingos, administrador de empresas, muito bem situado entre os empresários e deputado federal pelo PL desde 1987, buscou consolidar seu nome numa perspectiva nacional. Não foi longe. Aureliano Chaves, ministro de Minas e Energia desde 1985, também viu nas eleições uma oportunidade de lançar seu nome pelo PFL – também uma dissidência da Arena, partido governista pró-ditadura –; se deu melhor como ministro. Fernando Gabeira, de volta do exílio e com uma agenda alternativa, foi o nome escolhido para o PV – o novo Partido Verde. Não se elegeu, mas ganhou espaço na política e na mídia. Leonel Brizola, político tradicional, exilado por vários anos, governador do Rio de Janeiro de 1983 a 1987, juntou seu histórico e atuação política fortes, e foi o nome apresentado pelo PDT. Terminou bem na disputa, chegando a um aguerrido terceiro lugar. Fez bonito, mas não o suficiente para concorrer no segundo turno. O PSDB foi de Mário Covas, que era senador por São Paulo, nome forte do estado e do tucanato. Ele se “atrasou” na corrida eleitoral, e ficou em quarto lugar. Paulo Maluf, deputado federal por São Paulo, conhecido representante do PFL, não fez carreira na eleição. O momento era outro e ele amargou um quinto lugar. Roberto Freire, do PCB, saiu para a disputa do jeito que era possível, uma vez que, como vimos, seu partido tinha recém-saído da clandestinidade. Mesmo assim terminou a disputa em oitavo lugar. Ronaldo Caiado, hoje governador de Goiás e filiado ao DEM, médico e advindo de uma família de produtores rurais influentes em seu estado, contentou-se com o décimo posto. Lívia Maria Pio, a primeira mulher a se candidatar ao cargo de presidente, era advogada e muito inexperiente. Saiu pelo PN. Num debate político de absoluta maioria masculina (como continua sendo), não emplacou. Tentou conquistar uma vaga como deputada pelo Distrito Federal, em 2006, pelo PHS, mas não conseguiu se eleger. Continua desconhecida no cenário político. Até mesmo Ulisses Guimarães, que se tornou famoso e passou para a história como “Dr. Constituição”, por causa de seu papel fundamental na elaboração e estabelecimento do texto de 1988, para estranhamento de muitos, acabou em sétimo lugar na corrida presidencial, atrás de Afif Domingos. Ele era nome fortíssimo do PMDB, com 22 minutos de tempo no horário eleitoral, o dobro dos candidatos mais bem aquinhoados, nesse sentido. Ainda assim, não chegou nem perto do segundo turno.

    Agora que se completam 30 anos da data em que foram realizadas as eleições de 1989, vale a pena refletir sobre os impasses que contextos muito polarizados trazem. As semelhanças são muitas e lembram o estilo e os procedimentos de nosso atual presidente

    Enfim, se não há espaço para mencionar todos os candidatos, os aqui até aqui citados já dão conta de mostrar como o eleitor de 1989 não tinha, nesse pleito, problemas de cardápio. Mas a disputa para o segundo turno ficou mesmo entre dois candidatos muito diferentes, social e politicamente falando: Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva.

    Collor candidatara-se pelo pouco conhecido PRN, Partido da Reconstrução Nacional, criado em 1985 com o nome de Partido da Juventude, PJ, e que fora rebatizado em fevereiro de 1989, com a filiação do político alagoano. Se o candidato era desconhecido nacionalmente, apresentava currículo político bastante consolidado em seu estado: atuara como prefeito de Maceió de 1979 a 1982, como deputado federal de 1983 a 1987 e como governador de 1987 a 1989. Fora do seu estado, pouco se sabia dele, mas o que se sabia não depunha a seu favor. Seu pai, Arnon Afonso de Farias Mello, fora deputado federal, governador e senador por três mandatos consecutivos, tendo assassinado seu colega José Kairala, à queima-roupa e no Senado, sob alegação de que pretendia evitar outro crime; Arnon jamais foi acusado formalmente pelo homicídio. A política regional fazia parte do DNA da família; seu avô materno, Lindolfo Collor, fora deputado federal pelo Rio Grande do Sul, tornara-se um dos líderes da Revolução de 1930 e ministro do Trabalho, Indústria e Comércio no governo de Getúlio Vargas.

    Numa época sem redes sociais, Collor construiu a imagem de um político renovado, jovem, bonito e atlético, sendo sempre fotografado em carros potentes, motos e até pilotando jet-ski com seus cabelos lisos ao vento. Ficou famoso por seus ternos bem cortados e gravatas fortes, apresentando-se como um candidato da burguesia e dos bem-postos, que estavam habituados aos privilégios e rituais do poder. Continuava sendo um “elegante desconhecido” para a maioria dos brasileiros que viram nele uma aposta pelo “novo”, sem saber como ele era “velho” no mundo da política local.

    Já Luiz Inácio Lula da Silva era nome tão conhecido como, de certa forma, temido. Além de ter assumido uma notável liderança como deputado constituinte pelo Partido dos Trabalhadores, era umbilicalmente ligado a seu partido. Ele foi fundador e o primeiro presidente do PT, cargo que ocupou até 1988. De origem muito pobre, migrou com sua família, ainda jovem, de Pernambuco para São Paulo. Transformou-se em ativista e sindicalista influente no ambiente acalorado dos metalúrgicos do ABC paulista. Na época da ditadura, liderou greves operárias no local, e, depois de fundar o PT, tornou-se um dos principais nomes do movimento pelas “Diretas Já” (1983-1984) e do período de redemocratização. Em 1986, elegeu-se deputado federal por São Paulo, com uma votação recorde no estado.

    Como há de ter ficado claro, havia um abismo profundo entre os dois candidatos. Um operário, outro de família rica; um sindicalista, outro adepto da política tradicional e regional; um assumidamente de esquerda, o outro declarando-se liberal; um falava grosso e alto como ativista que era, o outro abusava de termos estrangeiros, apresentava-se como um cidadão do mundo e mantinha um estilo, digamos assim, elegante; um tinha base partidária forte, o outro arranjou um partido para chamar de seu.

    Faz parte da democracia, porém, fazer as diferenças dialogarem e foi com esse espírito que se abriu a disputa do segundo turno. Seguindo-se o texto da nova Constituição, e como nenhum candidato conseguira maioria absoluta, as eleições se realizaram em dois turnos: o primeiro fora realizado em 15 de novembro de 1989; já o segundo ocorreu em 17 de dezembro. E nesse espaço de tempo a briga correu pesada. Foram apenas dois debates televisivos, mas o clima de polarização ficou imediatamente claro. O termo polarização é sempre complicado, uma vez que unifica os dois lados da contenda, quando, na verdade, e muitas vezes, os recursos utilizados são muito distintos. Sobretudo no segundo debate, os ataques pessoais afloraram. Para piorar, a Globo foi acusada de ter favorecido o candidato da PRN, já que ele teria contado com um minuto e meio a mais que o adversário. O PT chegou a mover ação contra a emissora, alegando também que os trechos do debate apresentados no JN antes das eleições favoreciam a Collor. E quando faltavam cerca de dez dias para o encerramento do horário eleitoral, um boato chegou ao comitê eleitoral do PT: pessoas ligadas a Collor estavam negociando com a enfermeira Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, a gravação e exibição de um depoimento bombástico em que o ex-presidente do Partidos dos Trabalhadores era acusado de não ter reconhecido uma filha legítima. Enfim, exemplos são muitos e dizem respeito à maneira como o debate passou da esfera pública para a privada e com graves consequências.

    Dizem que história não se repete, e que não adianta tentar prever o futuro. Mas agora que se completam 30 anos da data em que foram realizadas as eleições de 1989, vale a pena refletir sobre os impasses que contextos muito polarizados trazem. As semelhanças são muitas e lembram o estilo e os procedimentos de nosso atual presidente. Assim como Bolsonaro, Collor sagrou-se vencedor com panca de “novidade”, tendo logo mostrado que era político autoritário, conservador e dado à malversação do dinheiro público: tinha estrada na má política. Na retórica do “novo”, a única diferença entre eles é a idade em que assumiram a presidência: Collor tinha 40 anos, Bolsonaro, 64. O candidato do PRN vinha de partido fraco – um arranjo político para vencer as eleições – e hoje sabemos que o PFL, partido que o chefe do Executivo deixou para fundar o seu próprio, também não passou de uma bengala fraca. Na época como hoje, difundiu-se um grande antipetismo que fez com que, no segundo turno, as elites se unissem contra o candidato operário, com jeito e histórico de ativista.

    Deixo a vocês a tarefa de estabelecer os demais paralelos. O fato é que Collor ganhou o segundo turno com 53,03% dos votos, contra 46,97% de Lula. Sabemos como termina essa história: o impeachment do presidente ocorreu em 1992 e sua renúncia se deu no final desse mesmo ano. Collor se encastelou em seu grupo, estava cada vez mais isolado e não aguentou a pressão.

    A história tem o poder de familiarizar, mas também advertir. Foi o escritor Timothy Snyder, no seu livro chamado “Sobre a tirania”, quem chamou atenção para o fato de que “não somos mais sábios que os europeus que viram a democracia dar lugar ao fascismo, ao nazismo e ao comunismo stalinista no século 20. Nossa única vantagem é poder aprender com a experiência deles”. Tenho lá minhas dúvidas se estamos aprendendo alguma coisa, mas olhar com cuidado as eleições de 1989 leva a uma impressão de “déjà-vu”, uma forma de ilusão da memória que faz com que as pessoas acreditem já ter visto alguma situação de fato desconhecida ou nova para si. O certo é que a sensação é de “cenas do capítulo anterior” ou de uma sorte de paramnésia. Melhor sonhar bem acordada.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças", “As barbas do imperador", “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário" e "Dicionário da escravidão e liberdade", com Flavio Gomes. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp.

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