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Coluna

#ElaQuerTudo: por que não?

    A narrativa de uma mulher negra na primeira pessoa ainda é coisa rara. Série do diretor Spike Lee revela a potência desse tipo de história, que precisa ecoar mais no Brasil

    Maternidade, trabalho acadêmico, gestão do lar… O sábado cinza, antecedido por uma sexta-feira dedicada à transferência da cozinha para sala devido a uma obra emergencial, colocou-me a pensar. Após longo café da manhã entre mães, filhotes e Barbies, é hora de me despedir de Peri. Um até logo de sete dias, delimitado pela guarda compartilhada, com rodízio semanal. Cumprido o ritual de entrega ao pai, eu, dona de uma rotina milimetricamente cronometrada, vi-me em posição raríssima.

    Sozinha, com tempo livre, sem ter de sair esbaforida para o próximo compromisso. Inusitada, a situação gerou-me estranhamento. Logo lembrei dos debates sobre solidão da mulher negra. Mas, em vez de encaixar minha história num pacote pronto, resolvi escrevê-la sobre novas bases.

    Na companhia da mochila roxa, entrei em um simpático hotel, que também abriga um café. Escolhi uma mesa ao ar livre. Sentada na área verde, pedi um chá. Abri o laptop. Comecei a trabalhar. Quando me dei conta já era noite. Eu e o computador adesivado com “Marielle Presente” e “Você pode substituir Mulheres Negras como objeto de estudo por Mulheres Negras contando a sua própria história” destoávamos. Sentimento gerado diante das pessoas que chegavam para curtir os embalos de sábado a noite. Dei uma volta no bairro, comprei pão de queijo artesanal e congelado para Peri. Pedi uma pizza para viagem. Antes que a chuva caísse, fui para casa. Sem cozinha, abri a porta feliz com a chance de caminhar com, em vez de contra, o tempo.

    Mais do que “diário” ou “relato”, categorias, como lembram Conceição Evaristo e Grada Kilomba, usadas para desautorizar conhecimentos não hegemônicos, o texto acima é registro raro na história do Brasil. Estou me referindo à narrativa de uma mulher negra na primeira pessoa – tal qual também observamos na segunda temporada de “Ela quer tudo”. Dirigida por Spike Lee, a série, é baseada no filme homônimo, primeiro do diretor (1986). Em ambas as versões, acompanhamos a história de Nola Darling. Uma promissora artista de 25 anos, envolta em questões sobre amor, família, trabalho, ativismo.

    Na primeira temporada (2017), o tema central foram os relacionamentos afetivos de Nola, uma mulher negra incrível que, de forma livre e criativa, dizia não a padrões impostos pelo patriarcado. Através de sua arte “My Name Isn’t” tornou-se inevitável discutir temas como cultura do estupro e hipersexualização de mulheres negras. Obviamente que as transgressões da protagonista, narradas sob o ponto de vista masculino do diretor Spike Lee, também carregam controvérsias. Elas sobressaíram em uma crítica importante feita à série, relacionada à “desumanização de mulheres negras não heterossexuais” e à maneira falocêntrica de retratar os relacionamentos, desconsiderando intersecções de gênero, raça e classe.

    Essas críticas não invalidam a potência da série. No caso do público brasileiro, o acesso à imagem e à história de Nola Darling é relevante para analisarmos o protagonismo de mulheres negras no tempo presente. Djamila Ribeiro e Jarid Arraes no mercado editorial. Erica Malunguinho e Renata Souza na política institucional. Renata Felinto e Rosana Paulino nas artes. Angela Brito e Tenka Dara na moda. Luiza Brasil e Nátaly Neri na influência digital. Luciana Brito e eu mesma na academia. Assim como Nola, com suas longas tranças e afiadas concepções sobre afirmação racial, no Brasil do patriarcado, todas nós (e muitas outras) ainda provocamos estranheza e rejeição, apesar do indiscutível sucesso.

    A notável chance de estabelecer conexões diaspóricas para refletir sobre a categoria “mulher negra de sucesso” e o lugar do trauma na construção das nossas identidades já seria argumento suficiente para justificar a relevância da série no maior país da América Latina. Mas, para além desse olhar em escala micro, focado nas subjetividades, a segunda temporada também se destaca por pautar debates essenciais da macropolítica. Capitalismo, racismo, globalização, abolicionismo penal. Sem spoiler, vale destacar: a ênfase nas experiências latino-americanas, em especial Porto Rico e República Dominicana. A crítica às políticas de imigração, ao desemprego, à gentrificação nas grandes metrópoles. Todos estes problemas mundiais, que só crescem também no Brasil.

    Merecem textos específicos a abertura de cada episódio, feita através de uma primorosa seleção de fotografias da história afro-latino-americana e a trilha sonora que conta com Erykah Badu, Hector Lavoe, Marvin Gaye, Nina Simone, Olatunji, The Jones Girls, Sergio Mendes e muito mais.

    Sim. Ela quer tudo. Brasil,  “você precisa reconsiderar”.

    Giovana Xavier é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

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